Octopath Traveler: Champions of the Continent (Mobile): avaliando as últimas atualizações e as mecânicas de gacha

Analisamos as mecânicas de gacha e conferimos os conteúdos adicionais que expandiram a proposta do título desde seu lançamento.


Octopath Traveler: Champions of the Continent é um JRPG da Square Enix em estilo HD-2D, produzido pelo Team Asano em parceria com a Acquire. Após desenvolver o Octopath Traveler de 2018, esses estúdios planejaram Champions of the Continent como uma versão free-to-play que oferecesse um HD2D simplificado para mobile, mas que expandisse o combate e a trilha sonora do original.


Na ocasião do Blast Test que fiz, dei minhas impressões sobre o conteúdo inicial do game (até a cena dos créditos). Hoje falarei sobre as atualizações que ele recebeu até o momento e também analisarei a implementação de gacha. Para tal, analisarei quatro aspectos: coerência com narrativa e gameplay; usabilidade; dificuldade; e dependência.

O arco de Rei Pardis III e outros novos conteúdos

Após o lançamento de Champions of the Continent, a Square Enix tem trazido, de forma consistente e frequente, muitas atualizações que corrigem problemas, dão maior estabilidade ao software e lançam eventos ou acréscimos ao mundo do jogo. Até agora, a principal novidade, do ponto de vista narrativo, foi o arco “Master of All”.

Diferente da campanha introdutória — a qual analisei no Blast Test —, a história do rei amaldiçoado King Pardis III não é ramificada, mas completamente linear. Assim, a trama rompe com uma premissa narrativa que marca a série desde o título original. Contudo, o novo enredo compensa essa simplicidade formal com maior profundidade e complexidade, além de papéis mais críveis para os personagens.


Continuando a história do jogo anterior, tudo começa a partir do misterioso e maligno bobo da corte — que lembra Kefka de Final Fantasy VI — levando a magia dos três anéis (do poder, da riqueza e da fama) a um rei. Aparentemente, sua intenção é controlar o monarca, mas só saberemos mais detalhes sobre os interesses de ambos os personagens nos últimos capítulos.

Desde então — e de forma semelhante a Final Fantasy IV —, o rei adquire uma insaciável sede por poder, riqueza e fama. Como resultado, ele conspira contra sua própria família e contra nações vizinhas. O jogador, com seu grupo de personagens, precisará descobrir o que se passa no reino e parar suas ambições. A escrita de cenário de Kakunoshin Futsuzawa lembra a de Triangle Strategy, também feita pelo Team Asano, com um tom político dramático tanto de ameaça interna quanto externa ao reino.

No decorrer dos oito capítulos que compõem esse arco, desenrola-se uma envolvente trama política em pequena escala na qual contaremos com aliados externos, de outras nações, e internos, de militares e nobres dissidentes do reinado, para fazer com que o povo e a Igreja se voltem contra o rei. Tudo é bem conduzido, de forma breve, e tem um bom final, embora mais uma vez não com desfecho derradeiro; afinal, a história de Octopath Traveler não deve acabar tão cedo.


Pelo andar da carruagem, dá para ver que o jogo investirá principalmente em aperfeiçoar sua história para manter os jogadores no serviço, mas não se limitará a isso. Junto a novos acontecimentos para contar, há novos cenários, que estão um pouco mais detalhados que os anteriores, e com algumas novas músicas de Yasunori Nishiki. Ademais, há quests secundárias e caçadas em dungeons, além da possibilidade de montar uma vila própria, dando lar e trabalho a andarilhos, apátridas e pessoas desabrigadas.

Claro que todo esse trabalho não vem sem custo. Trata-se de um jogo free-to-play, mas que precisa ser rentável de algum modo que nesse caso é um de gacha, o que nada mais é que mecanismos de roleta como os dos cassinos da série Dragon Quest, porém cujas “moedas” podem ser adquiridas não apenas internamente, mas também por meio do gasto de dinheiro real.

Uma problematização em quatro etapas

Em jogos que possuem mecânicas de gacha, com sorte e perseverança, o jogador pode adquirir vantagens para sua jogatina. No caso de Octopath Traveler, dá para obter bons personagens nessas roletas, ou, mais precisamente, personagens com mais estrelas, como expliquei em meu Blast Test:
“Há três categorias de personagens, os quais são classificados por estrelas (3★, 4★ e 5★) limitando, assim, o nível máximo que eles podem alcançar. Personagens de 3★, por exemplo, são capazes de atingir, no máximo, nível 40; já os de 4★ e 5★ têm limite de 60 e 80, respectivamente. Isso passa a ser bem importante só mais ao final do jogo.”
Para tentar a sorte, precisamos adquirir rubis, os quais podem ser comprados por dinheiro real ou então conquistados internamente, como ao receber cartas diárias ou ao concluir quests. O principal uso desses rubis é o mecanismo de gacha mencionado, que sorteará um número de personagens, mas as gemas também podem ser empregadas para ressuscitar o grupo inteiro em batalha com vida e energia completas.


Vale observar que a existência em si do gacha não é algo ruim, mas ele pode ter uma boa ou má implementação. Um uso positivo desse mecanismo envolve os seguintes requisitos:
  • Uma integração orgânica dentro da proposta narrativa e de gameplay do jogo;
  • Um design de interface intuitivo e fácil de manusear (usabilidade);
  • Não ser demasiadamente difícil obter boas recompensas;
  • Não incentivar o jogador a achar que gastar dinheiro é imprescindível para avançar.
Considerando esses parâmetros, Champions of the Continent não chega a ser um gacha ruim — pelo menos por enquanto —, mas ele possui alguns probleminhas em todos esses quatro aspectos, a começar pela integração. Diferentemente de algo como o cassino de Dragon Quest, onde o local existe dentro da ficção e faz sentido na narrativa, o gacha do título do Team Asano não faz o menor sentido naquele mundo, e nem mesmo o uso dos rubis.


Do ponto de vista do design narrativo, novos personagens apresentam-se e surgem abruptamente na história assim que são adquiridos via gacha. Ademais, o uso dos rubis para ressuscitar o grupo inteiro em combate com todos os status recuperados é algo milagroso ou até injusto no level design.

A implementação também tem problemas de usabilidade. O design de interface é apropriado e simples para um gacha, mas os defeitos aparecem quando são obtidos na roleta personagens repetidos. Nesse caso, em vez do personagem, o jogador ganha uma quantidade de outros tipos de cristal (com prazo de validade), que podem ser usados para diversos fins.


Esses diferentes cristais ou fragmentos movimentam toda uma economia paralela que não só não faz sentido no mundo de Octopath Traveler como não é intuitiva de compreender e dominar. Nesse mercado alternativo, é possível comprar equipamentos sem ir a uma loja, além de alguns itens exclusivos e selos que podem ser usados para fazer um personagem de 4/5★ vir a ter 5★, o que nos leva a outro problema: os personagens de 4/5★ no gacha.

Como se pode conferir na imagem abaixo, há uma chance abaixo de 1% de conseguirmos um personagem 5★, o que é bem baixo. Mas o pior não é isso: em metade desse 1%, pode vir um personagem com uma das cinco estrelas incompletas, ou seja, 4/5★. Personagens assim não são fixos de 4★, mas podem vir a ter 5★ se o jogador gastar determinados selos raríssimos de se obter.


Por fim, há o problema da necessidade de gacha. Nos últimos capítulos da saga do rei, presume-se que se tenhamos um grupo de personagens com level superior a 60, ou seja, eles terão de ter 5★, sendo quase impossível derrotar os inimigos sem isso ou sem usar ressurreição via rubis. Claro, com sorte e tempo, pode-se conseguir combatentes ao jogar diariamente (ao menos só um pouquinho) para adquirir rubis gratuitos.

Outra coisa que agrava esse problema da necessidade de personagens 5★ é o fato de que é preciso fazer grinding com eles, pois, quando obtidos, eles começam no nível 1. Como eu havia antecipado, o gameplay, mesmo que excelente em batalha, tende a se tornar repetitivo. Em função disso, eu temo pelo futuro nesse aspecto do jogo, pois cada vez mais será preciso alcançar um nível mais elevado para continuar a história, e mais tempo de grinding para upar novos personagens adquiridos no gacha.

Segundas impressões

Em minhas primeiras impressões, manifestei preocupações sobre o level design de Octopath Traveler: Champions of the Continent ser um tanto repetitivo, o que, como hoje sei, o torna enjoativo no decorrer do tempo, principalmente ao precisarmos upar novos personagens. Além disso, as mecânicas de gacha, do jeito que estão hoje, também começam a me preocupar, por conta das quatro razões que expus no tópico anterior.

Esse título não chega a ser um gacha altamente problemático, mas traz ingredientes ruins para a experiência a médio e longo prazo, sobretudo a implementação de personagens com 4/5★. Apesar disso, reitero minha percepção de que é recomendável a fãs de Octopath Traveler e outras obras do Team Asano, estando eu particularmente satisfeito com o audiovisual, o sistema de combate e o rumo que a narrativa tem tomado. Além disso, são esperadas boas colaborações com outras franquias da Square Enix, tal como na versão japonesa de Champions of the Continent.

Revisão: Davi Sousa

Doutorando em Filosofia que passa seu tempo livre com piano, livros, PC e portáteis. No Twitter, também é conhecido como Vivi. Interessa-se especialmente por narrativas de ficção científica, realismo mágico e alta fantasia política, e aprecia mecânicas de puzzle, stealth, estratégia e RPG. Seu histórico de análises pode ser conferido no OpenCritic e suas reflexões sobre RPG e game design encontram-se na SUPERJUMP (textos em inglês), bem como no Podcast do Vivi e em seu canal no YouTube.
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