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Análise: Krut: The Mythic Wings (Multi) dá uma aula de como ser um jogo malfeito

O level design preguiçoso e o gameplay truncado são as muletas deste título que promete o mínimo, mas não entrega nada.


Krut: The Mythic Wings é um game de plataforma com ênfase no combate corpo a corpo por meio de combos de golpes e do uso de habilidades especiais. Ao longo de diversas fases devemos guiar Krut, um guerreiro garuda, em sua missão para recuperar os poderes de um poderoso artefato que o ajudará na luta contra os invasores de suas terras. Entretanto, o maior desafio é conseguir jogar esta verdadeira pérola. Vamos saber um pouco do porquê na análise a seguir.

Queda e ascensão

Em um mundo cheio de criaturas místicas e magia, o implacável exército do Rei Ogro invadiu a terra da raça garuda, culminando na derrota de seus exércitos e a queda de sua capital, Ayodhya. Após um doloroso ciclo de destruição e desespero, um guerreiro gravemente ferido se vê em uma misteriosa ilha chamada Himmaphan, onde conhece a misteriosa figura de um eremita que lhe confia um poderoso artefato: as Asas Míticas.


Uma lenda conta que um herói lendário as usou durante a Grande Guerra há centenas de anos e trouxe paz à terra. Entretanto, o tempo drenou todo o poder das asas, e agora Krut deverá obter os poderes elementais guardados pelos líderes de diferentes tribos que residem na ilha para reenergizar o artefato e ser capaz de retornar para sua terra, enfrentar o mal que assola a região e, assim como seus antepassados, trazer de volta a paz para o mundo. Krut também recebe uma espada do desconhecido e então parte em sua jornada para restaurar o poder das Asas Míticas.

Vamos ao básico do básico

Krut é capaz de realizar ataques ágeis com suas espadas, culminando em combos devastadores capazes de derrotar a grande maioria dos inimigos rapidamente. Com a arma que recebeu do eremita, o jovem guerreiro garuda é capaz de usar o poder de sua lâmina para lançar projéteis de energia ao segurar o botão de ataque por alguns segundos. A capacidade de realizar rolamentos para esquivar de ataques inimigos também é um dos destaques do rol de habilidades do herói.

As Asas Míticas, obtidas com o eremita, também podem ser usadas na forma de uma transformação especial que permite que Krut voe — só pra constar: sem ativar a transformação, e mesmo com um par de asas nas costas, Krut não pode voar — e tenha uma certa vantagem na mobilidade ao combater as forças do mal. Para usar essa técnica o jogador precisa coletar orbes mágicos oriundos da morte de inimigos pela fase e ao encontrar baús secretos. Os ataques do guerreiro também mudam, com foco no ataque a distância que causa uma moderada quantidade de dano nos inimigos.


Ao derrotar adversários, Krut coleta três tipos de recursos: orbes laranjas para recuperar vida; orbes azuis para recuperar magia, usada para lançar projéteis e, quando cheia, ativar o poder das Asas Míticas; e orbes verdes que funcionam como dinheiro, usado para habilitar os checkpoints e aprimorar os status do herói. Esses orbes também podem ser obtidos ao encontrar alguns baús espalhados pelas fases.

A problemática jornada do herói

Podendo ser concluído em pouco mais de uma hora, Krut: The Mythic Wings é um game de plataforma do gênero hack ‘n’ slash que poderia ter justamente em seu sistema de combate uma de suas principais qualidades, mas o que temos na verdade é um gameplay bastante ruim e impreciso, em que até a sorte poderia dar uma mãozinha de vez em quando.

Os combos são realizados ao pressionar várias vezes o botão de ataque principal e finalizando com o botão de ataque forte. Em alguns casos, acertar o combo completo em um inimigo faz com que ele fique atordoado por alguns segundos, possibilitando uma oportunidade de atacá-lo mais ainda para derrotá-lo rapidamente.

Quando acertamos um combo, a sensação é excelente, nos dando a impressão de que poderemos abusar dessa técnica para derrotar inimigos e chefes. Entretanto, a verdade é que esse elemento de gameplay é fortemente prejudicado por uma, digamos, engenharia bagunçada do game.


Pegando como exemplo um game de beat ‘em’ up, existe uma regra de prioridade na troca de ataques entre o jogador e os inimigos. Na grande maioria dos casos, quando o jogador acerta um golpe no adversário, ele fica suscetível a receber mais golpes, possibilitando que o combo seja realizado até o fim. O mesmo vale no sentido contrário, quando quem está atacando é o adversário. Há, claro, exceções a essa regra, como chefes que possuem a capacidade de reagir entre um frame e outro de animação.

No caso de Krut: The Mythic Wings, essa regra de prioridade no ataque só vale para os inimigos, ou seja, mesmo que estejamos no meio de uma série de ataques contra um adversário, basta que ele realize um ataque para interromper nossa ação. Esse “desrespeito à regra” me gerou diversos momentos de frustração, por simplesmente não tratar essa característica com isonomia em sua execução.

Como se o combate ruim não fosse suficiente para deixar nossa satisfação em lutar contra os inimigos baixa, outro ponto que desfavorece o game é o desbalanceamento na força de ambos os lados. Enquanto nas primeiras fases do jogo nosso dano gira em torno dos 10 a 12 pontos, alguns inimigos já causam dano que superam os 30 pontos. E mesmo realizando upgrades nos status de Krut, os inimigos prosseguem causando dano superior, pelo menos três a quatro vezes maior. Ou seja, mesmo fortalecendo o herói, os inimigos também “sobem de nível” para manter o jogo (des)balanceado.


O resultado: um game em que a luta contra os inimigos, que deveria ser algo menos problemático, é truncada, imprecisa e muito desbalanceada. O jeito é se tornar o verdadeiro mestre da esquiva para ficar rolando de um lado a outro do cenário. As únicas seções de combate que ainda rendem um pouco mais são contra os chefes. Não que sejam melhores, mas pelo menos são um pouco mais organizadas por conta dos padrões que são fáceis de ler.

Calma, ainda tem mais

Saindo do combate problemático, vamos falar agora do level design preguiçoso. Sim! Uma estrutura de níveis que parece ter sido feita por alguém que está aprendendo a fazer jogos e acabou esquecendo de ler as outras lições para incrementar isso ao game.

Todas as fases compartilham o mesmo padrão de progressão, que é basicamente:
  1. Ande um pouco;
  2. Lute com um inimigo;
  3. Repita os passos 1 e 2 umas quatro vezes;
  4. Gaste 1000 pontos para ativar o checkpoint;
  5. Lute com o subchefe;
  6. Repita os passos 1 e 2 mais umas três vezes;
  7. Lute com o chefe da fase.
As únicas diferenças se dão por conta de alguns elementos de cenário, como buracos, barreiras ou plataformas suspensas, tornando o gameplay, que já não é tão bom, extremamente maçante, previsível e sem graça. Às vezes os passos 1 e 2 do roteiro acima se repetem um pouco mais, não passa muito disso. Quando estava jogando, deu pra sentir a preguiça dos desenvolvedores em fazer algo que até os jogos para o Atari 2600 sabiam fazer melhor em plena década de 1970.


Para piorar, pelo menos no meu caso, precisei jogar o game três vezes para tentar terminá-lo pois, por algum motivo, ao reiniciá-lo após interromper minha sessão de jogo, o save automático não apareceu, me dando apenas a opção de começar o game novamente. Na terceira vez precisei jogar até o final de uma vez só para realmente concluí-lo. Por ironia do destino, ou não, a energia acabou enquanto jogava e ao reiniciar o jogo de novo eu só recebi a mensagem para começar tudo do início novamente. Resolvi dar por encerrada minha jornada neste problemático espécime de produto voltado ao entretenimento digital.

Para fechar esta análise, deixo uma curiosidade para você, leitor. Krut: The Mythic Wings é baseado em uma animação tailandesa de 2018 chamada Krut: The Himmaphan Warriors. Pelo trailer parece ser bem mais interessante que o game. Deixo um convite para você dar uma conferida nele antes do veredito.

Frango depenado

Krut: The Mythic Wings apresenta um forte exemplo de level design preguiçoso, gameplay ruim e qualidade questionável. É difícil apontar coisas positivas em meio a tanta coisa que evidencia que este é um produto de baixa qualidade. Evite!


Prós

  • Os combos de ataques são até legais de fazer, quando acertam;
  • A arte é bem fiel ao material de referência.

Contras

  • Level design pouco criativo e muito repetitivo;
  • Narrativa desinteressante e previsível;
  • Gameplay truncado e desbalanceado;
  • Curtíssima duração e sem um fator replay interessante.
Krut: The Mythic Wings — PC/PS5/PS4/XSX/XBO/Switch — Nota: 3.0
Versão utilizada para análise: PlayStation 5
Revisão: Ives Boitano
Análise feita com cópia digital cedida pela Blowfish Studios

Fã de Castlevania, Tetris e jogos de tabuleiro. Entusiasta da era 16-bit e joga PlayStation 2 até hoje. Jogador casual de muitos e hardcore em poucos. Adora quando as partidas acabam em discórdia e fogo no parquinho. Nas redes sociais é conhecido como @XelaoHerege
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