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Análise: Kuroinu Redux (PC) trata o pesado tópico do estupro como fetiche em uma obra que se resume inteiramente a isso

Visual novel erótica é um produto feito com apenas um público específico em mente.

Kuroinu Redux
é a edição mais nova da visual novel Kuroinu, que já havia sido lançada no Ocidente anteriormente pela MangaGamer em seu formato episódico. O jogo desenvolvido pela Liquid é conhecido por ter uma adaptação em anime que dá um gostinho das perversidades presentes no título. Na prática, este é um jogo erótico cujo apelo é estritamente esse aspecto da experiência.

Uma história vulgar de violência e crimes sexuais

A história de Kuroinu se passa no continente de Serenus. Em meio a uma guerra que já dura séculos, a Aliança dos Sete Escudos decide contratar um grupo de mercenários, os Black Dogs, para lidar com a rainha dos elfos negros, Olga Dischordia. Não demora muito para eles serem vitoriosos nessa empreitada, mas é aqui que as coisas começam a desandar.
 
O que era para ser o fim da guerra na verdade é apenas o início de uma era sombria para a população comum. O líder dos Black Dogs, Vult, não quer saber de paz e tranquilidade, instaurando uma nova força no continente: a Service Nation. A ideia dele é dominar as sete fortalezas, destruindo-as e conquistando as mulheres como espólios de guerra.
Indo de uma base para a próxima, Vult promove uma verdadeira carnificina, transformando as mulheres, que eram figuras centrais de suas respectivas bases, em escravas sexuais. Elas são violentadas e tratadas como meros objetos cuja única função é saciar a luxúria dos mercenários e clientes do reino. A lista de abusadores inclui não apenas homens violentos como também monstros como orcs e demônios.
 
Francamente falando, a trama é extremamente rasa, servindo apenas para dar um contexto geral para os estupros. O tópico polêmico é o prato central da obra, que é basicamente uma repetição de atos vis e asquerosos consecutivos, tratando a objetificação dessas mulheres e o seu abuso por múltiplos violentadores como um fetiche para o consumidor aproveitar do conforto da sua casa.

Exploração e dominação

Em termos técnicos, Kuroinu oferece uma alta quantidade e qualidade de ilustrações de autoria de Eiji Hikage. Desde o início, as personagens já se vestem de formas provocativas, com poucas vestimentas e trajes nada práticos. Os únicos homens que podem ser vistos são aqueles que estão envolvidos nos planos sombrios e nenhum deles possui voz na tentativa de deixar o jogador homem imerso em algum tipo de roleplay.
 
Mesmo a guerra é tratada só como um pano de fundo, com os mercenários tendo vitórias rápidas para que as cenas de abuso sexual sejam o foco total da experiência. Embora haja alguns trechos um pouco diferentes, como o da terceira fortaleza na qual um grupo de sacerdotisas possui mais agência, a estrutura do jogo é muito repetitiva, mantendo sempre a mesma perspectiva de dominação.
A cada nova personagem feminina central que será introduzida, o jogador pode escolher entre dar a personagem a seus mercenários ou a um aliado externo. Depois ela será adicionada às mercadorias da nação e o jogador pode escolher ativar suas cenas, colocando-as para servir clientes ou ser humilhadas publicamente. Há algumas cenas com Vult, mas em geral são geralmente vários homens em cena e a perspectiva é mais de um voyeur que consegue até escutar os pensamentos das mulheres. Em vez de se colocar na posição delas, essas vozes internas são apenas uma forma do jogo explorá-las ainda mais.
 
Esse aspecto acaba sendo fortalecido pois as dubladoras japonesas são outro ponto forte da experiência. São elas que dão vida às personagens, transportando seus trejeitos e traços de personalidade a uma existência material dentro da trama. Mesmo com um roteiro nada impressionante com vários excessos risíveis, elas ainda são capazes de fazer um bom trabalho.
Um outro aspecto que prejudica a trama são alguns erros de digitação e inconsistências ocasionais de termos. Essas falhas tendem a ser pequenas no conjunto do jogo, mas ainda são perceptíveis, como no trecho em que os homens-peixe estão atacando as sacerdotisas e a fala de um deles o descreve como “Mermaid”, ou em uma frase da segunda cena de estupro em que há um inglês quebrado pelo mau uso do termo “Despite” com a conjugação verbal.
 
Vale destacar que a versão do Steam é totalmente censurada e não faz o mínimo esforço para oferecer um desenvolvimento razoável da narrativa, oferecendo apenas um casco vazio para quem não utilizar o patch de conteúdo 18+ disponível na Johren. Isso corta até mesmo uma porção considerável dos diálogos mais inócuos.

Uma obra que sabe o seu público

Kuroinu Redux
traz uma experiência adequada para um público bem específico, mas não se justifica para além dele. Abordando um tema polêmico como puro fetiche, a obra tem uma noção clara do tipo de leitor que quer agradar com ilustrações e vozes japonesas de alta qualidade técnica. Porém, não tem mais nada a oferecer além disso.

Prós

  • Ilustrações bem detalhadas e de alta qualidade;
  • As vozes das personagens femininas são bem selecionadas para dar vida às personagens.

Contras

  • Trama rasa com roteiro risível;
  • Trata um tópico muito polêmico como puro fetiche;
  • O conceito das cenas acaba se tornando bem repetitivo;
  • Alguns erros textuais na tradução;
  • Por algum motivo, algumas palavras sexuais possuem um barulho de censura;
  • A versão do Steam não possui nem uma estrutura minimamente razoável de desenvolvimento devido aos cortes.
Kuroinu Redux — PC — Nota: 6.0
Revisão: Heloísa D’Assumpção Ballaminut
Análise produzida com cópia digital cedida pela Shiravune

é formado em Comunicação Social pela UFMG e costumava trabalhar numa equipe de desenvolvimento de jogos. Obcecado por jogos japoneses, é raro que ele não tenha em mãos um videogame portátil, sua principal paixão desde a infância.
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