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Análise: King's Bounty 2 (Multi) prova a dificuldade de se manter a majestade

Sequência do clássico jogo da década de 1990 oferece bons momentos de estratégia, mas acaba pecando em diversos outros aspectos.

Se você é um entusiasta de jogos de estratégia para PC, são relativamente grandes as chances de já ter ouvido falar da franquia King’s Bounty. Nascida em 1990 com o jogo homônimo desenvolvido pela lendária New World Computing, a IP acabou ficando conhecida historicamente como a predecessora da bem-sucedida série de jogos Heroes of Might and Magic. Esta última, após uma série de negociações nos anos 2000, se tornou propriedade da Ubisoft, enquanto King’s Bounty ficou sob a tutela da 1C Entertainment.


Portanto, eis que, mais de 30 anos e diversas gerações de hardware depois, temos a primeira sequência direta do clássico título, desenvolvida para PC e consoles. Mas será que King’s Bounty 2 consegue fazer jus às suas vestes reais e se provar uma aventura digna dos tempos atuais? Confira conosco a seguir em nossa análise.

O retorno do rei

Em King’s Bounty 2, controlamos um de três heróis distintos: Aivar, Katharine e Elisa. Cada um dos protagonistas possui suas particularidades — Katharine é uma maga, portanto inclinada ao uso de feitiços, enquanto Aivar é um guerreiro especialista em combate físico, por exemplo —, mas a história central do jogo é a mesma para os três: após um perdão do Rei, você é liberto da prisão na qual se encontra e, aos poucos, se envolve em uma grande aventura para impedir um apocalipse mágico.

Logo nas primeiras horas de jogo, fica claro que King’s Bounty 2 é um jogo de duas metades distintas e interconectadas. De um lado, temos um RPG em terceira pessoa de mundo semi-aberto, aos moldes de The Witcher 3: Wild Hunt (Multi) e The Elder Scrolls V: Skyrim (Multi); do outro, um título de estratégia que bebe da fonte da tradição de sua franquia, com grids hexagonais e sistema de combate por turnos.

Essa decisão de unir dois estilos distintos em um só jogo é uma escolha criativa arriscada que, infelizmente, se prova equivocada nesse contexto, nunca gerando os frutos que dela se esperam. Basicamente, em 50% do jogo você estará explorando cenários e conduzindo diálogos em terceira pessoa, e nos outros 50% estará batalhando com inimigos seguindo um estilo já visto de outras formas. Sendo honesto, há problemas mais ou menos perceptíveis em ambas as metades, que fazem com que a impressão final do jogo seja a de uma obra que, por diversos motivos, tentou alcançar mais do que conseguia (e falhou no processo).

O andar da carruagem

Comecemos então pela parte de terceira pessoa, que será o primeiro contato dos jogadores com este mundo virtual: você é livre para explorar o mundo de Nostria tão logo sai da prisão, mas a movimentação travada do personagem e paredes invisíveis já denunciam que a caminhada, infelizmente, não será tão prazerosa como os belos visuais desenhados na Unreal Engine 4 fazem parecer.

Em minha aventura, optei por começar com Aivar, que me pareceu uma escolha sensata para alguém que curte o combate físico. Ao explorar os arredores de Fort Crucis, a primeira vila do jogo, já me deparei com os primeiros problemas, como um desengonço notável do guerreiro ao se movimentar. De início, confesso que achei que esse era um problema específico do personagem dado o seu tamanho, mas um olhar mais atento revelou que, na verdade, esse é um problema que afeta todas as animações, incluindo as dos NPCs, que na maior parte do tempo ficaram “paradões”, esperando por uma interação.

Tudo bem, penso eu. A movimentação em si não é algo que define ou não um RPG, e eu poderia simplesmente correr para chegar mais rápido aos locais que precisaria para resolver a minha vida entre os combates, correto? Bizarramente, este não é o caso aqui. Aivar, ou qualquer um dos outros dois personagens, é impossibilitado de correr, e a tecla Shift, normalmente usada para este recurso, serve para andar mais devagar que o padrão — uma escolha de design no mínimo duvidosa, posto a vagarosa velocidade normal do protagonista. 

Uma solução lógica para esse impasse seria usar o cavalo que é obtido logo cedo para se locomover mais rápido, mas dado o tamanho da montaria, não é difícil ficar “preso” em alguns locais mais apertados — lembra das paredes invisíveis? Para piorar a situação, também não é possível conversar com alguém ou realizar ações, como compra e venda de itens, enquanto se está montado no bicho.

Assim, a simples tarefa de se movimentar e conduzir transações já se torna algo incômodo em King’s Bounty 2, e a impressão que fica é que, desconsiderando os gráficos, estamos jogando, em 2021, um título do início da geração PS3/360. Há a promessa de um patch de correção para a movimentação, mas como até o momento da análise ele não está disponível, não é possível ainda levá-lo em consideração.

Outro problema grave que alimenta essa percepção é a falta de carisma do elenco como um todo. Sendo bem sucinto, não há nada aqui que já não tenha sido visto em outros lugares de modo mais complexo. Um exemplo claro são os conflitos, nos quais o jogador precisa tomar um lado: enquanto em outros jogos esses acontecimentos servem para dar movimento à narrativa, aqui parece que eles existem por existir. 

Em um dos primeiros confrontos, você provavelmente não saberá que lado defender, por exemplo. Isso porque ambos os lados são desinteressantes e não explicam bem suas motivações ao longo da história. Considerando que tais escolhas afetam tanto seu “ideal” quanto os rumos da narrativa a partir de certo ponto do jogo, aqui há um fator bem prejudicial no que tange à imersão. 

Confrontos em turnos

A segunda “metade” de King’s Bounty 2 envolve os confrontos de fato. Aqui é onde o jogo consegue se mostrar verdadeiramente interessante, pois de nada adianta um exército poderoso sem um mínimo de estratégia por trás.

Nosso personagem não entra em batalha diretamente, funcionando como um comandante das unidades adquiridas enquanto se está no modo em terceira pessoa. Você pode controlar uma equipe de até cinco tropas, e estas podem ser bem diversas, agrupando desde lobos e guerreiros até bestas mágicas. Normalmente, o melhor a se fazer é recrutar tropas que estejam aliadas ao seu ideal predominante (Ordem, Anarquia, Poder e Sutileza), que é delineado de acordo com suas escolhas na história. 

A movimentação se dá entre turnos ao longo dos espaços hexagonais distribuídos no campo, e cabe mencionar que unidades mortas em combate não serão repostas — há a chamada permadeath —, fazendo com que cada ação deva ser pensada com cautela, já que recursos como ouro (utilizado para adquirir unidades) não são infinitos nem achados tão facilmente. Sendo sincero, essa foi a parte de King’s Bounty 2 que mais me chamou a atenção, e não creio que seja à toa. Aqui é onde o título realmente se parece de fato com uma sequência, expandindo ideias apresentadas no passado para entregar uma experiência sólida dentro de seu gênero.

Ainda assim, não é algo perfeito: há saltos de dificuldade consideráveis aqui e ali, de modo que o jogador praticamente se verá obrigado a realizar atividades secundárias para poder angariar experiência e fundos e prosseguir de modo mais tranquilo. Alguns fãs do gênero se sentirão em casa com essa necessidade, mas, novamente, essa não é uma característica tão apreciada em 2021, contribuindo para que o jogo novamente pareça mais velho do que realmente é.


Beleza secular

Logicamente, nem tudo são problemas, e na questão da apresentação King’s Bounty 2 consegue cumprir seu papel. Embora lá pela décima hora de jogo já seja possível notar uma certa repetição temática, os cenários são bem construídos (desconsiderando as já citadas barreiras invisíveis), e, no que tange à otimização, não tive problemas para vivenciar o título em suas configurações mais altas no PC.

A trilha sonora também consegue trazer a ambientação necessária aos diversos momentos do jogo. Juntamente com o sound design, este é um dos pontos fortes do jogo, então recomendo que reserve um bom sistema de som ou um fone de ouvido apropriado para curtir a experiência.

Porém, infelizmente, é preciso mencionar que atualmente não há suporte a português brasileiro no jogo, nem na forma de dublagem e nem com legendas. Como há diversos recursos e nuances dentro do jogo, de itens à árvores de talentos, sem mencionar as particularidades de combate, torna-se necessário ter um certo domínio de alguma língua estrangeira para desfrutar completamente de King’s Bounty 2. Fica o registro, então, para que a desenvolvedora considere um patch com suporte para nossa língua.

A luta pelo trono

King’s Bounty 2 mostra que, às vezes, menos é mais. Ao tentar oferecer duas experiências distintas em um mesmo pacote, esta sequência acaba por, infelizmente, não conseguir realizar o potencial completo de nenhuma das duas partes. Mesmo com os problemas, seu sistema de combate ainda se mostra interessante, de modo que fãs do gênero ainda encontrarão divertimento aqui. Mas, pelo bem e pelo mal, fica registrado o aviso de que a majestade não pode se sustentar somente nos feitos do passado.

Prós

  • Muito conteúdo, capaz de render mais de 25 horas de jogo;
  • Diversas unidades para recrutar;
  • Trilha sonora e gráficos convincentes;
  • Sistema de combate divertido.

Contras

  • Elenco em sua maioria sem carisma;
  • Movimentação travada e obtusa;
  • Impossibilidade de criar o próprio personagem;
  • Conflitos desinteressantes;
  • Falta de suporte a português brasileiro.
King's Bounty 2 — PC/PS4/Switch/XBO — Nota: 6.5 
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Thais Santos
Análise produzida com cópia digital cedida pela Koch Media

é bacharel em Produção Cultural pela UFF e estudante de Comunicação Social pela FSMA. Na infância, ganhou um Super Nintendo dos pais e, desde então, nunca mais deixou o mundo dos games. Ainda sonha em ser um Mestre Pokémon.


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