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Análise: The Many Pieces of Mr. Coo (Multi) é pura simpatia em uma experiência visualmente surreal

Uma homenagem aos saudosos point and click da década de 1990 que esbanja capricho visual, mas entrega um jogo bem básico.


Os jogos do gênero point and click, também conhecidos como jogos de aventura gráfica, foram extremamente populares na década de 1990 e desempenharam um papel significativo no desenvolvimento da indústria de jogos eletrônicos. Esses se destacavam pela jogabilidade centrada na resolução de quebra-cabeças e na exploração de mundos virtuais através de cliques do mouse, em contraste com a ênfase em ação rápida e reflexos.

Durante esse período, duas das principais empresas que dominaram o gênero point and click (LucasArts e Sierra Entertainment) foram responsáveis por popularizar o gênero com títulos icônicos, como a série Monkey Island, Grim Fandango, Day of the Tentacle, Full Throttle, The Dig, King's Quest, Space Quest, Leisure Suit Larry, Torin’s Passage, entre outros.
Também chamados de Adventure Games, o gênero foi extremamente popular no PC durante a década de 1990.
Em 2023, The Many Pieces of Mr. Coo, produzido pela Gammera Nest e distribuído pela Meridiem Games e Astrolabe Games, busca reavivar o encanto e a magia que tornaram esses jogos tão especiais. No entanto, não experimentamos a mesma satisfação que tínhamos ao desfrutar da maior parte dos outros títulos mencionados. Vamos entender o motivo disso na análise a seguir.

Fragmentado

O Sr. Coo é um simpático personagem de cor amarela que nos guia em uma aventura cheia de carisma e bizarrice. Tudo começa quando ele recebe um presente inesperado: uma suculenta e bela maçã. Ao mostrar interesse em saborear a sedutora fruta, ele é transportado para um mundo estranho e de regras próprias, sendo nossa missão ajudá-lo a recuperar essa preciosa maçã.
Seduzido por um preesnte inesperado
A jornada do Sr. Coo é bem-sucedida, mas após essa conquista uma estranha reviravolta ocorre: nosso amiguinho amarelo é dividido em três partes, sendo separados sua cabeça, seu tronco com braços e sua cintura com as pernas. Agora, nossa tarefa é auxiliar o Coo a se reunir consigo mesmo e encerrar essa jornada repleta de surrealismo e simpatia.

Brincando em um mundo surrealista

Logo de início, um dos aspectos que imediatamente capturam nossa atenção em The Many Pieces of Mr. Coo é sua direção de arte. Tudo o que se desenha na tela é resultado de um minucioso trabalho completamente artesanal. Desde os personagens até os cenários, tudo é repleto de detalhes e peculiaridades que nos deixam tão perplexos quanto o próprio Sr. Coo, questionando onde estamos e qual é o nosso propósito ali.

Ao mover o cursor pela tela e clicar em um ponto, indicamos para onde o Sr. Coo deve se deslocar. Quando o cursor se transforma de uma seta em um dedo ao passar por um ponto de interesse, o Sr. Coo executa alguma ação nesse local ao clicar nele, seja acionando uma alavanca, movendo um objeto ou algo semelhante.
Cada cenário desperta ainda mais nossa curiosidade
O objetivo do jogador é resolver quebra-cabeças que se apresentam sob a forma de situações para dar continuidade à narrativa. Por exemplo: em uma das primeiras cenas, Coo se depara com uma máquina de fliperama cheia de fantoches e um macaco com uma bengala. O jogador deve observar atentamente o que ocorre na cena à medida em que interage com ela, a fim de compreender o que é necessário fazer para "resolvê-la" e, assim, avançar na história.

Caso o jogador se encontre verdadeiramente perdido quanto ao que fazer, algumas cenas incluem um livro que está frequentemente localizado em algum ponto do cenário, e que contém dicas sobre como solucionar o enigma daquele momento. Após essa resolução, o jogador é recompensado com o desenvolvimento da história, que mantém nossa atenção constantemente com sua apresentação singular.

Confuso além do necessário

Soluções incomuns para situações inusitadas 
The Many Pieces of Mr. Coo apresenta um enredo confuso, o que, de fato, contribui para o charme da experiência. Resolver situações estranhas de maneiras ainda mais peculiares é o aspecto divertido da narrativa. No entanto, essa confusão ocasionalmente se torna excessiva, prejudicando parcialmente a satisfação do jogador durante a jornada com o Sr. Coo.

Algumas dessas situações são tão estranhas que a resolução dos quebra-cabeças pode se tornar um tanto tediosa. Em certas ocasiões, me vi clicando em vários pontos do cenário na tentativa de encontrar algo que talvez tivesse passado despercebido ou de criar diferentes combinações de movimentos e objetos para desvendar a solução.
As dicas, quando consultadas, são diretas, mas limitadas
A ferramenta de ajuda, embora existente, é limitada. Quando se consulta o livro de dicas em uma cena para obter orientações sobre como avançar, não é possível revisá-lo para tirar dúvidas adicionais até acessar uma nova cena. Os desenvolvedores provavelmente acreditaram que, devido às explicações bastante óbvias fornecidas, uma segunda consulta não seria tão necessária.

Outro aspecto que pode desmotivar tanto os veteranos do gênero quanto os novatos - este último grupo sendo o mais interessante para se apresentar o jogo - é a sua duração. Na minha primeira jogatina, levei cerca de 90 minutos para concluí-lo, incluindo as pausas para resolver alguns enigmas e os momentos de indecisão em busca de soluções menos evidentes.

Uma vez que o jogo tenha sido concluído e você já tenha assimilado como resolver todas as cenas, uma segunda jogada pode ser concluída em menos de uma hora. Para quem busca desbloquear todos os troféus ou conquistas em um console, este título é relativamente fácil, embora o preço possa não ser tão atraente. A versão para PC, disponível no Steam, leva vantagem nesse aspecto, além de oferecer uma jogabilidade mais agradável devido ao uso do mouse.


No console, mesmo com controles como DualShock 4 (PS4) ou DualSense (PS5), que possuem um sensor de toque, este recurso não é explorado. O cursor é controlado pelo analógico esquerdo, o que pode ser incômodo devido à velocidade de movimento. Portanto, é aconselhável dar preferência à versão de PC, caso tenha interesse neste jogo.

Em suma, The Many Pieces of Mr. Coo destaca-se por sua beleza artística, com a arte e a trilha sonora complementando-se para proporcionar uma apresentação impressionante. No entanto, deixa a desejar como jogo, por não trazer nada verdadeiramente inovador ou que prenda nossa atenção por um período prolongado após a conclusão. Há apenas um modo extra para coletar páginas que desbloqueiam artes conceituais e de bastidores da produção, uma adição sutil para disfarçar a falta de conteúdo pós-jogo.

Várias peças de uma experiência singular

The Many Pieces of Mr. Coo se destaca de maneira notável devido à sua envolvente direção de arte e trilha sonora cativante. A experiência é comparável a assistir a uma obra-prima da era dourada da animação no cinema ou na televisão.

No entanto, como jogo, ele se apresenta como uma boa escolha para introduzir o gênero point and click a uma geração que não vivenciou a época de ouro dos jogos na década de 1990. Apesar disso, é importante mencionar que o jogo pode não proporcionar conteúdo suficiente para nos impressionar ou marcar nossa experiência.

Prós

  • Direção de arte cativante;
  • Trilha sonora acolhedora;
  • Ótima forma de introdução ao gênero Point and Click.

Contras

  • Curtíssima duração;
  • Falta de conteúdo pós-jogo;
  • O enredo estranho favorece a confusão na hora de resolver muitos enigmas;
  • A jogabilidade no PC é mais agradável;
  • O custo-benefício nos consoles é péssimo.
The Many Pieces of Mr. Coo — PC/PS5/PS4/XSX/XBO/Switch — Nota: 7.0
Versão utilizada para análise: PlayStation 4
Revisão: Juliana Piombo dos Santos
Análise produzida com cópia digital cedida pela Meridiem Games

Fã de Castlevania, Tetris e jogos de tabuleiro. Entusiasta da era 16-bit e joga PlayStation 2 até hoje. Jogador casual de muitos e hardcore em poucos. Nas redes sociais é conhecido como @XelaoHerege
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