Blast Test

Impressões: Book of Travels (PC) oferece uma serena experiência online por um mundo pintado à aquarela

Uma atmosfera elaborada e momentos pontuais de cooperação são os destaques deste título indie.


Em Book of Travels, assumimos o controle de um andarilho e desbravamos um belíssimo mundo de fantasia. O título do estúdio indie sueco Might and Delight se autointitula um “Tiny Multiplayer Online RPG”, ou seja, uma experiência contrária à de massivos jogos online. A progressão no universo de Costa Trançada é livre e as atividades são bastante simples e relaxantes. Além disso, as partidas são pontuadas por eventuais interações entre poucos jogadores, que podem colaborar entre si. Recém-lançado em Acesso Antecipado, Book of Travels conquista com sua ambientação, mas ainda precisa amadurecer suas ideias e mecânicas.

Em uma peregrinação repleta de deslumbre

A terra de Costa Trançada é um local fantástico e belo que atrai andarilhos que buscam desvendar os seus mistérios. Na pele de um desses viajantes, atravessamos as várias regiões de Book of Travels em um RPG de progressão livre. Depois de criar um personagem ao escolher suas origens e afinidades, somos colocados em uma das áreas do mapa e a aventura começa. Nosso viajante é controlado completamente via mouse, no estilo apontar e clicar, e os menus têm atalhos no teclado.

Fora alguns poucos tutoriais, Book of Travels mal explica suas mecânicas, nos convidando a aprender os conceitos por conta própria. Na essência, o título se inspira nos RPGs de mesa e adiciona toques de sobrevivência, mas sempre de forma suave. O objetivo inicial é conseguir comida, mas logo aparecem NPCs e elementos dos cenários oferecendo missões e outras atividades. É importante ter papel e caneta por perto para fazer anotações, pois informações e a progressão das tarefas não são registradas internamente.


O nosso personagem adquire novas ações conforme desbravamos o mundo. Algumas opções são tradicionais, como pescar ou aprender a intrincada língua da região para ler placas. Há também inúmeras habilidades, muitas vezes associadas aos atributos do andarilho, como teletransporte, um feitiço para interagir com fantasmas ou até mesmo a capacidade de ler as emoções de outras pessoas.

A economia de Costa Trançada é toda baseada em troca de objetos, que têm valores diferentes de acordo com sua raridade. Sendo assim, para adquirir equipamentos de vendedores, precisamos oferecer itens de valor equivalente durante a negociação. O espaço disponível na mochila é bem limitado, o que torna importante o gerenciamento do inventário. Por sorte, casacos e outros itens de vestuário contam com bolsos para armazenamento de mais objetos.



Muitas surpresas pelo caminho

É possível pensar que Book of Travels é um RPG tradicional ao olhar as suas mecânicas, mas na prática o jogo oferece uma experiência singular. O foco está nas sensações proporcionadas pelo mundo relaxante e bucólico, o que justifica a simplicidade de muitos dos seus conceitos.

Na hora de começar minha aventura em Costa Trançada, criei um personagem com boas capacidades sociais (por ter vivido em uma cidade grande) e sensibilidade espiritual acima da média. Depois de uma viagem na companhia de uma caravana, me encontrei em uma grande campina. Colhi frutas de árvores próximas para me alimentar e me abriguei debaixo de árvores para evitar ficar encharcado durante uma chuva.


Sem objetivo certo, comecei a andar pela região e cheguei à vibrante cidade de Myr. Em conversas casuais, os habitantes me deram dicas de possíveis destinos: ruínas em uma floresta, uma tumba assombrada por fantasmas e uma região árida assolada por criaturas. Aproveitei para trocar meus poucos pertences por uma lanterna para afastar a escuridão durante a noite e continuei caminhando pelas regiões próximas.

Ao atravessar uma floresta, acabei encontrando por acaso outro andarilho (ou seja, um jogador humano). Usando desenhos como forma de comunicação, a outra pessoa me saudou e me convidou a acompanhá-la até um canto remoto. Chegando lá, descobrimos um altar que só podia ser ativado com quatro pontos de espiritualidade, algo que só é possível com a ajuda de outros jogadores. Juntos, liberamos os espíritos do objeto e recebemos alguns itens valiosos como recompensa.


Encontrar outros jogadores é uma das características mais bacanas de Book of Travels. Na maior parte do tempo estamos sozinhos, mas às vezes acabamos nos deparando com outras pessoas. Muitas atividades só podem ser completadas em grupo, o que incentiva a nos conectarmos uns aos outros. O sistema é orgânico e uma equipe é formada automaticamente quando pessoas passam a andar juntas, sendo perfeitamente possível ignorar os outros — inclusive, em muitos momentos encontrei outros viajantes que fingiram que eu não existia. Cada servidor do jogo comporta uma pequena quantidade de participantes, tornando os encontros pouco frequentes, mas bastante significativos.



Uma viagem de sensações

Andar a esmo e encontrar pontos de interação é o cerne de Book of Travels. Para mim, a sua melhor característica é a ambientação serena; afinal, na maior parte do tempo estamos absorvendo a beleza e a quietude dos cenários enquanto viajamos. A imersão vem do elaborado visual desenhado à mão, que lembra uma pintura impressionista com várias camadas, e da bela trilha sonora repleta de cordas e instrumentos exóticos.


Além disso, o mundo parece vivo com suas cidades repletas de NPCs e dos vários elementos misteriosos espalhados pelos cenários. O tempo do jogo reflete o da vida real, com ciclo de dia e noite (ou seja, depois das 18h já é noite em Costa Trançada) e eventos dependentes de horários, como balsas que partem a cada cinco minutos. Esses aspectos fazem com que cada partida seja uma incógnita.

Book of Travels é relaxante, mas existe também tensão. Perigos aparecem conforme nos afastamos dos centros urbanos e você pode acabar sendo roubado por ladrões ou atacado por monstros. Há um sistema de combate focado em observação, porém os embates podem perfeitamente ser evitados. Caso você queira, é possível comprar espadas e armaduras para batalhar com frequência, mas a simplicidade das batalhas deixa claro que os conflitos não são o foco.



Boas ideias que ainda precisam ser desenvolvidas

A liberdade e a suavidade da ambientação são os pontos notáveis de Book of Travels, mas o jogo também apresenta vários problemas relevantes. Alguns deles, inclusive, são capazes de comprometer totalmente a experiência.

É clara a intenção de deixar que os jogadores descubram sozinhos as mecânicas e os mistérios do título, porém a quantidade mínima de explicações e as orientações extremamente sutis acabam sendo problemáticas. Por causa disso, é muito comum acabar andando por Costa Trançada sem ter a mínima ideia do próximo passo ou até mesmo do que pode ser feito. Muitas habilidades têm detalhamento e uso críptico, o que torna difícil escolher com sabedoria o que devemos aprender ou não. Dar mais informações não faria mal algum.


Outra questão é a simplicidade geral do conteúdo. As pouquíssimas missões são bastante básicas e se resumem a encontrar itens ou ir a lugares conversar com pessoas. Não só isso: as recompensas (quando existem) costumam ser irrisórias. Os vastos cenários costumam ser vazios e sem interações significativas. Por fim, se juntar a outros jogadores para resolver situações é interessante, mas muitas das recompensas são itens decepcionantes.

É forte a sensação de que Book of Travels está em um estado bastante inicial. Recursos da interface, como aumentar o tamanho do texto, e até mesmo mecânicas como a influência de traços de personalidade dos viajantes ainda não foram implementados. O conteúdo é reduzido e boa parte do meu tempo no jogo se resumiu a andar pelos cenários, às vezes coletando um ou outro item — logo o encanto se esvaiu e se transformou em tédio. Claro, a intenção do jogo é oferecer um mundo relaxante; porém, do jeito que está, é necessário relevar muitos detalhes para aproveitar completamente a experiência.


Além das questões de conteúdo em si, o título sofre com muitos muitos bugs e problemas de conexão. Provavelmente boa parte dessas questões devem ser resolvidas no decorrer do desenvolvimento, que tem previsão de durar por volta de dois anos. A desenvolvedora Might and Delight está de olho nas sugestões dos jogadores, que participam ativamente de discussões no Discord e nos fóruns do Steam. Torço para que mudanças significativas sejam implementadas, afinal a ideia-base é ótima.

Uma história promissora

Book of Travels diminui a escala de RPGs online para criar uma experiência calma e intimista. Um mundo intrincado e de progressão aberta nos convida a criar nossa própria jornada, e as eventuais interações com outros jogadores trazem momentos significativos. Além disso, o visual belíssimo e a música exótica trazem bastante imersão.

Mesmo com qualidades, o jogo sofre com a grande simplicidade de seu conteúdo e a superficialidade das mecânicas. Isso é justificável, já que o desenvolvimento está em estágio inicial e deve durar por volta de dois anos, o que é suficiente para amadurecer suas ideias. No fim, Book of Travels cativa e tem muito potencial — só nos resta esperar para ver como ele vai evoluir no decorrer do tempo.


Revisão: Davi Sousa
Texto de impressões produzido com cópia digital cedida pela Might and Delight

é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.


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