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Análise: Aeon Must Die! (Multi) traz lutas criativas e estilosas, mas peca com sua execução desajeitada

Várias mecânicas únicas e ambientação ímpar chamam a atenção nesse título, porém seu potencial é comprometido por inúmeros problemas.


Aeon Must Die! é um misto de luta com beat ‘em up repleto de ideias únicas e com visual impactante. No jogo, controlamos um guerreiro que se vê forçado a enfrentar inimigos implacáveis depois que seu corpo foi possuído por um imperador vingativo. O grande destaque é o combate, que usa uma curiosa mecânica de alteração de temperatura corporal no lugar da vida tradicional, além de apresentar elementos estratégicos. Infelizmente o título tem inúmeros problemas de execução em praticamente todas as suas áreas, o que torna a experiência desagradável e esquecível.

Um corpo, duas consciências e uma jornada complicada

Aeon, o imperador da organização interestelar Armada do Vazio, foi traído por Ivory, sua general mais estimada. À beira da morte, o guerreiro invade e possui um Asternato, membro de uma das várias raças guerreiras da galáxia. No entanto, algo dá errado e Aeon não consegue tomar completamente seu hospedeiro, resultando em duas consciências em um único corpo. Presos nessa situação, os dois são forçados a colaborar entre si para alcançar seus objetivos.


Em sua busca por vingança, Aeon enfrenta inúmeros oponentes em lutas que se desenrolam em uma única tela. O guerreiro tem vários movimentos à disposição, como socos, chutes, agarrões, movimentos de aparar e esquivas, que podem ser combinados em sequências elaboradas. Os embates são de um contra um e enfrentamos vários inimigos em série em cada etapa. Adversários que estão na borda da arena fazem o máximo para atrapalhar lançando projéteis ou fortalecendo seus aliados.

No lugar de uma barra de vida, o jogo conta com uma mecânica única de temperatura. Desferir socos e chutes esquentam o protagonista; já executar técnicas flamejantes esfriam seu corpo. Golpes dos inimigos também alteram o estado do herói. Caso a temperatura alcance um dos extremos, Aeon entra em um estado vulnerável e é derrotado caso seja acertado pelo mesmo tipo de dano. Sendo assim, precisamos constantemente balancear os tipos de ataque para manter a temperatura em níveis seguros.


O conceito de derrota de Aeon Must Die! é bem singular e explora o conflito de caráter dos dois personagens. Começamos a jornada com nove pontos de Propósito, que representam a capacidade do Asternato se opor aos desejos de Aeon. Quando somos derrotados em combate, o inimigo que desferiu o golpe fatal rouba um desses pontos, e podemos desafiá-lo para recuperar a essência. Se o adversário vencer esse embate, ele toma para si mais Propósito e ganha novas habilidades, complicando a tarefa.

Caso todo o propósito do Asternato seja roubado, sua força de vontade se esgota e Aeon assume completamente o controle de seu corpo. Quando isso acontece, todas as habilidades são automaticamente desbloqueadas e não há penalidade ao ser derrotado. No entanto, não é mais possível fazer missões paralelas nem fazer escolhas em momentos importantes da história que influenciam o final — o foco passa a ser unicamente a vingança do imperador.



No frenesi flamejante de lutas intensas

Aeon Must Die! me agradou com seu sistema de combate que parece ser uma mistura de jogo de luta com beat ‘em up. O protagonista tem boa variedade de movimentos e aprende habilidades que permitem montar novas táticas com frequência. Já a mecânica de calor traz uma dinâmica única aos embates, afinal precisamos alternar com cuidado os tipos de ataques para não ficarmos vulneráveis.

Inimigos desafiadores trazem complexidade aos embates. Muitos dos oponentes contam com ações que exigem reações específicas, como ataques que não podem ser aparados ou golpes capazes de alterar fortemente a temperatura do herói, forçando-nos a prestar atenção. Além disso, a dificuldade é crescente: os oponentes se adaptam constantemente e aprendem a escapar de sequências parecidas de ataques, o que nos força a mudar de estratégia com frequência.


Uma ambientação extravagante inspirada em quadrinhos traz identidade ao jogo. Os personagens têm um visual geométrico interessante que esbanja personalidade, e seus movimentos em combate são elaborados e muito apelativos. Já as cenas são impactantes por apresentarem contraste entre trechos escuros e elementos com cores neon vibrantes. Por fim, uma trilha sonora synthwave com batidas agitadas reforça a atmosfera futurista do universo. O resultado é um título muito bonito e estiloso.

Corrompido por inúmeros aborrecimentos

Em seus primeiros capítulos, Aeon Must Die! envolve bastante, mas rapidamente os vários problemas e decisões duvidosas esfriam a empolgação. Quando dei por mim, já estava odiando o jogo, mesmo com suas ideias criativas.

Para começar, o ritmo da aventura é sofrível. As lutas são rápidas, mas entre elas temos inúmeros diálogos e telas de carregamento. O problema é que essas cenas são banais e desnecessariamente enroladas, basicamente se resumindo a Aeon gritando que é poderoso e que vai destruir todos os seus oponentes. Seria muito melhor se os estágios fossem mais diretos e sem essa quantidade exagerada de cenas. Além disso, a história é extremamente superficial e os personagens são desinteressantes. Até há uma tentativa de sensibilizar o jogador para que ajude Asternato a não sucumbir ao imperador, mas é tudo tão chato que chegou um momento em que eu parei de me importar.


O combate, que é divertido em um primeiro momento, logo se torna enfadonho. A variedade de inimigos é reduzida, bastando utilizar as mesmas estratégias para vencer. Há habilidades desbloqueáveis que supostamente expandem as opções, mas na prática foi suficiente utilizar somente os ataques básicos iniciais. Com o tempo também fica difícil não se incomodar com a colisão estranha dos golpes e com os comandos que parecem imprecisos — muitas técnicas especiais, inclusive, eu não consegui executar com facilidade. Por causa disso, as lutas ficam repetitivas muito rápido.

O balanceamento da dificuldade também é sofrível. Conforme avançamos na aventura, os inimigos se fortalecem ao “aprender” nosso estilo de luta. É um conceito interessante, mas a execução é problemática: logo começam a aparecer oponentes que não podem ser interrompidos, que ignoram as mecânicas do jogo ou que são capazes de derrotar o herói com dois golpes com extrema facilidade. Para piorar, muitas das arenas têm uma barreira, o que diminui bastante o espaço para se mover. Essas questões, quando somadas aos comandos imprecisos, resultam em situações injustas e nada pautadas em habilidade.


Por fim, temos a mecânica de Propósito. De fato ela traz tensão às partidas, afinal basta um deslize para perder esses pontos. O problema aparece quando tentamos recuperá-los. Esses combates são um pouco mais difíceis, pois o inimigo que roubou o Propósito ganha uma habilidade especial. Acontece que é fácil ser derrotado pelo mesmo oponente, o que pode criar um efeito cascata com fracassos em sequência. Isso aconteceu comigo: o adversário ficou extremamente poderoso, tornando praticamente impossível derrotá-lo para recuperar meu Propósito. A ideia é interessante, mas a implementação carece de balanceamento.



Criativo, porém extremamente problemático

Aeon Must Die! oferece uma interpretação singular de beat ‘em ups, mas a fraca execução de seus conceitos prejudica o jogo como um todo. O combate e seu sistema de temperatura é criativo, e certos embates contam com aspectos estratégicos interessantes. Além disso, a atmosfera fascina com ótimos visuais com cores neon e trilha sonora synthwave.

Infelizmente, essas são as únicas qualidades notáveis do título. A lista de problemas é grande: o ritmo é quebrado constantemente por inúmeras conversas irrelevantes, a história não empolga, as batalhas logo se revelam repetitivas e rasas, e muitas mecânicas carecem de balanceamento. Aqueles mais dedicados até podem aproveitar alguma coisa, mas, no fim, Aeon Must Die! é uma experiência decepcionante.

Prós

  • Sistema de combate único e com toques estratégicos;
  • Atmosfera bem construída com visual estiloso e boa trilha sonora.

Contras

  • Ritmo de jogo irregular com estágios curtos e muitas cenas não interativas;
  • Combate repetitivo e limitado;
  • Dificuldade desbalanceada e injusta;
  • História e diálogos desinteressantes;
  • Muitas mecânicas e conceitos mal desenvolvidos.
Aeon Must Die! — Switch/PC/PS4/XBO — Nota: 5.5
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Ives Boitano
Análise produzida com cópia digital cedida pela Focus Home Interactive

é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.


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