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Análise: Gear.Club Unlimited 2 - Ultimate Edition (Multi) é um desastre sobre rodas

Port do sucesso do Switch não faz jus nos demais consoles e performa de maneira pavorosa, com diversos bugs e falhas técnicas.

Desde 2017, Gear.Club Unlimited tem se consolidado como a principal franquia de corrida do Nintendo Switch, tanto que na metade de 2021 a série bateu a marca de 1 milhão de unidades vendidas. Naturalmente, esse sucesso todo levaria o título para os demais consoles e PC.

Gear.Club Unlimited 2 - Ultimate Edition chegou para os consoles da Sony e Microsoft trazendo todo o conteúdo extra lançado previamente para Switch. Infelizmente, esse port deixou muito a desejar e mostrou que para ser um bom jogo de corrida multi plataforma, ainda precisa passar um bom tempo na oficina.

Variedade maquiada

Uma característica que Gear.Club investe forte é na quantidade de carros e pistas disponíveis. Ao todo são 48 circuitos diferentes e quase 100 carros, porém essa quantidade tem algumas ressalvas.

Para começar, os veículos são divididos em categorias - A, B, C e D - cada uma com três subdivisões. Logo, a A1 é a mais fraca e a D3 é a mais forte. Ainda assim, é possível ter um mesmo carro, com os mesmos atributos, em uma mesma categoria, mudando apenas o nome e a cor, como acontece com Chevrolet Camaro e Dodge Challenger. Isso se estende para alguns carros especiais que podemos ganhar dos nossos rivais, os quais possuem apenas uma pintura única de diferencial.

Existe a opção de customizar seu automóvel com uma gama de pinturas personalizadas exclusiva de cada marca, como o laranja característico da McLaren ou um acabamento cromado para o já citado Chevrolet Camaro. Além disso, alguns também foram agraciados com um visual único, que variam entre faixas esportivas e decalques coloridos com flores.

Apesar de não ser um primor visual, os modelos dos carros são bem bonitos, mas uma escolha curiosa é que não há a opção de câmera com visão da cabine do motorista durante as corridas. Essa característica é algo praticamente clichê em jogos desse estilo e não tê-la em Gear.Club é bastante estranho, ainda mais com a quantidade de modelos à disposição do jogador.

Em relação às pistas, o sentimento de enganação é inevitável. Como citado anteriormente, existem 48 circuitos divididos entre quatro paisagens: um cânion, uma floresta, um monte nevado e um campo rochoso. Deste total, metade deles é para as classes A e B, e a outra metade para C e D. Entretanto, todas as pistas são, sem exagero, idênticas.

Os ambientes em si são constituídos de pouquíssimas variações. É gritante a sensação de estar passando pela mesma rocha ou túnel pela décima oitava vez na mesma corrida. Isso é reforçado pelo traçado de cada circuito que, mesmo tendo como objetivo o deslocamento de um ponto de partida até um ponto de chegada, nos traz aquela coisa ruim de estarmos sempre andando em círculos, não importa o tamanho da corrida. São sempre as mesmas curvas, retas, bifurcações, angulações, ou seja, o mesmo tudo!

Além disso, alguns trechos são renderizados enquanto estamos no meio da disputa, o que causa variações estranhas nos efeitos de luz e sombra. Os mais notáveis acontecem nas pistas no meio da floresta, onde árvores surgem do nada em meio à áreas abertas. Túneis também geram efeitos curiosos, como transformar todos os competidores em borrões pretos na tela e criar uma explosão de luz na tela ao sairmos deles, deixando o jogador sem visibilidade por alguns segundos.

E um adendo, só é possível ver a lista de circuitos de maneira visualmente clara no multiplayer local, e ainda assim ele só mostra o nome e uma foto da paisagem, sem sequer mostrar o traçado. Pelo menos o multiplayer local suporta de duas a quatro pessoas.

Direção bipolar

O principal, e único, modo de jogo solo é a carreira. Nela, seguimos aquele clichê batido de sermos a pessoa certa na hora certa de substituir um piloto que não apareceu e impressionarmos o “mundo do automobilismo” com nosso resultado. Sob essa premissa, disputamos um torneio principal que possui vários campeonatos (12 por categoria, quatro por subcategoria), que em sua maioria têm de quatro a seis corridas, mas alguns torneios pontuais se resumem a uma corrida só. Além destes torneios, surgem durante a nossa progressão corridas únicas que garantem uma boa recompensa em dinheiro.

As provas variam entre três tipos: Derby, a corrida normal; Contrarrelógio, uma espécie de disputa contra os fantasmas dos outros participantes, para ver quem tem o melhor tempo; e Último Sobrevivente, o famoso modo no qual o último piloto é eliminado depois de alguns segundos, até restar um. Vale frisar que o jogo está em português de Portugal, por isso os nomes mais atípicos… e seguindo a tradição do Switch, se quiser jogar em inglês é necessário mudar o idioma do sistema do console.

Como dito anteriormente, por mais que exista esse número ilusório de circuitos, já que todos são a mesma coisa, tudo se torna bastante arrastado. O que ajuda a variar um pouco o desafio (em tese) são as provas de cada classe que vão do pacato relaxante para o estressante absurdo em menos de cinco segundos.

Gear.Club não tem uma seleção de dificuldade de IA, então presume-se que o nível dos oponentes aumenta a cada categoria, mas não é bem assim que funciona. Não importa a categoria do seu carro ou a posição em que você está largando, nada ajuda a prever como será a sua etapa. Em alguns casos, a corrida segue como um passeio na praia, onde ultrapassamos todo mundo tranquilamente e chegamos na frente com uma larga vantagem.

Em outros, todos os pilotos são tomados pelo espírito de todas as lendas do automobilismo interplanetário e te caçam implacavelmente, inclusive dando fortes batidas para que o jogador rode na pista. E não importa quanto seu carro seja mais potente que o dos adversários, eles irão te ultrapassar e quebrar a barreira do som.

Esse fator acima nos leva a outro problema crônico de Gear.Club: o grinding excessivo. Como já era de se esperar, cada carro tem seu valor, assim como também é gasta uma quantia para que sejam aprimoradas suas peças, como motor, pneus, câmbio, entre outras. Acontece que precisaremos de pelo menos 12 carros, um para cada subcategoria, e eles têm, naturalmente, atributos diferentes entre si. Pelo mapa estão espalhadas concessionárias, onde os veículos ficam expostos e podem ser conferidos seus atributos e qual a média máxima que podem atingir. Neste tópico começa uma mistura indigesta.

Ao entrarmos em uma prova, podemos ver quais carros podemos usar e seus atributos básicos. Se ele já não estiver na nossa posse, podemos ser direcionados para a concessionária, e a questão é que os veículos de uma mesma subcategoria não estão neste mesmo local, logo não é possível fazer uma comparação de todos os atributos e da média máxima que eles podem atingir, o que leva o jogador a duas opções: ou vasculha cada local e tenta lembrar os valores para comparação, ou arrisca a sorte com uma escolha que pode dar muito certo ou muito errado. Se der errado, azar, pois não é possível vender a caranga em caso de mudança de opinião.

Existem algumas maneiras de juntar grandes quantias de dinheiro rapidamente, mas ainda assim, é muito fácil gastar tudo nas categorias com super carros. A D2 e a D3, por exemplo, precisam de uma somatória de pelo menos 6 milhões e meio para adquirir o carro e fazer seu upgrade completo. Agora imagina ter que fazer esse processo duas ou três vezes.

O dinheiro também é utilizado para melhorarmos os equipamentos da nossa oficina, e por acaso o material também é bastante custoso. Cada setor especializado vai te fazer investir de maneira pesada, mas é isso ou não conseguir pagar pelas melhores peças para seus veículos.

O mais interessante na Carreira são as Corridas de Resistência. Apenas alguns modelos específicos podem ser usados nelas, porém estas provas acontecem em pistas únicas, bem mais interessantes que os demais trajetos. Além disso, cada etapa tem uma classificatória e a corrida em si, onde temos que escolher um tipo de pneu e quanto de gasolina usaremos na largada, além de como será nosso pit stop.

Bandeira Preta

Nota do redator: para aqueles que não estão familiarizados, a bandeira preta é utilizada nas categorias automobilísticas para anunciar a desqualificação imediata de um piloto durante a prova.
Foram relatados acima alguns problemas que tornam Gear.Club uma experiência um pouco cansativa, mas que ainda assim poderia entreter alguns fãs do automobilismo virtual. Entretanto, agora vem os verdadeiros motivos pelo qual este título precisa de uma revisão urgente antes de ser considerado “jogável”.

Em primeiro lugar, a performance do carro deixa a desejar em diversos momentos. Não é incomum momentos nos quais a virada das curvas varia muito, fazendo com que nosso piloto rode ou não gire o volante com a velocidade necessária para realizar uma curva fechada. Sem contar que foram inúmeras vezes nas quais perdemos força em uma reta comprida, onde podíamos dar tudo do motor para aumentar a vantagem ou até alcançar o nosso rival. Se ligamos todos os assistentes de direção, pilotamos uma torradeira; se desligamos, vira um sabonete.

Em segundo, a parte sonora é horrorosa. O som dos carros não passa empolgação nenhuma ao acelerarmos com toda a força que deveria existir debaixo do capô. Inclusive, quando o veículo atinge um certo pico de velocidade, todos eles, não importa o modelo ou classe, fazem um barulho estranho como se estivesse estourando pipoca. As músicas que tocam durante a corrida e no menu ficam travando constantemente, dando engasgadas dignas de um CD riscado.

Terceiro, os carros adversários somem do nada! Sim, é isso mesmo, você está lá correndo e de repente, todo mundo some. Se estamos no pelotão de trás, não conseguimos ver quem ultrapassar. Se estamos na ponta, podemos ser ultrapassados sem nem notar a presença do oponente… ou notaremos, porque ele vai nos dar uma cacetada, com toda certeza. Esse lapso pode ser apenas momentâneo ou durar uma corrida inteira, principalmente nas provas mais no final do modo Carreira.

Por fim, e o problema mais crítico, o jogo encerra constantemente na tela mais importante de todas: a de seleção de carros. Pois é, sempre que entramos em um evento, passamos por esse pequeno menu, aí o jogo congela e encerra, não importa se acabamos de iniciar ou se o jogo já está funcionando a um tempo. Ainda pode ocorrer o risco do save ser corrompido durante esses crashes, o que nos leva a criar o hábito incômodo de realizar um torneio, encerrar o jogo, subir o save para a nuvem, iniciar de novo e torcer para ele não travar de novo.

Outro lembrete: podemos comprar quantos carros quisermos, mas só 12 podem ficar na oficina ao mesmo tempo. Os excedentes são enviados para o armazém, que é acessado com um botão e isso abre o bendito menu que mais uma vez congela o jogo e o encerra prematuramente.

Um estranho na pista

Gear.Club Unlimited 2 - Ultimate Edition tinha boas intenções e vinha impulsionado por seu sucesso, parecendo até que poderia ter um bom destaque. Entretanto, sua execução horrorosa mostra que para brigar com os grandes, é necessário mais atenção. Não se coloca um jogo desses em um nicho que conta com nomes pesados como GRID, Forza e Gran Turismo. Se não for lançado um patch de correção urgente para pelo menos minimizar a dor de cabeça de quem comprou essa bomba, nada vai tirar o gosto amargo dessa derrota.

Prós

  • Quantidade bacana de carros, alguns com pinturas exclusivas;
  • Multiplayer local para quatro pessoas;
  • Montar os carros na oficina é bem bacana;
  • Customização com diversas opções;
  • As Corridas de Resistência são bastante desafiadoras.

Contras

  • As pistas são idênticas e repetitivas;
  • Os ambientes renderizam no meio da corrida;
  • O menu de seleção de carros faz o jogo fechar;
  • O desempenho sonoro dos veículos é pavoroso;
  • As músicas ficam falhando;
  • IA inconsistente;
  • Os oponentes somem durante a corrida;
  • Não é possível trocar o idioma do jogo sem alterar o sistema do console;
  • Grinding excessivo;
  • A direção não responde bem aos comandos.
Gear.Club Unlimited 2 - Ultimate Edition — PC/PS4/PS5/XBO/XSX — Nota: 3.0
Versão utilizada para análise: PS4
Revisão: Felipe Fina Franco
Análise feita com cópia digital cedida pela Microids


é amante de joguinhos de luta, corrida, plataforma e "navinha". Também não resiste se pintar um indie de gosto duvidoso ou proposta estranha.


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