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Análise: Gran Turismo 7 (PS5/PS4) é um simulador refinado que celebra o amor pela cultura do automobilismo

Um êxtase para apaixonados por carros.


Gran Turismo 7
é o título mais recente da aclamada série de simuladores do estúdio Polyphony Digital, com 25 anos de tradição pautados pela busca pela excelência e pela atenção aos detalhes. Considerando todas as gerações do PlayStation, trata-se da franquia que mais vendeu na plataforma, presente desde o seu primeiro console e marcando presença até os dias de hoje.

Para veteranos e novatos

Todo esse histórico formou uma legião de fãs, que têm muita paixão, mas que cobram os desenvolvedores com rigor. Por um longo período de tempo, Gran Turismo foi sinônimo do melhor que havia em simuladores automobilísticos, mas infelizmente os três últimos títulos da franquia decepcionaram os jogadores mais tradicionais. Gran Turismo Sport, o único representante da série para o PS4, abandonou o modo carreira para concentrar-se no competitivo online e foi duramente criticado por essa mudança de postura.

Ao mesmo tempo, Kazunori Yamauchi, diretor e presidente da Polyphony Digital, declarou sua preocupação com a diminuição do interesse das novas gerações pela cultura dos carros. Segundo ele, o universo automobilístico tende a se tornar um grupo cada vez menor e mais fechado, com terminologias que somente eles mesmos compreendem, afastando o interesse de novos públicos.


Gran Turismo 7 chega com um desafio duplamente complexo: resgatar o prestígio da franquia junto a seus fãs mais antigos e, ao mesmo tempo, conquistar uma nova geração de jogadores, que talvez jamais tenham jogado um simulador de corrida. Para resolver essa questão, o projeto foi direcionado para o ponto que converge novatos e veteranos do automobilismo digital: a paixão pelos carros.

Música de abertura

Enquanto o jogo principal está baixando, Gran Turismo 7 oferece o Rally Musical, um modo arcade que não é tão sofisticado quanto o principal, mas já dá aquele gostinho de curtir a direção de um veículo. Esse modo é voltado a jogadores que queiram apenas se divertir dirigindo sem compromisso, ou que não aguentam a ansiedade de colocar as mãos no volante enquanto a longa instalação não termina.

Nesse modo, dirigimos em um modelo clássico pré-determinado por uma pista ao som de uma música. Existe uma espécie de contador regressivo que não mede tempo, mas sim as batidas da faixa que está tocando. Se o contador de batidas chegar a zero, é game over. Conforme dirigimos pelo trajeto, passamos por checkpoints que aumentam o limite do contador.


O objetivo é conseguir ouvir a música toda, o que na prática significa fazer as curvas certinho e passar pelos checkpoints dentro do limite de tempo. Nesse gameplay, a quantidade de ultrapassagens é irrelevante, pois não estamos brigando por uma posição, basta chegar ao final.

Esse modo é casual até demais, e provavelmente os jogadores mais aficionados pela experiência de simulação de Gran Turismo só o jogarão enquanto estiverem esperando a instalação acabar, ou quando receberem visitas que prefiram títulos de corrida casuais.

Gostaria de entrar para tomar uma xícara de café?

Gran Turismo 7 começa já mexendo com o emocional, abrindo com um vídeo que mostra a evolução da sociedade lado a lado com a história dos carros e como eles estão ligados à nossa cultura. O som da música clássica deixa claro qual será o tom que permeia todo o jogo: uma atmosfera refinada e cheia de classe. 

A interface principal é um mapa similar a um resort, que apresenta diversos pontos de interesse. O ponto central desse mapa é o Gran Turismo Café, uma charmosa cafeteria que serve como fio condutor da campanha principal. Luca, o dono do estabelecimento, é um aficionado pela cultura automobilística e sugere cardápios que representam missões para o jogador cumprir.

A maior parte desses desafios consiste em conseguir veículos para a nossa garagem, ou cumprir tarefas como chegar entre os primeiros colocados em uma determinada corrida ou fazer ações nas oficinas.

Uma vez cumpridas as tarefas do cardápio, podemos ouvir histórias automobilísticas relacionadas àqueles carros ou pistas conquistados e passar para o próximo cardápio. Luca é uma enciclopédia viva sobre a cultura automobilística, e ouvir suas histórias realmente fará com que o jogador conheça mais sobre esse universo.

O local também é frequentado por figuras ilustres da indústria, como designers famosos, que contarão curiosidades interessantes e relatos pessoais sobre o modelo que você estacionou do lado de fora da cafeteria.

Café não muito expresso

Os desafios de conseguir carros podem ser cumpridos simplesmente comprando-os nas lojas virtuais do jogo, mas fazer isso normalmente não é o melhor caminho, pois o ganho de dinheiro é um tanto demorado. Para acelerar as coisas, Gran Turismo 7 oferece a opção de microtransações, onde podemos comprar créditos com dinheiro real, mas o melhor caminho é ganhar veículos vencendo corridas. Com isso, as tarefas do cardápio acabam servindo como um tutorial e uma campanha bastante longa, em que apreciamos uma progressão lenta, porém consistente.




Seguir a campanha da cafeteria é parcialmente opcional. O jogador pode até ignorar os cardápios e simplesmente dirigir nas pistas já abertas no início, ganhar dinheiro com as corridas e comprar mais carros; porém, somente cumprindo as missões na cafeteria é que boa parte do conteúdo será desbloqueado. O senso de progressão é muito gostoso e divertido, mas também é extremamente lento.

As pistas, novos veículos, lojas e funções do jogo são liberados aos poucos, e o jogador que quiser desfrutar desses itens no modo arcade precisará obrigatoriamente desbloquear os conteúdos no modo carreira. Caso você, como bom brasileiro, queira curtir algumas voltas no circuito de Interlagos, por exemplo, isso só será possível após completar o cardápio número 29 da cafeteria, o que deve acontecer após mais de 15 horas de jogatina.




GT7 possui ao todo 34 pistas, cada uma delas oferecendo 90 opções de variação climática e de terreno. Cada circuito possui suas próprias provas, com condições pré-configuradas, mas o jogador tem a opção de fazer atividades extras, como Arcade, Drift, Prova de Tempo e Reconhecimento de Pista, ou configurar seu próprio evento. A Polyphony já confirmou que futuras atualizações trarão novos conteúdos.

The Real Driver Simulator

É um tanto difícil explicar em palavras, mas quando dirigimos carros reais, eles passam uma sensação ao motorista, composta pelo feedback do volante, o som do vento e dos pneus, o deslocamento de peso do chassi, o contato com a pista e a aceleração, tudo isso junto. De alguma forma, a Polyphony Digital conseguiu realizar a proeza de transmitir essa sensação através do DualSense, de uma forma muito próxima à realidade.




Evidentemente, a melhor forma de aproveitar Gran Turismo 7, assim como todo simulador de corrida, é usar um conjunto dedicado de volante e pedais, mas asseguro que a experiência será incrível mesmo que você esteja jogando no controle que acompanha seu console, especialmente num PS5.

Os recursos do DualSense foram aproveitados de maneira sublime: é possível sentir o retorno tátil da direção e da pista através do feedback háptico. Os gatilhos adaptáveis simulam muito bem o retorno do freio e do acelerador de um carro real. Com o tempo, você esquece que está jogando videogame e seu corpo reage naturalmente ao controle como se estivesse dirigindo de verdade.




Outro recurso de nova geração que faz uma enorme diferença é o suporte ao áudio 3D. É possível ouvir cada um dos oponentes e localizar sua posição individualmente através do som. A passagem do vento e a perda da aderência dos pneus com o asfalto também podem ser percebidas muito claramente através do áudio.

Haja garagem

Gran Turismo 7 oferece uma frota de mais de 400 carros, com representantes icônicos dos principais fabricantes e exemplares bastante variados e interessantes. Os veículos podem ser obtidos como recompensas nas corridas, em sorteios ou comprados em uma das três lojas disponíveis no mapa.




Essa divisão em três lojas é um tanto estranha: temos uma dedicada a usados, bastante similar a sites de comércio; uma loja física para modelos novos, a Brand Central, que simula uma concessionária; e uma loja secreta, que oferece modelos raros e exclusivos. As duas últimas lojas não estão abertas no começo, sendo preciso avançar na campanha para liberá-las.

Devido a essa separação, comprar um automóvel com créditos é um processo bastante burocrático. Primeiro, verificamos na loja de usados se não tem alguma oferta por lá. O jogo não dá nenhuma informação a esse respeito, mas aparentemente não há nenhuma desvantagem em comprar um usado em relação a um novo.


Se o modelo não estiver no site de usados, precisamos ir até a concessionária de carros novos e procurá-lo por lá, selecionando a região e o fabricante; por fim, se ele também não estiver disponível na Brand Central, o jogador precisa procurá-lo na loja de raridades, que vende tudo a preços exorbitantes. Talvez esse sistema de três lojas tenha sido pensado para dar maior realismo ou valorizar os modelos mais raros, mas na prática é uma complicação desnecessária para o jogador.

Além das concessionárias, existe uma oficina para fazer upgrades nos veículos e outra (separada) para alterar visuais e fazer manutenção. Conforme você usa o mesmo carro repetidas vezes, ele apresenta desgaste mecânico e precisa de lavagem, troca de óleo e reparo mecânico para voltar à performance plena. Estranhamente, dá para trocar o óleo do motor de um Tesla, mesmo isso não sendo possível na vida real. Também dá pra dar aquele lustro na lataria do seu Fusca '66!



A oficina de upgrades é uma tradição de Gran Turismo, permitindo que você aumente a performance do veículo alterando a suspensão, aprimorando o motor, a transmissão, etc. Esse sistema permite que você faça o seu carro favorito competir de igual para igual com supermáquinas, liberando sua utilização em corridas mais avançadas do que ele poderia competir normalmente. Também é possível comprar pesos e restritores de potência, permitindo que modelos avançados possam competir de forma justa em categorias inferiores.

Dá licença

Outra característica tradicionalíssima de Gran Turismo e que está de volta nesse título é a Central de Licenças. Trata-se de uma série de desafios técnicos que funcionam como um tutorial com dificuldade progressiva, e que certificam as habilidades do jogador. Cada desafio possui um limite de tempo e a performance do motorista é classificada do bronze ao ouro, dependendo do tempo que ele levar para concluir a prova.




As licenças são divididas em séries, e ao completar todos os desafios de uma série, você recebe um certificado, algo similar ao ato de conseguir uma Carteira de Habilitação do mundo real. Os instrutores da Central são pilotos famosos do automobilismo virtual, como o brasileiro Igor Fraga.

Faça chuva ou faça sol

Jogos de corrida costumam ser vitrines das capacidades gráficas de seus consoles, e Gran Turismo 7 cumpre esse papel de forma espetacular, A qualidade visual é deslumbrante nos cenários, nos céus e nas pistas, mas em particular nos carros. As capacidades gráficas do PS5 permitem que a iluminação dinâmica deixe simplesmente maravilhosos os efeitos dos raios de sol, do asfalto ou da lataria.

As corridas possuem alterações dinâmicas de passagem do tempo, com ciclo diurno e noturno, e uma iluminação extremamente realista dos faróis. O clima também muda em tempo real, podendo chover ou abrir o tempo aleatoriamente durante uma prova. Faltou, porém, um sistema de previsão do tempo, presente em outros títulos de corrida, que permita colocar os pneus adequados antes da prova. Já aconteceu de eu equipar pneus de chuva e jogar com céu azul e passarinhos cantando. Reiniciei a corrida, escolhi pneus para pista seca e quando comecei a correr novamente, enfrentei uma tempestade.




Os carros são lindíssimos, por dentro ou por fora. A Polyphony recriou meticulosamente cada milímetro dos veículos e a modelagem beira a perfeição. Isso já é uma característica esperada de um Gran Turismo, mas a atenção aos detalhes não deixa de impressionar e justifica por que os títulos da série demoram tanto para ser produzidos. A nossa coleção pessoal, que pode ter seu visual personalizado na oficina, satisfaz plenamente o fetiche automobilístico dos jogadores aficionados pelo gênero.

Infelizmente, os recursos de ray tracing não estão disponíveis durante as corridas. Somente no replay e no modo de fotografia podemos curtir o brilho das latarias em toda sua plenitude, mas isso não quer dizer de forma alguma que os gráficos sejam feios durante o gameplay: em todos os momentos Gran Turismo 7, é mostrado um produto refinado, caprichado e lindíssimo.

Para quem realmente ama fotografia, foram oferecidos recursos de câmera avançados para usar nos replays, e um modo extra especial em que podemos fotografar os carros da nossa coleção em cenários selecionados do mundo real.



Dirigindo com (contra) os amigos

Gran Turismo 7 oferece modos multiplayer local e online, que infelizmente não estão disponíveis desde o começo: para desbloqueá-los, é necessário completar o desafio do cardápio número nove no Café. Nos modos multiplayer, o computador é bem mais rigoroso em relação a regras como colisões propositais ou cortar curvas, aplicando penalidades para essas infrações.

O multiplayer local oferece competições para dois jogadores em tela dividida, bastante divertidas para jogar com um amigo, dividindo o sofá da sala. Caso seus amigos não estejam tão perto, também existe o modo Sport, que, como o nome indica, funciona de forma similar a Gran Turismo Sport, em que partidas são organizadas através de lobbies.




Por fim, GT7 exige que você esteja conectado o tempo todo, não somente para o multiplayer online, mas até para jogar o modo campanha single player. Quando você está sem internet ou quando os servidores estão em manutenção, todo o conteúdo do modo carreira não pode ser acessado, deixando o jogador restrito ao modo Arcade e ao Rally Musical.

Manter tradições nem sempre é algo bom

Gran Turismo 7 é um jogo maravilhoso, mas infelizmente tem lá suas falhas, algumas delas herdadas das tradições da série, como a falta de realismo no dano dos carros. Para falar em termos claros, os veículos são indestrutíveis e os danos não refletem o que acontece na pista, nem mesmo cosmeticamente. Eu fiz um teste batendo uma Ferrari a 265km/h em uma barreira, e o resultado foram só alguns arranhões e um leve amassado na lataria, com o carro continuando a correr normalmente.

A inteligência artificial também deixa a desejar. Os oponentes sempre seguirão roboticamente a trajetória ideal em um circuito, o que significa que eles andam um atrás do outro em fila indiana, todos se comportando de forma extremamente previsível. É possível ultrapassá-los sem grandes dificuldades, e raramente eles tentarão fazer algo para lhe impedir.




Isso quer dizer que toda prova é mamão com açúcar? Não, porque o jogo impõe certos mecanismos um tanto artificiais para compensar a falta de sagacidade da inteligência artificial. Em toda corrida, você parte da última posição, e precisa ultrapassar todo mundo para chegar em primeiro lugar.

Por um lado, essa mecânica acrescenta emoção à disputa, pois a sensação de vencer uma corrida fazendo diversas ultrapassagens é empolgante; por outro, não é muito realista que um piloto profissional sempre comece suas corridas na lanterna do grid.

Como os oponentes não são muito inteligentes, dá para vencê-los usando truques sujos como fechadas e trajetórias não convencionais, ou simplesmente abarrotando-se de upgrades e vencendo na força bruta, pilotando um carro que esteja no limite máximo permitido em uma prova.




Mesmo com esses detalhes, Gran Turismo 7 ainda é sensacional, e sem sombra de dúvidas é um dos melhores simuladores da atualidade, especialmente se você jogá-lo em um PlayStation 5. A jogabilidade com o DualSense na mão é praticamente indescritível, e a sensação de realismo na pista e, principalmente, a diversão que ele proporciona são sensacionais.

O amor está de volta às pistas

Se você gosta de jogos de corrida e possui um PS5 ou PS4, Gran Turismo 7 é essencial à sua biblioteca. Na minha opinião, GT7 conseguiu captar a essência daquilo que fazia a série espetacular e vem com todas as suas principais características – as boas, como gráficos maravilhosos, a atenção aos detalhes e a simulação de pista impecável.

Mesmo com danos pouco realistas e inteligência artificial que deixa a desejar, é um produto divertidíssimo, claramente desenvolvido com muito capricho e amor, pensado para proporcionar momentos de satisfação genuína ao jogador apaixonado por automobilismo, seja ele um jogador casual ou um fanático pelo assunto. O prazer de dirigir, saber mais sobre os veículos, colecioná-los e admirá-los em seus mínimos detalhes… está tudo lá, com cheirinho de carro novo e café fresco numa xícara.



Prós

  • Simulação física de condução simplesmente impecável;
  • Modelagem meticulosa de cada automóvel, com detalhes milimetricamente perfeitos;
  • Gráficos belíssimos, muitas vezes fotorrealistas;
  • Excelente variedade de conteúdo, com mais de 400 carros e 34 pistas;
  • Divertidíssimo tanto para jogadores casuais quanto para entusiastas;
  • Uso exemplar dos recursos do DualSense e do áudio 3D.

Contras

  • Complicações desnecessárias, como três lojas diferentes para comprar veículos;
  • Progressão lenta, e alguns modos como multiplayer desbloqueados apenas através da campanha;
  • Simulação de danos pouco realista;
  • Inteligência artificial pouco desafiadora, com oponentes andando em fila indiana;
  • Exige que você esteja online e conectado aos servidores o tempo todo, mesmo para jogar no modo campanha.
Gran Turismo 7 - PS5/PS4 - Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: PS5
Revisão: Davi Sousa
Análise produzida com cópia digital cedida pela Sony

é engenheiro eletrônico e tem uma filha fofinha que tenta morder os controles do papai. Curte jogos de luta, corrida e ação.


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