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Análise: Lakeburg Legacies (PC) não parece ser lá tão capaz de manter uma dinastia muito longa

Título da Ishtar Games tem proposta interessante, mas fica só na promessa.



Ao falarmos de versões demo, normalmente estamos abordando todo um conceito por trás que envolve um tipo de protótipo de um jogo que funciona como um recorte de uma experiência final ainda mais completa, não é? Além disso, etimologicamente, demo é justamente uma abreviação do termo "demonstração", já que a ideia é convencer o jogador a adquirir o produto final.


Há alguns meses, quando testei a demo de Lakeburg Legacies, tive uma impressão bastante positiva do título, uma vez que o pouco oferecido deu um gostinho bem promissor, capaz de desenvolver algumas expectativas em relação ao produto finalizado.

De fato, a demo é capaz de fomentar a vontade de adquiri-lo. O problema, entretanto, é que essa foi uma situação em que a demo tinha muito mais a oferecer, proporcionalmente falando, do que o game em seu estado atual de lançamento.

City builder + app de namoro

Lakeburg Legacies não é exatamente o mais brilhante ou revolucionário dos simuladores medievais. Inclusive, a jogabilidade básica de gerenciamento é bastante tradicional, uma vez que começamos com apenas um habitante e uma única construção, a cabana do lenhador. Cabe a nós incumbir nosso cidadão número 1 com o ofício em questão, algo que renderá lenha, utilizada como matéria-prima para construir novas casas e desbloquear outras construções.




Com novos prédios de produção, abrem-se novas estações de trabalho que renderão moedas e prestígio, os quais podem ser usados para recrutar habitantes no ciclo básico de gameplay. A principal mecânica que diferencia Lakeburg Legacies dos demais é a forma como ele mescla o gênero de simulador de encontro (ou melhor, simulador de cupido, já que nosso papel é juntar os casais, não encontrar nossa cara-metade), ao trazer um sistema de relacionamento e linhagem dos habitantes para o primeiro plano da jogatina.

Assim, há mais de uma maneira de fazer com que a população de Lakeburg cresça, uma vez que é possível recrutar novos habitantes através dos laços do matrimônio com os habitantes já instalados. Desta forma, basta enviar o cidadão para a casamenteira e ir passando os pretendentes — como um verdadeiro aplicativo de relacionamento — até encontrarmos alguém interessante.




Cada um dos possíveis cônjuges é gerado proceduralmente pelo próprio jogo, misturando alguns assets visuais (que poderiam ser mais diversos, é verdade) para criar um novo habitante com personalidade, aspirações e talentos próprios. Nota-se que a proposta básica é fazer com que os gostos dos pretendentes sejam parecidos, mas a decisão final acaba sendo do próprio jogador, que pode priorizar, por exemplo, um pretendente cuja carreira esteja com uma vaga aberta na vila.

É claro que, se não houver química entre o casal, eles dificilmente ficarão unidos por muito tempo. Além disso, para uma sociedade medieval, o divórcio em Lakeburg parece ser muito bem aceito, julgando pela frequência com que esse tipo de situação acontece. Isso pode ocorrer por motivos variados em um sistema bastante interessante, no qual o jogo não para, em momento algum, de gerar novos eventos que resultam em modificadores nos relacionamentos entre os habitantes da vila. É assim que amizades, traições, rivalidades e amores não correspondidos são forjados entre os aldeões.






Nota-se que a parte básica de gerenciamento em si é bastante limitada, já que novas construções sempre são alocadas em espaços pré-determinados, o que acaba resultando em campanhas semelhantes. Teoricamente, essa falta de preocupação criativa, por assim dizer, poderia ser compensada no sentido de colocar em evidência as mecânicas de relacionamento, mas não é bem assim.

É realmente muito interessante, no começo, ficar de olho nas fofocas de Lakeburg, acompanhar quando algum casal se dá bem ao ponto de ter herdeiros e, assim, começar toda uma genealogia no vilarejo. De fato, um dos méritos da demo é que sentíamos interesse em acompanhar as fofocas do vilarejo, uma vez que parecia até mais fácil se apegar aos nossos personagens.




Chega a ser compreensível que, com uma duração estendida que não oferece mais opções em comparação à versão de teste e com o fluxo migratório cada vez maior no intuito de preencher as vagas de trabalho de Lakeburg, o zelo pelos aldeões, de forma individual, acabe indo embora bem fácil. Eles logo se tornam apenas números, dados, e as situações entre os cidadãos às vezes mais atrapalham do que realmente ajudam.

Por exemplo: se eu tenho um ambiente de trabalho com dois ótimos profissionais que nutrem uma inimizade um pelo outro, a melhor forma de remediar isso é simplesmente apertar o botão de romper o relacionamento entre eles mediante determinado número de corações (uma das moedas de troca do game no que diz respeito às situações de relacionamento entre os habitantes), uma vez que daria muito menos dor de cabeça do que tentar realocá-los a outras funções para melhorar o clima no serviço.




Outro ponto pertinente ao sistema de hereditariedade está relacionado à forma como os casais podem ter filhos e como esses filhos envelhecem. Desde crianças, eles podem ser colocados para aprender um ofício, aprimorando seus atributos em determinada profissão, para que, quando chegarem à vida adulta, possam assumir o posto de forma efetiva.

Dentro dessa mecânica, senti falta de um histórico de profissões. Houve vezes em que um aprendiz chegou à maioridade e eu não sabia exatamente onde ele estava sendo treinado. É claro que é possível deduzir através do potencial de carreira mais alto, já que ele estava sendo treinado, mas ainda poderia existir mais clareza em relação a isso.




Promover um convívio saudável (ou tóxico, dependendo das suas intenções) entre os habitantes é muito importante para manter a longevidade dos cidadãos. Para isso, é necessário o gerenciamento de vários microatributos para que a mão de obra de Lakeburg prospere. Ainda assim, sinto que há uma força muito inconstante presente, já que não foi incomum ver mensagens completamente aleatórias de súditos aparentemente felizes e saudáveis morrendo cedo e sem qualquer justificativa na notificação.

Tais notificações, inclusive, pipocam na tela toda vez que alguém falece ou que algum casal se separa, mas são sempre com uma mensagem meio genérica que não informa ao jogador qual foi o gatilho responsável pelo ocorrido. Tudo bem que é a idade média e a expectativa de vida não é exatamente muito alta, mas a causa mortis poderia ser melhor detalhada. Seria bem interessante também receber uma notificação mais firme quando uma criança é concebida.




Além disso, enquanto todas as coisas ruins acontecem espontaneamente — mortes, divórcios, etc —, outras mais positivas não ocorrem de forma autônoma. O sistema bem que poderia, por conta própria, fazer com que dois aldeões solteiros se conheçam por ocasião e acabem se apaixonando a ponto de querer casar por conta própria, sendo que aí seria necessária apenas a nossa aprovação. Já que muitas das interações possíveis dependem do jogador, a passividade de todos os habitantes acaba prejudicando bastante o sentimento de nos apegar a eles como personagens de fato.

Como boa parte das ações precisa ser feita manualmente, e todas essas ações custam corações, fica evidente que a mecânica precisa ser retrabalhada a fim de se tornar mais equilibrada. Brincar com as emoções dos cidadãos ao estabelecer relações positivas entre eles acaba saindo bem caro, e simplesmente não há qualquer recompensa realmente palpável se comparado a deixar a sociedade seguir seu curso sozinha.

Por fim, também é muitíssimo esquisito ver que, embora constem na árvore genealógica dentro de cada perfil, as crianças não nasçam automaticamente com algum tipo de relação com os próprios pais e irmãos. 



Quando a amostra grátis já nos deixa saciados

A versão de pré-lançamento de Lakeburg Legacies disponibilizada há alguns meses apresentava uma experiência bem madura por si só, algo que deixava o jogador otimista para uma eventual versão final mais robusta. Eis que ela finalmente chega às lojas, e o resultado? As adições da versão final parecem mais um DLC da experiência de jogo que era a demo do que, em comparação, a demonstração em questão parecia um recorte de um título ainda maior por si só.

Quando tive a oportunidade de testar a versão anterior, a campanha se encerrava assim que atingíamos determinado valor em prestígio (uma das pontuações do game), dando a entender que valores maiores desbloqueariam novas mecânicas. Isso de fato acontece com o castelo da realeza, em que é possível nomear um dos nossos aldeões como monarca e, consequentemente, uma dinastia através da linha genealógica, mas não traz nenhuma revolução de jogabilidade como o título faz parecer. 




Além disso, essa ideia de estabelecer toda uma linhagem e ver até onde ela perdura até seria bem interessante se a campanha não tivesse um tempo pré-determinado, mas, por via de regra, a duração é pré-estabelecida logo que iniciamos uma nova campanha, cujo grau de dificuldade também podemos personalizar. 

Os desenvolvedores logo perceberam que tal limitação não é algo de que os jogadores tenham gostado e logo deram um jeito de improvisar um modo eterno através das versões de teste beta na Steam, mas chega a ser bem frustrante pensar no conceito de simulador de cidade que não conte com um modo sandbox, o mínimo que se espera. Adicionalmente, chegar em 2023 e produzir um jogo que não permite mais de um slot de save é, no mínimo, uma decisão de design muito questionável.



Com o perdão do trocadilho, a vida não é fácil em LakeBUG

Alguns bugs de Lakeburg Legacies foram ficando cada vez mais evidentes e esquisitos de acordo com a duração da campanha. Na reta final de uma delas, me deparei com um casal de idosos esperando um filho, enquanto em outra situação ocorreu um soft lock em que o rei morreu, a rainha consorte se tornou a regente e também bateu as botas antes do herdeiro atingir a maioridade e poder assumir o trono. 




Também chegou a me frustrar um pouco a quantidade de saves deletados sem justificativa ou aviso e uma infinidade de outros softlocks que foram acontecendo sem que fosse possível entender direito o motivo. Apesar disso, nesse ponto eu consigo dar um voto de confiança ao time de desenvolvimento porque eles parecem bem comprometidos a pelo menos deixar a experiência bem menos quebrada, a julgar pela quantidade de atualizações disponibilizadas desde o lançamento.

Pelo menos visualmente falando, o jogo está no ponto. O estilo artístico é muito agradável e certamente um dos destaques como um todo. A trilha sonora também tem seu valor por ficar horas em loop sem necessariamente cansar ou frustrar. Toda a atmosfera é bastante acolhedora tanto para os viciados no gênero de simulação quanto para aqueles que simplesmente ficaram atraídos por sua proposta singular. 



Um legado de futuro incerto

Tendo experimentado a versão de demonstração há alguns meses e o produto supostamente final agora, fica evidente que Lakeburg Legacies infelizmente não conseguiu se moldar como um produto consistente, carecendo de acabamento ao ponto de, em algumas situações, nem ao menos parecer terminado.

Trata-se de um simulador curioso com uma proposta bem interessante, mas que ainda não consegue fazer jus à sua posição de um jogo completo. Teria sido uma decisão melhor se o game, no estado em que se encontra, tivesse sido disponibilizado em acesso antecipado em vez de lançamento definitivo como agora.

Prós

  • Proposta interessante de tentar trazer valor a cada habitante de forma individual;
  • Enquanto o jogo não trava de alguma maneira, a jogabilidade é imersiva na maior parte do tempo;
  • Atmosfera confortável e acolhedora;
  • As mecânicas de gerenciamento de cidade são bem acessíveis;
  • Embora cheio de bugs e problemas, o time de desenvolvimento parece empenhado a saná-los.

Contras

  • O sistema de simulação de relacionamento é notavelmente desequilibrado;
  • Pouca personalização de jogabilidade;
  • Um único slot de save para cada campanha é algo bem questionável em 2023;
  • A ausência de um modo sandbox nativo é uma tremenda bola fora;
  • Criar as relações entre os aldeões é mais um trabalho mecânico do que realmente artesanal;
  • Infelizmente, trata-se de um produto inacabado e bem inconsistente perto da experiência sólida da versão de demonstração.
Lakeburg Legacies - PC - Nota: 5.0
Revisão: Davi Sousa
Análise produzida com cópia digital cedida pela Ishtar Games

É jornalista formado pelo Mackenzie e pós-graduado em teoria da comunicação (como se isso significasse alguma coisa) pela Cásper Líbero. Tem um blog particular onde escreve um monte de groselha e também é autor de Comunicação Eletrônica, (mais um) livro que aborda história dos games, mas sob a perspectiva da cultura e da comunicação.
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