Como a série de The Last of Us acerta na adaptação e foge dos erros comuns?

Nova série constrói narrativa interessante enquanto honra o legado do jogo original.


Quando anunciada, a adaptação de The Last of Us foi recebida com ceticismo por grande parte do público gamer. Porém, não é para menos: no passado, desde que a história do primeiro jogo deixou sua mídia original para virar série, filme ou desenho, um grande estigma foi criado em torno da qualidade das adaptações dos jogos. 


Diferentemente de livros, peças e contos, os jogos parecem receber um tratamento diferente dos responsáveis por adaptá-los. Talvez por falta de conhecimento sobre o setor de games, desinteresse pelo tipo de mídia ou mesmo incapacidade de criar uma boa adaptação, diversas obras mancharam a reputação de grandes jogos, como Hitman, Super Mario Bros. de 1993, Doom, Resident Evil, entre uma infinidade de títulos semelhantes.

A boa notícia é que, recentemente, algumas produções começaram a mudar esse paradigma. Podemos citar o primeiro filme do Sonic, a série de Castlevania na Netflix e, agora, The Last of Us, da HBO, série que adapta o primeiro jogo, lançado em 2013 para PS3, e tem chamado a atenção não somente do público gamer, mas também de espectadores de fora da bolha. Vale o alerta: esse texto contém spoilers do jogo e da série até o momento.

Adaptar, copiar ou alterar?



Existem diversos erros que podemos apontar nas adaptações de jogos. Geralmente, os idealizadores cometem um dos dois problemas: copiar por inteiro as características e o enredo de algum jogo sem levar em conta a mudança de mídia ou usar os personagens em um ambiente ou história que fogem do que o público está acostumado, esquecendo-se que o fator mais importante não é a mídia, mas, sim, a história. 

Contar uma boa história é o que faz uma mídia transcender na cultura pop e marcar o público geral, seja ela um jogo, filme, livro ou até música. Partir desse ponto é ideal para qualquer adaptação começar a trilhar um caminho “de sucesso”. É necessário entender o processo de adaptação como a definição da própria palavra no dicionário: “ajuste de uma coisa a outra”.

No processo de adaptar, o roteirista e o diretor devem compreender o material de origem, suas nuances e especificidades, distinguindo o que torna aquela história fascinante do que é puramente quesito de gameplay, para, só assim, começar a adaptação, retirando trechos que não fazem sentido na TV ou no cinema, adicionando construções e convenções da mídia que receberá a obra, entre outras mudanças. Erra quem imagina que levar um jogo para a telona seja apenas um “ctrl+c” e “ctrl+v”.

As mentes por trás de The Last of Us



Qualquer projeto artístico está ligado de maneira intrínseca a seus criadores. E não é diferente com The Last of Us, que está conectado ao nome de Neil Druckmann. Diretor, roteirista e programador, ele foi responsável por dar vida ao universo de TLOU, criando seus personagens e conflitos e dirigindo todas as etapas do game. 

Quando a HBO mostrou interesse em levar a história de Joel e Ellie para a TV, o nome de Druckmann era uma das escolhas mais óbvias a serem feitas para compor o time de produção. Quem melhor para levar esses personagens para outra mídia do que o seu próprio criador?

Entretanto, toda a experiência de Neil no universo dos jogos não seria suficiente para o processo de criação televisivo. Neste ponto, a HBO resolveu trazer um nome que já era importante na emissora: Craig Mazin. Responsável pela premiada Chernobyl, Mazin entrou no projeto como produtor e aliou forças à experiência e ao conhecimento criativo de Druckmann, formando junto dele uma dupla extremamente criativa e experiente para um projeto ambicioso, como praxe da HBO, que não brinca em serviço quando o assunto é televisão.

Como The Last of Us se destaca?



Compreendendo o conceito de adaptação, a dupla Druckmann/Mazin abre a série rompendo com o jogo e estabelecendo dois pontos importantes. O primeiro é a explicação de como o vírus é perigoso e todos os seus funcionamentos básicos, algo necessário para entregar ao espectador, sobretudo aquele que não é familiarizado com o game, o peso da trama. Já o segundo ponto é a participação maior de Sarah, filha de Joel. 

Diferenciando-se do jogo, no qual é possível controlar a personagem diretamente e, com isso, criar um vínculo entre o jogador e a criança, na série, esse artifício não é possível. A saída que a trama cria é estender as cenas de Sarah, dando mais contexto à rotina da garota e mostrando como ela interage com as pessoas ao seu redor e como é sua relação com Joel. Tudo isso no intuito de encaminhar a audiência para o choque de sua morte prematura.

Nota-se o entendimento de Druckmann ao compreender os artifícios de gameplay, que devido à adaptação, precisam ser removidos e alterados. O mesmo acontece no tão falado episódio 3 “Long Long Time”, que conta a história de Bill e Frank.

O amor e a esperança no fim do mundo



No jogo, essa sequência tem um claro objetivo de gameplay: Bill é um artifício para apresentar as armadilhas a Joel, criar tensão com o novo infectado Baiacu e trazer uma visão que permeia todo o game, isto é, o niilismo quase misantropo da história, quando o jogador encontra o corpo de Frank.

Na série, Druckmann/Mazin optam por dar um propósito maior ao sobrevivencialista barbudo. Mais do que uma série de sequências de ações que vão expandir a jogabilidade, o personagem, aqui, integra um episódio que poderia ser considerado filler, ou seja, que não caminha com a história principal, mas não acredito que isso seria o mais adequado.




A história de Bill e Frank mostra o potencial que uma adaptação tem, principalmente de jogos, de expandir o universo original da narrativa e de seus personagens, e essa é uma escolha certeira para o projeto. Além de se afastar do niilismo que a história de Bill tem do jogo, na série, “Long Long Time” se preocupa em contar uma bela e clássica história de amor, mesmo que situada em um apocalipse distópico. 

Para além de um final mais feliz para o casal, os eventos descritos impactam Joel diretamente , que buscava propósito depois da morte de Tess e não encontrava nem mesmo sentido para existir naquele mundo depois de perder sua garotinha. Bill mostra para Joel que mesmo em um mundo condenado, existem pessoas que valem a pena serem salvas.

O que o futuro aguarda?

O próximo episódio da série promete adaptar o encontro de Joel e seu irmão Tommy, mostrando um pouco mais do passado dos dois. O indício é que a produção manterá o nível de qualidade, alterando o que for necessário e expandindo seu universo e personagens com habilidade.

Sobre a linha de adaptação, os criadores disseram que pensam apenas nos dois jogos lançados, ignorando, assim, uma possível parte 3 da história. Independentemente do caminho tomado, é evidente que a dupla de showrunners já tem um plano traçado para as duas temporadas. Seria possível ver uma versão mais otimista da história de Ellie e Abby? Talvez uma construção de relação mais amigável entre Joel e Ellie? O futuro de The Last Of Us promete grandes momentos e surpresas para jogadores e não jogadores.

E você, o que está achando da série? Curtiu as mudanças feitas ou prefere algo mais purista na hora de levar um jogo para as telas?

Revisão: Raquel Nascimento Everton

Redator publicitário em tempo integral e amante de games nas horas vagas. Provavelmente aprendi a segurar um controle mais rápido do que uma mamadeira. Cresci com os maiores clássicos da Big N como Zelda, Mario e Pokémon. Hoje aproveito os pequenos momentos de descanso da vida corrida para me perder em Hyrule, em uma Tóquio pós-apocalíptica ou em um mundo de encanadores e cogumelos.
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