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Análise: Trek to Yomi (Multi) é uma obra que deixaria Akira Kurosawa orgulhoso

Enfrente seus demônios em uma jornada para cumprir o seu dever.


Trek to Yomi
é uma aventura com tom cinematográfico fortemente inspirado nos clássicos filmes de samurai imortalizados pelo cineasta Akira Kurosawa. Falecido em 1998, o diretor e roteirista de clássicos do cinema oriental como Os Sete Samurais (1954), A Fortaleza Escondida (1958) e Sanjuro (1962), ficaria orgulhoso do trabalho idealizado por Leonard Menchiari e desenvolvido pela Flying Wild Hog. Vamos saber o porquê na análise a seguir.

Destinado a proteger

A história de Trek to Yomi se passa no Japão feudal, onde assumimos o papel do jovem Hiroki, um nobre que está sempre sob a tutela de Sanjuro, um guerreiro que diariamente leva o menino ao limite da exaustão para treiná-lo no Bushido, o código que rege o caminho dos guerreiros samurais. Durante um rotineiro dia de treinamento, o povoado onde vivem é atacado por bandidos e o homem deixa o garoto no palácio para ajudar a defender o local da invasão.

Com um forte senso de dever já formado, o jovem Hiroki ignora a ordem de seu mestre e também parte rumo ao conflito para ajudar os cidadãos e auxiliar na luta contra os invasores. Entretanto, mesmo tendo conseguido defender o povoado, Sanjuro é fatalmente ferido durante uma luta contra o líder dos inimigos. Na tentativa de honrar seu mestre, Hiroki consegue ferir gravemente o assassino de Sanjuro, que em seu leito de morte pede que o garoto honre seu último desejo: dedicar sua vida para proteger os aldeões de seu povoado e se tornar a proteção que todos precisam futuramente.


Muitos anos se passaram e Hiroki agora já é um homem formado, altamente treinado na arte do combate e com um senso de dever que quase o cega, por querer honrar a última vontade de seu antigo mestre. O povoado é administrado por ele e Aiko, a filha de Sanjuro, e juntos lideram um dos mais influentes povoados da região.


Ao saber que um perigoso grupo de bandidos se aproxima — provavelmente o mesmo que atacou seu povoado anos antes —, Hiroki lidera um pequeno grupo de guerreiros para defender um povoado próximo, que é a última linha de defesa antes de chegar ao seu. A investida é violenta e culmina em um fatídico encontro com o homem que matou seu mestre no passado. Ao reconhecê-lo, a sede de vingança fala mais alto e Hiroki combate o vilão, mas é derrotado e morto.


Hiroki agora se vê no Yomi, o mundo dos mortos na mitologia japonesa, e deve enfrentar seus demônios para conseguir voltar ao mundo dos vivos para cumprir seu dever de proteger seus conterrâneos, além de questionar se o caminho do Bushido, o que escolheu para reger sua vida, é realmente o que deseja. Caso contrário, seu destino será apodrecer no limbo como os demais mortos.

Inspiração no cinema samurai

Um dos principais destaques de Trek to Yomi é sua direção de arte, que reproduz fielmente a estética dos antigos filmes de samurai das décadas de 1950 e 1960. Como citei no início desta matéria, Leonard Menchiari, idealizador e desenvolvedor do game, se inspirou fortemente nestas obras para trazer uma apresentação visual que nos transporta para esse mundo da mesma forma como esses filmes foram produzidos.

O aspecto de imagem segue o formato 21:9, o mesmo das telas de cinema, e cada cenário possui um trabalho de fotografia que rende belíssimas imagens durante a jogatina. Cada captura de tela que realizei renderia um belo papel de parede para o computador. A limitação da cor, assim como os filmes da época, é outro detalhe que traz um charme extra à experiência.


O gameplay segue essa linha para manter a experiência fidedigna ao material que o inspirou. Ao encontrar inimigos no caminho, Hiroki desembainha sua espada e parte para combate usando de combos básicos com sua lâmina por meio de golpes fracos e fortes, além de poder aparar e contra-atacar quando o comando é executado no momento certo.

Ao longo de sete capítulos, guiamos o guerreiro em sua jornada, desde a fatídica invasão que acabou na morte de seu mestre, passando pela investida desastrosa que o levou ao Yomi e culminando na jornada de autoconhecimento, e mais sangue derramado, que o ajudará a saber o que realmente guia sua vida: amor, dever ou vingança. A escolha do jogador altera levemente a narrativa da história, não tornando essa decisão determinante para embarcar em uma nova jornada após terminar o jogo pela primeira vez.

A arte (rabiscada) do combate

O combate é outro ponto alto da experiência mas, infelizmente, não é tão impecável quanto a direção de arte. Hiroki, além de contar com sua espada, pode fazer uso de armas secundárias que podem ajudá-lo, principalmente na luta contra vários adversários de uma só vez. São shurikens, flechas e até um devastador canhão de mão capaz de derrotar vários inimigos de uma só vez à disposição do rapaz.


No decorrer da campanha, Hiroki aprende novas combinações de golpes que lhe permitem tirar vantagem de algumas habilidades que os inimigos começam a apresentar durante a jornada. O principal é atordoá-los, o que os deixa suscetíveis a serem executados e rapidamente eliminados. As animações são bem feitas e bastante satisfatórias de se ver, o que estimula o jogador a dar mais ênfase neste tipo de estratégia para conseguir derrotar mais inimigos mais rápido.

Sempre que um combate tem início, o jogador deve derrotar todos os adversários na tela para poder avançar. Em algumas cenas a direção de arte faz seu papel trazendo uma ambientação que até nos estimula a fazer uma “luta bonita” para inflar nosso ego. Entretanto, dominar a espada pode ser um pouco frustrante por conta do tempo, quase que perfeito, exigido para realizar os combos.

Em diversos momentos tive dificuldade em realizar combos simples por não conseguir acionar os comandos no tempo certo. Às vezes o combo saia, às vezes não, e nos momentos mais intensos o erro chegava a ser fatal, com inimigos cada vez mais ferozes e numerosos. Nos chefes isso sempre rendia momentos frustrantes que me faziam morrer e ter que recomeçar a luta.


Ao longo da campanha, Hiroki aprende muitos combos, mas no fim das contas acabei usando só uns três deles, por conta da eficiência e ocasiões que surgiram. Não que os outros sejam inúteis — tinha um lá que eu achei realmente inútil —, mas foram os que eu mais senti facilidade em usar, me ajudando a seguir na jogatina até o fim da história. O combate, dado esse aspecto do combate, é ‘OK’. Satisfatório, mas que deixa aquela sensação de que com os ajustes certos ficaria bem melhor.

Colecionáveis e melhorias de vigor e saúde completam o rol de atividades secundárias para obter durante a jogatina. Os objetos ajudam a contar mais da história do game, além de nos inteirar mais sobre a riquíssima mitologia japonesa, e as melhorias aumentam os pontos máximos de vida e vigor, este segundo sendo consumido ao realizar ataques fortes e esquivas.


O desafio é justo, com quatro níveis de dificuldade para diferentes perfis de jogadores. Do modo mais fácil, para os que desejam curtir a narrativa, ao modo Kensei, o desafio máximo de Trek to Yomi. Neste o jogador pode colocar suas habilidades de samurai ao limite extremo, pois tanto o jogador quantos os inimigos são derrotados com um único golpe. Apenas os chefes não seguem esta regra. Seja qual for o tipo de experiência que procura em um jogo de ação, aqui ele atende muito bem todos que chegarem.

Honra e dever

Trek to Yomi é uma justa homenagem a um gênero cinematográfico em forma de videogame. Fãs de cinema ficarão felizes em ver uma belíssima fotografia e cenários estonteantes. Já os fãs de jogos de ação tem à disposição um gameplay sólido, apesar de pequenas falhas nas mecânicas, com um grau de desafio justo e um fator replay sedutor. A sensação é de dever cumprido.


Prós

  • Direção de arte com destaque para o aspecto cinematográfico da apresentação;
  • Gameplay simples e desafiador;
  • A busca pelos colecionáveis ajuda a estender a vida útil do jogo;
  • O modo Kensei adiciona um nível de desafio formidável.

Contras

  • O combate precisa de ajustes para ficar realmente bom;
  • As escolhas do jogador na jornada pelo Yomi não impactam significativamente a narrativa;
  • Relativamente curto.
Trek to Yomi — PC/PS5/PS4/XSX/XBO — Nota: 8.5
Versão utilizada para análise: PlayStation 4
Revisão: Heloísa D’Assumpção Ballaminut
Análise feita com cópia digital cedida pela Devolver Digital

Fã de Castlevania, Tetris e jogos de tabuleiro. Entusiasta da era 16-bit e joga PlayStation 2 até hoje. Jogador casual de muitos e hardcore em poucos. Adora quando as partidas acabam em discórdia e fogo no parquinho. Nas redes sociais é conhecido como @XelaoHerege


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