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Análise: Inscryption (PC) combina gêneros em uma assustadora aventura pela sobrevivência

Lute pela sua vida em uma aterrorizante disputa de cartas.


Inscryption
é uma curiosa combinação dos gêneros de deckbuilder, escape room e roguelike. No entanto, ele tem um adicional muito interessante: o terror psicológico. Neste jogo, devemos conquistar nossa liberdade em uma intensa e misteriosa disputa de cartas e somos guiados em nossa aventura no melhor estilo RPG de mesa, com interações visuais e auditivas que criam um ambiente ameaçador e intrigante. Como resultado, temos um dos games mais impressionantes que tive o prazer de experimentar.

É hora do duelo

De modo inesperado, estamos sentados junto a uma mesa e à nossa frente apenas um par de olhos brilhantes nos encaram. Aparentemente, estamos presos em uma cabana com um estranho e pouco pode ser visto devido às limitadas entradas de luz no aposento. Sem entender o que está acontecendo, recebemos uma proposta aparentemente simples: nossa liberdade deve ser conquistada através de uma disputa em um jogo de cartas. Sem ter muita escolha, aceitamos.

Recebemos então um deck inicial com cartas que representam animais e outros seres da natureza. Nada muito estranho até o momento em que as cartas começam a conversar com você e explicam que existe um plano para libertar a todos. Aparentemente, você não é o primeiro a estar ali, e não será o último.



No ritmo de um RPG de mesa

Após a proposta de liberdade ser aceita, o estranho começa a explicar todas as regras de seu jogo. A princípio, somos apresentados a um mapa, semelhante a um jogo de tabuleiro, onde podemos movimentar nosso boneco por caminhos predeterminados com ícones ao longo do percurso.

Cada ícone presente no mapa representa um evento diferente que irá interferir na sua estratégia. Podemos receber cartas extras, melhorar atributos ou até fundir cartas iguais. Escolher o seu caminho pode e deve ser feito com calma, pois cada estratégia necessita de certos eventos para funcionar.




Alguns dos ícones representam os duelos que teremos com o indivíduo à nossa frente. As partidas funcionam em um esquema relativamente semelhante a Yu-Gi-Oh: infligir dano no oponente até acabar com sua vida. Assim como no anime, os duelos são realizados em turnos, nos quais, ao chegar a nossa vez, devemos levar nossas cartas ao combate.




Cada carta pode apresentar até quatro atributos: Vida, Ataque, Habilidade e Sacrifício. A Vida representa, obviamente, o tanto de dano que o animal pode receber, assim como o Ataque representa o dano que irá infligir. As habilidades, presentes em grande número, dão às cartas movimentos especiais que permitem voar, atacar mais vezes ou até se esconder do rival.

Porém, para colocar as cartas no tabuleiro, devemos respeitar o Sacrifício. Cada carta tem um valor de sacrifícios específicos para ser usada, representado por sangue ou ossos. O Esquilo, animal mais básico de todos, pode ser colocado diretamente em combate, sem sacrifício. O Lobo, no entanto, precisa de duas almas no tabuleiro como oferenda.

Para cada carta sacrificada ou eliminada pelo oponente, recebemos uma moeda de osso. Algumas cartas, em vez de pedir sangue, exigem uma quantidade de ossos para ser usadas. Saber adequar seu baralho a essas duas instâncias de invocação é essencial para o sucesso ao longo do gameplay.




O tabuleiro em Inscryption é composto por quatro espaços para você e oito para o seu rival, separados em linhas. Ao início de cada rodada, compramos uma carta e somos livres para jogar quantas quisermos, desde que sejam respeitadas as quantidades de sacrifícios. O seu oponente não possui essa limitação, mas as jogadas dele são expostas na linha anterior antes de serem feitas, permitindo que você elabore a melhor estratégia possível.




O que parece ser apenas um duelo de Yu-Gi-Oh simplificado é engrandecido com uma ambientação impecável. O estranho à sua frente guia a aventura pelo tabuleiro como um mestre de RPG de mesa. Todas as suas ações são narradas com inúmeros detalhes, assim como sua relação com o ambiente. Mesmo sem dublagem, os textos são incrivelmente bem localizados e funcionam muito bem na imersão.

Nas batalhas contra os chefes, essa imersão aumenta ainda mais. O  mestre passa a usar  máscaras e incorpora os personagens que enfrentamos, mudando até o jeito de falar. O cenário ao seu redor é alterado e a trilha sonora se torna rica em detalhes, tendo o efeito imediato de te intimidar.




Porém, é perceptível o quão desbalanceados são os duelos, seja para você ou para o mestre. Quando você desenvolve uma estratégia aparentemente perfeita, seu oponente faz questão de ter um contra-ataque perfeito para isso e lhe derrota em apenas uma jogada, assim como é possível derrotar o chefe em apenas duas rodadas, da maneira mais simples possível. Os elementos aleatórios, como as habilidades e eventos no mapa, permitem que esse desequilíbrio ocorra, levando a disputas sem graça ou até injustas.

Na tentativa de escapar

Cada evento dentro das partidas em Inscryption é importante para aumentar a sensação de medo e impotência. Muitos diálogos e itens se relacionam com rituais de sacrifício, assim como o mestre em si. Nunca sabemos quando estamos em real perigo e o que acontecerá a seguir, e cada pequeno detalhe dos itens e cartas ajuda a entrar naquele mundo.




A imersão fica mais evidente quando estamos livres para começar as partes de escape room. Após determinado momento, estamos livres para andar pela cabana, desde que não estejamos em um duelo de cartas. Nessa hora, percebemos a importância do anfitrião durante o jogo, pois a ambientação muda completamente. Passamos de um trecho com rituais satânicos para uma cabana tranquila ao som de pássaros, e a mudança de ritmo deixa tudo mais curioso, porém não menos assustador.

A cabana pode ser explorada livremente e possui diversos objetos para interação. Tais elementos podem ser cofres, relógios, quadros ou esculturas, e todos possuem um quebra-cabeça a ser resolvido. As pistas para resolução são liberadas aos poucos e resolvê-las é necessário para desbloquear melhorias em seu baralho.




No entanto, esses exercícios são simples de ser solucionados, além de serem poucos. A sensação que fica é que as seções de escape room estão ali apenas para complementar os duelos. Não que isso seja necessariamente um demérito, mas puzzles mais bem-elaborados seriam boas companhias às complexas disputas de cartas.

Não acaba quando termina

O grande mistério de Inscryption é entender o que está acontecendo. Não há uma explicação lógica para os acontecimentos e tudo o que podemos fazer por um tempo é especular. A curiosidade é intensificada quando interagimos com as cartas, especificamente as do nosso baralho-base. Elas conversam conosco, ajudando a resolver quebra-cabeças ou nos incentivando a continuar para podermos executar um “plano de fuga" juntos.




Os diálogos com os animais são constantes e diversas referências a outros jogadores são feitas. Vale ressaltar que, em caso de fracasso nas partidas, o misterioso homem à sua frente o levará a um quarto e o transformará em uma carta personalizável utilizando uma câmera fotográfica especial. Essa carta passa a fazer parte do baralho do jogador seguinte, que deve percorrer todo o tabuleiro desde o início.

Ao jogar, imagina-se que o real desafio seja derrotar o mestre e conquistar sua liberdade. A batalha final é intensa e desafiadora, além de mudar um pouco a dinâmica do duelo. No entanto, o game passa a escalar de uma maneira incrível, tendo um pós-jogo inacreditável, de certa forma. Não irei comentar nenhum detalhe específico sobre isso por conta de spoilers, mas a maneira como Inscryption eleva seu nível de imersão é maravilhosa, permitindo inclusive que tenha um fator replay considerável.



Uma surpresa atrás da outra

Inscryption vai muito além do que aparenta inicialmente. A inusitada combinação de deckbuilder, roguelike e escape room se torna uma das experiências mais interessantes que já tive. Apesar das disputas desbalanceadas, a temática ritualística e a ambientação intimidadora são extremamente competentes, nos levando a ter medo de explorar e prosseguir. O pós-jogo é de explodir cabeças, quebrando totalmente as expectativas e elevando ainda mais o patamar do game. 

Em caso de dúvida, há uma versão de demonstração disponível no Steam. Recomendo inclusive jogarem à noite e com fone de ouvido para aproveitar o que de melhor o jogo tem a oferecer.

Prós

  • A ambientação é impecável, sendo a maior qualidade do jogo;
  • O mapa aleatório e a enorme quantidade de habilidades o torna menos repetitivo;
  • O pós-jogo é inacreditável, trazendo reviravoltas incríveis e desenvolvendo muito bem a história;
  • Há uma grande variedade de cartas disponíveis, permitindo desenvolver inúmeras estratégias;
  • O jogo é guiado ao estilo de um RPG de mesa, o que ajuda na imersão e traz boas surpresas às partidas.

Contras

  • As disputas de cartas são desbalanceadas;
  • Os quebra-cabeças são poucos e simples de resolver.
Inscryption — PC — Nota: 9.0
Revisão: Davi Sousa
Análise produzida com cópia digital cedida pela Devolver Digital


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