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Análise: em The Lord of the Rings: Return to Moria (PC), explorar Khazad-dûm é melhor com os amigos

O título desenvolvido pela Free Range Games é a melhor aventura da Terra Média em 2023, mesmo que isso não signifique muita coisa.



No universo d’O Senhor dos Anéis, Moria é uma antiga cidade regida pelos anões e que foi abandonada devido às sucessivas invasões dos Orcs e à constante ameaça do Balrog, a entidade ancestral do fogo (não o lutador de Street Fighter). Após os acontecimentos da trilogia, nos quais o Balrog é derrotado por Gandalf e o Um Anel é destruído na Montanha da Perdição, trazendo paz à Terra Média, os anões decidem recuperar seu antigo território. The Lord of the Rings: Return to Moria (Multi) é o produto surgido dessa premissa.

“Deixe-os vir! Ainda há pelo menos um anão em Moria que ainda respira!”

Quando o jogo foi originalmente apresentado, a alegação de que ele envolveria anões e mineração em ambientes gerados proceduralmente acarretou um entendimento imediato de que provavelmente seria um clone de Deep Rock Galactic (Multi), no qual anões espaciais precisam viajar para minas em planetas distintos no intuito de cumprir diversas missões. 




Uma vez que Return to Moria finalmente chega a nós, essa percepção logo vai pelo ralo, já que ele logo se revela não como um clone de Deep Rock Galactic, mas como um parente meio distante de Green Hell (Multi) ou Valheim (Multi). Ambos são interessantíssimos títulos de sobrevivência nos quais o jogador precisa se aventurar e enfrentar os perigos de um ambiente hostil basicamente com uma mão na frente e outra atrás.

Isso é porque, logo de cara, o anão que criamos se perde do resto da equipe de incursão — liderada pessoalmente por Gimli, o Senhor das Cavernas Cintilantes e personagem clássico daquele universo — ao cair em uma porção obscura de Moria após uma explosão mal calculada dos Portões de Durin, que haviam sido selados pela Sociedade do Anel como uma forma de escapar do Vigia na Água que a perseguia. 

A partir desse ponto, tudo o que resta ao nosso recém-criado anão é sobreviver. Gradualmente, é necessário improvisar criando picaretas, armas e alimentos através de um sistema de crafting que envolve o gerenciamento de recursos, algo não muito diferente do que se vê em outros jogos do gênero. Assim, passo a passo, nos aprofundamos nos confins de Moria enquanto evoluímos nosso personagem.




A mecânica central desse estilo de jogo normalmente implica em avançar um pouco em direção ao nosso objetivo, encontrar um local adequado para montar acampamento, explorar as redondezas o suficiente para coletar todos os recursos úteis, melhorar tanto nosso personagem quanto nossos equipamentos e, então, seguir viagem até o próximo ponto nessa estrutura quase cíclica. Isso sempre estando de olho nos nossos atributos, como fome e cansaço.

Nesse aspecto, enquanto é possível improvisar uma base praticamente em qualquer lugar pelo fato de certas montagens, como a da cama, poderem ser feitas e posicionadas com uma seleção simples em um menu, Return to Moria geralmente entrega de bandeja quais são as melhores localidades para tal, mesmo que os caminhos das minas tenham sido gerados de forma parcialmente procedural.

Fazendo um parêntese, é importante explicar: a geração procedural das minas é feita toda vez que um new game é gerado — isto é, quando criamos um novo mundo para ser jogado. Isso respeita algumas regras pré-estabelecidas pelo sistema na tentativa de tornar o gameplay mais equilibrado.




Retomando a questão das bases, outro ponto relevante a considerar na organização delas é que a escolha de um ponto adequado está intrinsecamente relacionada à arquitetura local, uma vez que nosso refúgio temporário deve ser seguro, não é mesmo? A importância disso fica evidente da pior maneira, uma vez que não é incomum ver o assentamento sendo invadido por inimigos distintos.

Essas invasões não são problema do jogo em si, embora elas evidenciem um dos principais defeitos de Return to Moria: o combate. Não basta ser limitado no sentido de reduzir tudo a ataque e bloqueio, ele também é truncado, com um sistema de colisão bem ruim. Equipamentos melhores ajudam, mas uma eventual invasão inimiga poderia ser menos frustrante se os controles fossem mais polidos.

Tal frustração decorre mais da falta de refinamento do que de qualquer dificuldade imposta. Isso ocorre porque a inteligência artificial dos oponentes é fácil de lidar e prever, já que não é incomum vê-los caindo sozinhos de precipícios, ficando presos em passagens estreitas ou sendo impedidos por elementos básicos do cenário.




Junte todos esses problemas e o que temos será um aspecto do jogo bastante maçante que muito provavelmente será evitado a todo custo. Esse resultado pode ser multiplicado se o jogador estiver em um modo estritamente single-player ou sinceramente amenizado caso haja outros colegas na campanha. 

Inclusive, Return to Moria só mostra seu verdadeiro potencial nesse segundo cenário. Não é impossível jogá-lo sozinho, mas é extremamente mais gratificante dividir tarefas e enfrentar os desafios de Khazad-dûm ao lado dos amigos, seja porque a união faz a força e torna tudo mais fácil ou porque é muito mais engraçado se dar mal em grupo. 



Aliás, um dos aspectos mais encantadores é quando os anões cantam enquanto estão minerando recursos. Uma canção solo já é gratificante, mas há um sentimento único de recompensa e pertencimento ao ver um coral de três ou mais anões cantando à capela durante a labuta.

Ouso dizer que isso torna a experiência de estar no universo criado por Tolkien ainda mais imersiva. Quem já arriscou ler pelo menos O Hobbit, o primeiro livro do autor e, indiscutivelmente, um dos mais simples, sabe que os anões adoram uma bela cantoria, algo que foi replicado em alguns momentos dos filmes.

O trabalho realizado com a mitologia da Terra Média em Return to Moria é notável. Embora a história da campanha seja simples, a equipe de desenvolvimento soube explorar as características desse mundo de forma exemplar. Isso fica evidente desde o início, logo na tela de criação do personagem, onde é possível escolher a qual reino ele pertencerá, como as Cavernas Cintilantes, a Montanha Solitária, as Colinas de Ferro, entre outros.




A arquitetura de Moria é impressionante, embora a qualidade gráfica em si tenha ficado um pouco aquém. Os verdadeiros aficionados sabem que Tolkien tem o hábito de contar histórias através das descrições dos ambientes em suas obras, algo que foi plenamente captado pelos desenvolvedores. Assim, um simples corredor pode conter detalhes que podem passar despercebidos por um leigo, mas certamente irão gatilhar o conhecimento dos fãs mais assíduos.

Morrer só ou ao lado de um amigo?

O maior revés de Return to Moria é que ele parece precisar de um pouco mais de tempo e técnica para realmente ficar nos trinques. Isso começa pela otimização, que não está no melhor ponto possível para o PC, visto que há alguns problemas de processamento que fazem certas texturas e elementos desaparecerem do nada em algumas situações, além das telas de carregamento frequentes, mesmo quando instalado em um SSD. 

Além disso, os sistemas, de um modo geral, poderiam ser mais diversos. As mecânicas de combate são, como já constatado, bem precárias, enquanto o crafting se resume a alguns projetos de utilidade básica (sendo que a de criar plataformas simplesmente resolve a maior parte dos problemas apresentados pela arquitetura das minas) e várias outras sem real influência na jogabilidade, com apelo puramente estético.




Outro ponto que poderia apresentar mais variedade é a criação dos anões. Há uma gama decente de personalização, mas o fato de os gráficos não serem grandes coisas faz com que as opções pareçam mais limitadas. Nesse aspecto, ele se salva bastante pela direção de arte, que sabe muito bem o que faz nesse processo de recriação da Terra Média. Adicionalmente, essa carência de personalização dos anões também respinga na qualidade e variedade dos inimigos que enfrentamos.

O desequilíbrio é notável também. Visando uma experiência multiplayer — algo compreensível — o que significa que os desafios são igualmente difíceis, quer você esteja jogando em grupo ou como um único anão solitário perdido nas profundezas das minas. Isso, inclusive, me trouxe algumas lembranças bem desagradáveis de quando joguei Babylon’s Fall (Multi), que, dentre várias outras, também trazia essa mesma problemática.

Para complementar, ao menos por enquanto, o multiplayer só acontece em salas fechadas — isto é, com os amigos adicionados. Não há matchmaking, não há sistema de lobby para tentar se aventurar por Moria com anões aleatórios. Nada do tipo. Esse é um lapso considerável, a julgar por todo o game design do título. 




No entanto, é seguro afirmar que a maioria dessas frustrações pode ser contornada ou tolerada na situação atual. Com edições para outras plataformas ainda pendentes de lançamento, é possível acreditar que futuros patches serão lançados para aprimorar a experiência, especialmente porque se percebe o empenho da equipe da Free Range Games no desenvolvimento.

Ah, ele é também, facilmente, o melhor jogo de O Senhor dos Anéis lançado em 2023. É claro que isso não quer dizer muita coisa, já que a concorrência é composta por The Lord of the Rings: Heroes of Middle-Earth (Mobile), mais um gacha temático cujo foco é colecionar os personagens, e The Lord of the Rings: Gollum (Multi), que, a essa altura do campeonato, já dispensa explicações. 



Sobrevivendo em Moria

A questão principal do game é que ele só vai agradar a uma intersecção entre dois públicos: os fãs de Senhor dos Anéis e aqueles que apreciam jogos nesse estilo de sobrevivência. Isso acontece porque o entusiasta médio da obra de Tolkien pode achar os sistemas muito trabalhosos e até enfadonhos, enquanto o jogador do gênero certamente não se sentirá atraído pelas mecânicas que outros representantes do mercado fazem melhor.

Assim, The Lord of the Rings: Return to Moria é interessante, mas nichado. Quem for tanto fã tanto do gênero de survival quanto de Senhor do Anéis, vai encontrar um título de jogabilidade que exigirá dezenas de horas para ser devidamente explorado, especialmente com outros jogadores em multiplayer. Entretanto, vale ressaltar que, para os não iniciados, há outras opções mais inovadoras e/ou convidativas.

Prós

  • É o melhor jogo d’O Senhor dos Anéis em 2023;
  • A experiência multiplayer é o verdadeiro tesouro nos confins da mina;
  • Soube trabalhar a mitologia tolkieniana com muita propriedade;
  • Embora os gráficos não sejam grande coisa, a reconstrução de Moria, a nível arquitetônico, é de encher os olhos.

Contras

  • Sistema de combate truncado;
  • Carência de um sistema de matchmaking para o multiplayer;
  • Desequilíbrio na dificuldade quando jogado em single player;
  • Pouca variedade de personalização;
  • Faltou tempo para refinar e otimizar o produto;
  • Há opções mais interessantes no mercado no que diz respeito ao gênero de sobrevivência.
The Lord of the Rings: Return to Moria — PC — Nota: 6.0
Revisão: Juliana Piombo dos Santos
Análise produzida com cópia digital cedida pela North Beach Games

É jornalista formado pelo Mackenzie e pós-graduado em teoria da comunicação (como se isso significasse alguma coisa) pela Cásper Líbero. Tem um blog particular onde escreve um monte de groselha e também é autor de Comunicação Eletrônica, (mais um) livro que aborda história dos games, mas sob a perspectiva da cultura e da comunicação.
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