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Análise: Tunche (Multi) é um roguelike sobre explorar a Floresta Amazônica

Escolha entre cinco personagens e lute contra feras na floresta.

Desenvolvido pela Leap Game Studios, Tunche é um roguelike de ação cuja inspiração vem da Floresta Amazônica, utilizando-se de mitos regionais. Um grupo de cinco personagens, cada um com suas motivações pessoais, embarca em uma jornada para enfrentar o Tunche e realizar seus desejos.

Entre feras

Tunche é uma espécie de beat’em up roguelike. Ou seja, cabe ao jogador usar os punhos e habilidades dos personagens para enfrentar várias ondas de inimigos que aparecem em pequenos espaços 2D. São ao todo quatro áreas diferentes, sendo necessário enfrentar os desafios de várias salas aleatórias para prosseguir e chegar a um chefe que marca o fim daquela região.

As feras que habitam cada área são diferentes, sendo interessante aprender os seus padrões de ataque para poder avançar. Enquanto a maior parte das criaturas possui golpes de curta distância, há também animais que atiram projéteis ou têm movimentos mais elaborados, a exemplo dos peixes que se escondem embaixo de troncos.

Infelizmente, o título tende a ficar bastante repetitivo rapidamente devido às salas de uma mesma região serem muito similares. A última zona é mais interessante visualmente, mas no geral, as áreas acabam por ficar muito iguais, apesar de serem muito bonitas. A direção de arte faz com que os cenários e os personagens combinem bem, mas a variação deixa a desejar. Além disso, as hordas de uma mesma área usam os mesmos tipos de bichos, fazendo com que não haja muita diferença até que o jogador mude de área.

O que realmente traz alguma variação é o sistema de recompensas. Ao derrotar todos os inimigos de uma sala, o jogador ganha um prêmio e pode escolher para qual sala avançar. Os portais que podem ser selecionados revelam exatamente o que pode ser obtido naquela sala. As áreas mais comuns oferecem recompensas como dinheiro, núcleos com habilidades passivas e pontos para upgrades. Porém, há também zonas especiais com cutscenes de história, personagens para resgatar, uma loja para comprar poções e núcleos e uma área especial em que uma lhama empreendedora oferece desafios por algumas moedas. Esse conhecimento prévio adiciona uma camada estratégica à exploração da floresta.

Cinco personagens, cinco motivações

Um detalhe importante de Tunche são os personagens jogáveis. Temos a feiticeira Rumi, o menino-pássaro Qaru, o forte músico Pancho, a guerreira Nayra e a criança do chapéu de A Hat In Time (Multi). Cada um desses cinco possui seu próprio estilo de combate, usando armas e magias diferentes e tendo também movimentações próprias. Pessoalmente, acabei tendo mais facilidade em utilizar o pequeno Qaru com seus movimentos ágeis que aperfeiçoei ao longo do tempo.

Como um bom roguelike, existe uma tendência inicial do jogador falhar uma boa quantidade de vezes até compreender os padrões dos inimigos. Ser derrotado, porém, não é o fim do caminho, apenas voltando o personagem para o vilarejo inicial. Antes de enfrentar novamente todas as áreas desde o início, é possível gastar os pontos obtidos para fortalecer o personagem.

Uma das possibilidades é gastar essências (pedras verdes) para adicionar novas habilidades ao moveset de um personagem. Isso inclui não apenas golpes novos (como combos e um ataque especial), como também elementos de movimentação que adicionam funcionalidades extras à esquiva e ao deslocamento aéreo. O estoque de poções, os valores máximos de HP/MP e o poder de ataque também podem ser melhorados.

Outro elemento que o jogador pode fortalecer para ganhar vantagens no combate são os núcleos. Apesar do recebimento deles durante a exploração ser aleatório, é possível gastar pontos para aumentar os níveis de força desses itens enquanto o jogador ainda está no acampamento inicial. Os núcleos contam com poderes bastante variados, como a possibilidade de se curar ao derrotar criaturas, causar envenenamento nos inimigos e a invocação de raios automáticos. Ao fortalecê-los, seus poderes podem se tornar mais intensos ou mais prováveis de serem ativados, por exemplo.

Saber utilizar esses sistemas de fortalecimento é importante, porque um aspecto fundamental do gameplay é o Estilo. Ao realizar vários combos rapidamente, o jogador recebe notas de estilo e precisa manter uma boa execução do combate para pegar um ranking alto. Tomar dano implica em penalidade e alternar entre ataques físicos e mágicos, assim como golpes no chão e aéreos, é fundamental. Por conta desses detalhes, obter valores como A, S, SS e SSS pode ser bem complexo. Além da satisfação pessoal, a vantagem de fazer isso é obter mais dinheiro e pontos de upgrade em uma área terminada em um ranking maior.

Pessoalmente, sinto que esse fator poderia repercutir em ganhos maiores ou algum outro tipo de vantagem, mas o sistema é um belo incentivo para que o jogador ouse dominar o combate. Além disso, tive problemas várias vezes porque o spawn de novas criaturas demorava mais do que o tempo para o ranking começar a decair e porque a distância entre algumas criaturas era muito grande. No meu tempo com o jogo, também passei por situações em que inimigos estavam fora da área em que era possível andar (devido a barreiras invisíveis) ou saíam e nunca mais voltavam, o que me levou a ficar impossibilitado de avançar em algumas ocasiões, perdendo também meu combo no caminho. Imagino que situações assim sejam consertadas em patches futuros.

Outro probleminha que encontrei foram alguns erros na tradução para o português. Há algumas palavras estranhas, problemas de digitação e até mesmo inconsistências em particular em relação ao personagem do jogo A Hat In Time, cujo nome alterna entre inglês e português. Porém, não há nada que particularmente quebre a experiência.

Um roguelike amazônico de respeito

Tunche
é um roguelike muito bonito e com combate fluido. Seu visual cartunesco ajuda a oferecer uma representação leve e charmosa da cultura de alguns dos povos da Floresta Amazônica. Apesar de tender rapidamente à repetição, é um título que vale a pena experimentar.

Prós

  • Combate fluido com cinco personagens com estilos próprios de movimentação e ataque;
  • Belo trabalho de representação cultural da Floresta Amazônica;
  • Visual cartunesco charmoso;
  • A possibilidade de ver antecipadamente as recompensas das salas adiciona uma camada de estratégia à escolha.

Contras

  • Tende a ficar repetitivo rapidamente devido à pouca variedade das áreas;
  • Pequenos erros na tradução para português.
Tunche — PC/PS4/XBO/Switch - Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Juliana Paiva Zapparoli
Análise produzida com cópia digital cedida pela HypeTrain Digital

é formado em Comunicação Social pela UFMG e costumava trabalhar numa equipe de desenvolvimento de jogos. Obcecado por jogos japoneses, é raro que ele não tenha em mãos um videogame portátil, sua principal paixão desde a infância.


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