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Análise: Bomb Rush Cyberfunk (PC/Switch) é música, grafitti e estilo na forma de patinação e skate

Explore uma cidade futurista impressionante enquanto faz inúmeros truques radicais.


Em Bomb Rush Cyberfunk, ser extravagante é a regra para se destacar e dominar as ruas. Para alcançar a fama, grupos pintam artes em graffiti elaboradas, usam patins e bicicletas para criar manobras impressionantes e, claro, fogem da polícia quando a baderna passa dos limites. Fortemente inspirado no clássico cult Jet Set Radio, este título indie oferece uma aventura ágil de plataforma e esportes radicais, sendo o destaque a ambientação estilosa embalada por uma trilha sonora repleta de batidas urbanas. O jogo moderniza muitas das ideias do clássico da SEGA, mas podia ter ficado menos no passado.

Em busca da própria cabeça

Os bairros da cidade de Nova Amsterdam são dominados por grupos que usam graffiti, dança e manobras radicais para manterem sua reputação. A rivalidade é grande, mas os confrontos são pacíficos, por mais que às vezes as autoridades apareçam para intervir quando as coisas passam dos limites.

Nesse contexto, acompanhamos Red, um grafiteiro que, ao fugir da prisão, tem sua cabeça decepada por um disco de vinil lançado por DJ Cyber, líder da gangue Futurism Crew. Mas neste universo isso é só um pequeno contratempo: um crânio robótico é colocado no lugar do membro perdido, porém suas memórias foram perdidas no processo.


Para tentar recuperar sua cabeça original, que foi guardada pelo seu agressor para fins nefastos, Red se junta ao grupo Bomb Rush Crew. O objetivo é expandir a influência até dominar toda a cidade, pois o status confere algumas vantagens — até mesmo o larápio de cabeças precisa respeitar esse tipo de autoridade.

A premissa é surreal, no entanto a trama é mais profunda do que parece, explorando temas como pertencimento e identidade. E, naturalmente, a narrativa é repleta de viradas e cenas extravagantes, o que a torna envolvente. Só faltou balancear melhor o ritmo, já que o andamento varia demais entre momentos enfadonhos e frenéticos.



Vandalizando por um universo vibrante

Na prática, Bomb Rush Cyberfunk é uma aventura de ação e plataforma 3D sobre patins, skate ou bicicleta. O ritmo é acelerado, sendo fácil deslizar por canos e paredes enquanto saltamos e realizamos inúmeras manobras. Ao contrário de outros títulos de esportes radicais, os comandos são bem acessíveis: as acrobacias são executadas com simples toques nos botões. Além disso, um foguete embutido na mochila nos permite acelerar rapidamente e até mesmo voar por curtas distâncias no ar.

No controle de algum dos membros do Bomb Rush Crew, precisamos aumentar a reputação do grupo para conseguir enfrentar os líderes locais. A maneira mais simples de coletar influência é pintando artes em diferentes pontos dos cenários. As menores são feitas com o toque de um botão, já os painéis grandes exigem mover a alavanca para montar diferentes padrões, o que define a ilustração que será desenhada.


Conforme o renome aumenta, podemos enfrentar os membros das outras gangues. Eles nos desafiam a executar sequências complicadas de manobras, alcançar locais de difícil acesso ou então obter grandes pontuações em um único combo. No último passo, confrontamos o líder local em uma grande disputa valendo o controle da região.

A cidade de Nova Amsterdam é estruturada em bairros com diferentes áreas semiabertas e de progressão majoritariamente livre. Além das atividades de grafitar e completar os desafios dos oponentes, há inúmeros colecionáveis e extras espalhados pelos cenários, normalmente em locais de difícil acesso — dominar os movimentos e deslizar por postes e paredes é essencial para alcançar esses itens.



Fazendo acrobacias e pichando para ser reconhecido

Adentrar o universo de Bomb Rush Cyberfunk me fez sentir estiloso com o uso de cores vibrantes e a jogabilidade ágil. A fluidez da ação torna divertida a atividade de rodar pela cidade de patins, skate ou bicicleta fazendo inúmeros truques, e muitas estruturas resultam em situações surreais, como deslizar de ponta-cabeça em barras magnéticas ou saltar entre prédios utilizando outdoors. Os três acessórios têm mecânicas de jogo idênticas, mas cada um esbanja identidade com manobras únicas.

As mecânicas de manobras focam em fazer combos longos utilizando o máximo de recursos possíveis, e os comandos simples deixam essa atividade surpreendentemente prazerosa — em vez de decorar movimentos complicados, basta deixar a intuição fluir. Mesmo assim, há várias nuances para jogadores mais dedicados, como inclinar nas curvas para aumentar a velocidade e o multiplicador de combo. Achei envolvente e recompensador montar longas sequências enquanto saltava por diferentes estruturas da cidade.


A ideia é ser acessível, porém às vezes os comandos são menos precisos do que deveriam. É um pouco difícil calcular a distância dos saltos, o que me fez errar corrimões inúmeras vezes. Além disso, quando não estamos deslizando nos corrimões magnéticos, o controle fica sensível e impreciso. Esses detalhes atrapalham especialmente nos trechos que exigem precisão, como ao tentar alcançar um local alto e distante. Com o tempo aprendi as nuances, mas às vezes a imprecisão irrita.

Tropeçando em pontos desinteressantes

Apesar de oferecer manobras com acessórios radicais, o foco de Bomb Rush Cyberpunk está na exploração com muitos pontos de interesse e inúmeros lugares de difícil acesso. Há também pequenos puzzles de navegação, como portas que só abrem quando passamos por vários bonecos em um único combo. Ou seja, para avançar é necessário um misto de perícia e exploração — gostei de utilizar obstáculos dos cenários para conseguir subir em locais complicados em busca de segredos.


As ruas de Nova Amsterdam são vivas, com inúmeros pedestres, trânsito e outros elementos. Contudo, isso é um recurso para mascarar o fato de que o mundo é mais vazio do que parece: há muito espaço sem nada de interessante e a quantidade de coisas para fazer é limitada. Para piorar, o design da cidade é um pouco confuso e com poucos elementos visuais marcantes, o que torna fácil ficar perdido. Há um pequeno mapa no celular do personagem que ajuda, apesar de ser um recurso limitado.

Após vandalizar um pouco a cidade, a polícia aparece e tenta capturar nosso personagem. Estes são, de longe, os piores momentos do jogo por causa do combate extremamente sem graça. Não há estratégia, bastando apertar repetidamente o botão de golpear para acabar com os defensores da lei. Para piorar, a animação é artificial e sem impacto, deixando a atividade visualmente estranha. Por fim, não há sensação de perigo, só chateação. Sempre que possível eu fugi da polícia, mas, infelizmente, algumas batalhas são obrigatórias.



Em um convidativo e retrô mundo exótico

De longe, a característica mais impactante de Bomb Rush Cyberfunk é sua ambientação urbana repleta de estilo. A movimentação e os personagens são extravagantes, as ruas pulsam com cores vibrantes e artes elaboradas, a arquitetura da cidade é surreal e bela. O visual remete aos títulos de Dreamcast, com um cel shading repleto de elementos angulosos, resultando em uma vibe retrô ímpar.


A trilha sonora também é sensacional, abusando de gêneros contemporâneos das ruas, como hip-hop, acid jazz, eletrônica e funk. A música é eclética, com faixas aceleradas que reforçam a sensação de energia e vigor. O áudio contou com a participação de Hideki Naganuma, compositor de Jet Set Radio, que contribuiu para que a atmosfera sonora fosse excepcional.

Um detalhe legal é que o jogo nos convida a voltar aos anos 2000 ao mesmo tempo que acompanha tendências atuais. A moda deste mundo é no mínimo excêntrica com roupas volumosas, calçados imensos e cores brilhantes que remetem à cena hip-hop. Os personagens contam com um celular do tipo flip característico daquela década, com direito a câmera para tirar selfies desajeitadas. E, claro, podemos parar e começar a dançar a qualquer momento como se nada estivesse acontecendo. São detalhes que parecem bobos, mas que deixam a aventura um pouco mais imersiva.



Uma intervenção artística admirável

Bomb Rush Cyberfunk resgata o passado e nos convida a mergulhar em uma estilosa aventura de plataforma. Usando patins, skate ou bicicleta, a jogabilidade se destaca com comandos simples e muitas possibilidades de combos e de exploração por uma metrópole elaborada. Além disso, é difícil não se impressionar com a atmosfera que transborda identidade com seu colorido vibrante e trilha sonora eclética e urbana.

Inspirado em Jet Set Radio, o jogo moderniza conceitos, o que resulta em uma vibe simultaneamente moderna e retrô. No entanto, ele cai no erro de replicar inclusive o que já não era bom naquela época, como simplicidade de alguns aspectos. Ou seja, para aproveitá-lo completamente, é importante estar disposto a relevar alguns problemas.

No mais, Bomb Rush Cyberfunk é uma mistura exótica imperfeita, mas sensacional.

Prós

  • Exploração agradável que mistura esportes radicais com plataforma;
  • Comandos simples tornam a ação ágil e fluida;
  • Estrutura de áreas semiaberta com boa diversidade de atividades;
  • Ambientação ímpar com muita cor, estilo e trilha sonora eclética.

Contras

  • Controles carecem de precisão em alguns momentos;
  • O mundo é mais vazio do que aparenta;
  • Combate desinteressante.
Bomb Rush Cyberfunk— PC/Switch — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Heloísa D'Assumpção Ballaminut
Análise produzida com cópia digital cedida pela Team Reptile

é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.
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