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Análise: Tails of Iron (Multi) é uma fábula real com pitadas de soulslike

Baseado em um conflito fictício entre ratos e sapos, título impressiona pela qualidade e pela sinergia de seus elementos individuais.

Preciso ser sincero logo de início: Tails of Iron (Multi) é uma das mais gratas surpresas que tive este ano. Um carismático RPG com características do gênero soulslike, a aventura independente desenvolvida pelo Odd Bug Studio tem o poder de impressionar constantemente por sua narrativa envolvente, seu sistema de combate divertido e sua apresentação fantástica. Assim, sem mais delongas, vamos à nossa análise!

Era uma vez um reino...

Tails of Iron se passa em um mundo fictício, onde uma longa e violenta guerra entre ratos e sapos fez com que o conceito de paz sempre fosse percebido como algo efêmero pela população. Gerações assim se passaram, até que um jovem monarca subiu ao poder. Rei Rattus, o primeiro de seu nome, unificou os reinos dos ratos, expulsando o tirano Verruga Verde e seu bando de sapos aos pântanos de onde outrora vieram.

Com o feito do novo rei, tempos de paz se sucederam: as colheitas prosperaram, as famílias cresceram e a magnífica Torre Carmesim ascendeu em direção aos céus. Porém, como não há bem que sempre dure, com o passar do tempo Rattus foi envelhecendo, e o reino se tornando vulnerável novamente.

Parte da população do reino sentia um odor repugnante no ar, o que denunciava que um novo ataque dos sapos, desta vez mais organizado, estava próximo. Já idoso, Rattus não conseguia segurar sua coroa direito, quiçá uma espada, o que significava que o reino logo precisaria de um novo herói. E, assim, começa a nossa aventura.

O herói escolhido

Em Tails of Iron, controlamos Redgi, um dos filhos do Rei Rattus e aspirante ao trono. Por sua baixa estatura e seu físico mirrado, Redgi nunca foi percebido como o favorito à sucessão, e sim como um azarão frente ao seu irmão maior, Denis. Ainda assim, ciente de seu valor próprio e de seus treinamentos intensos, Redgi decide participar do duelo que decidirá o sucessor real.

O aguardado embate inicial, bem como a preparação para ele, também serve para apresentar ao jogador as mecânicas do título. Na prática, Tails of Iron é um RPG 2D com leves características do gênero soulslike. Isso quer dizer que, durante o jogo, você irá explorar belos cenários em duas dimensões — quase como em um metroidvania, diga-se de passagem — enquanto realiza diversas missões para reerguer o reino dos ratos após um ataque brutal do bando de Verruga Verde.

Um dos grandes destaques da obra do Odd Bug Studio é o sistema de combate em tempo real, que é quase todo comandado através dos botões superiores, caso você esteja utilizando um controle — o que é inclusive o recomendado pelos desenvolvedores, mesmo no PC (a plataforma utilizada para esta análise). 

Munido inicialmente de espada e escudo, Redgi pode desferir golpes, esquivar-se e defender-se. Os ataques mais poderosos dos inimigos são divididos em dois tipos, identificáveis por uma sutil aura vermelha ou amarela sobre o adversário. Ataques de aura vermelha podem ser esquivados, enquanto os de aura amarela precisam ser aparados pelo escudo, abrindo brecha para um contra-ataque rápido se a reação ocorrer no tempo correto. 

Juntamente com os recursos ofensivos de Redgi, esse artifício da aura acaba trazendo um ritmo muito prazeroso ao combate, que, apesar de ser em tempo real, carrega uma dose considerável de estratégia em sua fundação. Assim como em outros títulos soulslike, é preciso saber o momento certo de atacar, de esquivar-se e defender-se, já que mesmo uma curta sequência de erros pode significar um game over.

Após um breve período de adaptação aos comandos, confesso que me percebi fisgado pelo sistema de combate do título, que, embora simples na teoria, possui um “peso” natural e agradável e consegue entreter com qualidade. Como dentro do jogo há diversos inimigos dentre insetos e anfíbios, incluindo chefes especiais, e cada um destes possui suas próprias particularidades, posso afirmar que fãs de ação em duas dimensões certamente se sentirão em casa aqui.

RPG-Lite

Em Tails of Iron não há stats a serem alocados nem níveis a serem conquistados, então os elementos de RPG do título figuram na forma dos equipamentos que podem ser vestidos e empunhados por Redgi. 

Conforme se joga, fica claro que há grande variedade in-game de armaduras, escudos e armas (como machados e lanças) para serem descobertas e equipadas, e estas podem ser combinadas para favorecer um ou outro estilo, a depender do jogador. Armaduras grandes absorvem mais dano, mas em compensação são mais pesadas, o que prejudica o alcance e a facilidade da esquiva. Do mesmo modo, uma espada maior pode causar mais dano, mas seus golpes podem ter uma janela de tempo maior para execução.

Como dito, caberá a cada jogador decidir qual estilo o veste melhor, já que não há certo ou errado aqui. Em minha aventura, optei por uma abordagem equilibrada, utilizando-me de armaduras resistentes e armas leves para causar dano de forma constante enquanto minimizava ao máximo o impacto de possíveis ataques. 

Ao lado da seção de equipamentos nos menus, fica a aba de missões de Tails of Iron. Aqui reside outro elemento interessante do jogo, já que você precisará constantemente estar realizando tarefas que visem a reconstrução do reino e, por conseguinte, a progressão da história.

A partir de certo ponto, também torna-se possível adquirir missões secundárias para obtenção de itens, como plantas especiais e dinheiro. Mas, como nem tudo são flores, aqui talvez tenhamos a única falha claramente notável da aventura de Redgi. Sem tocar no campo dos spoilers, com o tempo de jogo, é fácil notar o caráter repetitivo e unidirecional das sidequests, que muitas vezes se resumem a matar uma certa quantidade de inimigos em uma localidade específica. Embora suas recompensas sejam úteis, especialmente no início do jogo, por vezes a impressão que fica é de que esta foi uma parte que não recebeu o devido carinho e atenção no desenvolvimento, destoando do contexto geral. Uma pena, embora mesmo esse deslize não seja o suficiente para tirar o brilho dos méritos do pacote completo.

Fábula desenhada à mão

Sistema de combate à parte, de longe, o maior destaque de Tails of Iron é a direção de arte. Como pode ser visto pelas capturas de tela que adornam esta matéria, os belíssimos cenários e personagens com traços feitos à mão trazem um toque todo especial ao jogo, de modo que, ao se aventurar com Redgi, a impressão que fica é a de estarmos vivenciando uma fábula de fato.

Essa percepção é reforçada pela presença de Doug Cockle no papel de narrador do título. Cockle é conhecido por ser a voz estrangeira de Geralt de Rivia na saga The Witcher, e a sua participação aqui é outro ponto forte do jogo, que, paralelamente, em um grato aceno ao nosso país, conta com menus e legendas em português brasileiro. 

Como Redgi e os outros animais não falam, apenas emitem ruídos — que podem ser ligados ou desligados livremente —, a presença da voz rouca e poderosa do Geraldão norte-americano provê os elos em forma de narrativa aos feitos do pequeno ratinho, reforçando a ideia de estarmos jogando uma espécie de conto de fadas.

Ainda no que tange à parte técnica, devo tecer um elogio tanto à trilha sonora quanto ao design de som do título. Jogando em um sistema avantajado, com subwoofer e alto falantes dedicados, é fácil perceber o carinho e os cuidados dispensados à mixagem das trilhas individuais. É possível ouvir claramente passos, gotas de água caindo e até mesmo a degustação do suco de inseto — que serve como poção de vida —, o que ajuda na imersão como um todo.

E, por fim, é sempre bom relatar que não foram presenciados bugs e crashes de nenhuma espécie durante as sessões de gameplay para esta análise, o que evidencia uma experiência consistente também nesse quesito. Falando especificamente da versão de PC, o último patch adicionou a possibilidade de (re)mapear os controles no teclado, uma função que estranhamente não estava presente na versão do lançamento. Assim, a única menção negativa é a ausência de suporte a ultrawide para os detentores de um monitor com essa tecnologia.

Caudas de ferro

Como dito no início desta análise, Tails of Iron é uma das mais gratas surpresas deste ano. Embora a direção de arte seja o primeiro traço que salta aos olhos dos jogadores, praticamente todo elemento da obra do Odd Bug Studio exsuda qualidade, resultando em uma fácil recomendação aos apreciadores de sua proposta. Derrotar uma legião de sapos e reconstruir um reino brutalmente destruído pode não ser tão fácil, mas com certeza é muito divertido.

Prós

  • Direção de arte fenomenal;
  • Sistema de combate divertido;
  • Desafiador, mas sem exageros e absurdos;
  • Narração impecável de Doug Cockle acrescenta vida à narrativa;
  • Sound design destacado;
  • Suporte a português brasileiro (textos e menus).

Contras

  • Sidequests podem se tornar repetitivas;
  • Poderia contar com opção de narração em português.
Tails of Iron - PC/PS4/XBO/Switch - Nota: 9.5 
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Ives Boitano
Análise produzida com cópia digital cedida pela United Label

é bacharel em Produção Cultural pela UFF e estudante de Comunicação Social pela FSMA. Na infância, ganhou um Super Nintendo dos pais e, desde então, nunca mais deixou o mundo dos games. Ainda sonha em ser um Mestre Pokémon.


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