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Análise: The Artful Escape (PC) é um platformer simplório, mas interessante e estiloso

O jogo traz muita personalidade em sua realização audiovisual, mas possui uma narrativa mediana e um gameplay incipiente.


Publicado pela Annapurna Interactive e desenvolvido pela Beethoven & Dinosaur, sob direção de Johnny Galvatron, The Artful Escape é um platform-adventure com elementos de jogo de ritmo. O jogo tematiza música popular de folk e rock e aborda, em uma fantasia científica psicodélica, a busca pessoal por uma identidade artística individual em um contexto de pressão popular e expectativa familiar.

Uma narrativa bem inspirada, mas com desenvolvimento simplório

O jogador segue Francis Vendetti (com voz de Michael Johnston), um jovem músico, sobrinho de uma lenda de folk music, Johnson Vendetti, que vive em sua cidade natal, Calypso, uma cidade fictícia situada em algum lugar no Colorado. No aniversário de 20 anos de um grande álbum de Johnson da década de 1970, Francis deveria tocar algumas de suas canções em um concerto. Entretanto, enquanto vive à sombra do estilo folk de seu tio, o rapaz tem muito mais afinidade com rock e temas oníricos e de ficção científica.

No dia que antecede ao esperado show, uma estranha mulher chamada Violetta aparece e o estimula a correr mais riscos. Antes de desaparecer no bosque, ela lhe fala ainda que deveria procurar por Lightman. No meio da noite do mesmo dia, o protagonista é visitado por um alien chamado Zomm, que lhe diz a mesma coisa e o guia em um viagem espacial até o tal Lightman (muito bem interpretado por Carl Weathers), tratando-se de um guitarrista, aparentemente também humano, que convida Francis a tocar em seu ato de abertura em um show intergalático.




Uma vez na nave de Lightman, Francis passa a viajar para alguns planetas e fazer apresentações. No decorrer dessa fantástica, absurda e bem-humorada viagem espacial, o jogador pode ir moldando parcialmente a personalidade de Francis, pois é possível escolher seu nome artístico, suas roupas e opções de diálogo. Contudo, as alternativas não são muitas, nem muito significativas, e o design narrativo é altamente linear.

A proposta do enredo de The Artful Escape é fazer o jogador customizar e acompanhar essa busca de Francis por autoconhecimento e por coragem de brilhar diante de seu público sem viver à sombra de Johnson Vendetti, personagem claramente inspirado em David Bowie. A execução dessa proposta é bem inspirada.


A trama mistura um tom cômico, colorido e excêntrico, que remete a alguns filmes de Wes Anderson, junto de um tom mainstream de contato com alienígenas que, conforme dito em entrevista à Polygon, por influência de produções de Steven Spielberg, mas com uma pegada mais jovem e absurda. Apesar do bom nível de inspiração, de ter alguns bons momentos engraçados e de apresentar uma premissa interessante de autoconhecimento maluco, há problemas que devem ser salientados.

A turnê espacial de Francis é curta (algo em torno de 3 horas), muito linear, simples, previsível do começo ao fim, fraca e clichê em suas reflexões, e desenvolve pouco seus personagens, embora Lightman seja muito bom em conceito e interpretação. Infelizmente, a execução simplória da narrativa acaba entregando uma visão muito simplificada e passiva do público em música popular, não explora temas interessantes manifestos na particularidade estética dos planetas e resolve o dilema do protagonista sem muita criatividade, profundidade ou impacto.

Uma odisseia psicodélica musical, excêntrica, colorida e contemplativa

Do ponto de vista visual e sonoro, The Artful Escape é um trabalho mais bem-sucedido, embora não de todo protegido de defeitos. As animações de caminhada e pulo dos personagens são bastante amadoras, os modelos de seus exoesqueletos também são muito pobres, e a arquitetura dos cenários é desenvolvida de forma um tanto limitada em torno de um tema para cada planeta visitado.

Além disso, tirando o design dos três personagens principais, os demais (em sua maioria, alienígenas) possuem designs pouco interessantes. Dado o contexto psicodélico, poderia haver muito mais criatividade e destaque para esses personagens em vez de simplesmente fazer criaturas amorfas com tentáculos. Ademais, seria conveniente que os conceitos visuais fossem mais aproveitados em narrativa e gameplay.


O ponto forte da arte do jogo está na direção de algumas cenas, como na entrevista com Francis, e em suas belas paisagens inspiradoras e exuberantes, que lembram as capas dos álbuns de Jimi Hendrix. Além disso, destaco a mágica da conexão interativa dos cenários, com os riffs estridentes e espaçados da guitarra tocada pelo protagonista enquanto o jogador apenas segura um botão, seguindo um contemplativo trajeto até o seu fim, com elementos coesos entre si e coerentes com a proposta.

Essa interação poderia ser mais desenvolvida, tanto em variedade quanto em complexidade, mas já oferece uma boa experiência de relaxamento e desvelamento de um novo mundo que tem uma história a contar na forma como acolhe a música de Francis por onde ele passa, mudando estruturas, iluminação e outras coisas naquele mundo, além de manter uma música ambiente sempre consonante e interativa in-game em relação aos sons de guitarra do personagem e o tom da narrativa.


Considerando mais estritamente a parte musical, com faixas compostas pelo próprio Johnny Galvatron em parceria com Josh Abrahams, as peças mais interessantes são aquelas associadas ao início da campanha, belas e pacíficas canções em estilo folk, com ênfase em violão e gaita de boca.

No mais, há riffs legais de blues-rock na guitarra, e uma atmosfera contemplativa bacana em alguns momentos, mas as peças de rock em geral são pouco marcantes, pouco elaboradas, não exploram tanto as particularidades dos diferentes planetas e interagem de forma extremamente básica e limitada com as ações do jogador. Diferentemente do que o enredo sugere, o rock do protagonista continua à sombra do folk de seu tio.

Um gameplay subdesenvolvido, mas uma vibe coerente e em sintonia com a cenografia

Talvez o gameplay de The Artful Escape seja seu ponto mais fraco. Como platformer, ele é básico demais. Do começo ao fim, o jogador pode apenas andar, tocar guitarra com um botão, escorregar em uma espécie de “dash” e pular (havendo pulo duplo e salto com riff de guitarra). O level design linear e pouco diverso não contribui para desenvolver muito essas mecânicas e há pouca variedade de mecanismos de plataforma, às vezes tornando a jornada um tanto repetitiva e entediante.

Como “jogo de ritmo”, se é que pode chegar a entrar nessa categoria, a decepção é ainda maior. Tocar guitarra no meio da jornada apenas serve para dar mais “vida” ao cenário e à aventura, e para algumas rápidas interações para abrir passagens. Ao fim das fases, normalmente há um desafio musical, mas ele é tudo, menos desafiante, e é muito simplório. Nesses momentos, o jogador precisa apenas pressionar cinco botões, imitando um padrão rítmico apresentado pelo desafiante (normalmente um alienígena esquisito) em parte de seu corpo.


A música resultante dos momentos de “desafio de ritmo” não é mais que linhas melódicas muito genéricas e esparsas. Nesse aspecto, The Artful Escape está bem longe de ser uma experiência satisfatória se comparada com bons jogos de ritmo, tanto em sinergia musical quanto em desafio ou criatividade.

O único ponto alto a se destacar no gameplay é o de sua conexão com os cenários. É realmente prazeroso ver a intervenção do protagonista em alguns locais, em sua arquitetura, fauna e flora, por vezes revelando um pouco do que acontece naquele mundo em termos ecológicos, culturais e sociais.

Um jogo com personalidade e boas inspirações, mas com falta de refinamento em sua execução

O jogo de estreia da Beethoven & Dinosaur possui boas inspirações e muita personalidade a ser contemplada em algumas de suas músicas, seus cenários psicodélicos e no tom ao mesmo tempo sensível e bem-humorado da odisseia espacial maluca de Francis. Por outro lado, o desenvolvimento das mecânicas de ritmo e de plataforma é simplório e pouco interessante. O desenvolvimento dos personagens e das premissas da trama até que melhora, mas ainda muito básico, fraco e previsível, e mesmo na parte visual e sonora há alguns probleminhas.

The Artful Escape é recomendado a quem estiver atrás de um platform-adventure com uma direção de arte de fantasia científica diferenciada em contexto musical. Por outro lado, não é recomendado a quem queira um platformer mais centrado em mecânicas, e menos ainda a quem esteja atrás de um jogo com foco em mecânicas de ritmo.

Prós

  • Enredo com uma premissa interessante e sensível em torno da busca por autoconhecimento e por coragem de assumir uma identidade artística pessoal;
  • Audiovisual com personalidade e coerência em relação à sua proposta;
  • Belos cenários psicodélicos dos planetas, os quais são reativos à música e proporcionam alguns momentos bem inspirados em direção de arte;
  • Customização visual satisfatória para contribuir com a experiência de descoberta da identidade do personagem;
  • Diálogos bem-humorados e algumas boas interpretações de personagens;
  • Boa trilha sonora, sempre contemplativa, coerente e coesa com a proposta e com os demais elementos in-game; suas peças de folk são especialmente marcantes.

Contras

  • Trama curta e desenvolvida de forma muito básica, previsível e com impacto quase inexistente;
  • Personagens em geral mal-desenvolvidos, e poucos deles com um conceito interessante;
  • Animação de movimentos muito amadora;
  • Interatividade musical extremamente básica, repetitiva e pouco instigante;
  • Mecânicas de plataforma e sobretudo de ritmo incipientes e subdesenvolvidas;
  • Level design simplista, repetitivo e sem criatividade;
  • A excessiva linearidade e a inefetividade das opções de diálogo são dissonantes com a experiência de customização do protagonista para formar seu próprio estilo dentro do gênero do rock.
The Artful Escape — PC/Switch/XBX/XBO — Nota: 7.5
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Davi Sousa
Análise produzida com cópia digital adquirida pelo próprio redator

Doutorando em Filosofia que passa seu tempo livre com piano, livros e jogos (principalmente JRPGs). No Twitter, também conhecido como Vivi. Interessa-se especialmente por produções de maior apelo artístico e/ou narrativo e mecânicas de puzzle, stealth, estratégia e RPG. Seu histórico de análises pode ser conferido no OpenCritic; suas reflexões sobre a arte e a ciência dos jogos, em thegamelogicist.medium.com e na SUPERJUMP (ambos em inglês), ou em seu podcast: MetaQuestCast.
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