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Análise: Gamedec (PC) traz investigação de qualidade em um mundo cyberpunk

Título traz uma aventura que se molda às escolhas do jogador, provendo uma experiência coerente e divertida aos fãs de jogos investigativos.

Pouco mais de um ano após uma bem-sucedida campanha no Kickstarter, finalmente podemos colocar nossas mãos em Gamedec. O jogo desenvolvido pelo Anshar Studios com base nas obras de ficção do autor polonês Marcin Przybyłek prometeu uma narrativa que reagisse continuamente às escolhas do jogador, configurando uma aventura complexa em um mundo cyberpunk. Mas será que o produto final correspondeu às expectativas criadas? Confira conosco em nossa análise a seguir.

Detetive virtual

Fazendo jus à temática cyberpunk, Gamedec se passa no final do século XXII em um mundo distópico, no qual artefatos como drones e andróides já são parte da rotina comum. O domínio de tecnologias antigravitacionais significa que a maior parte das habitações se localizam em torres flutuantes, e todo e qualquer transporte é realizado pelo ar. Já é possível que um ser humano milionário se torne imortal e iniciativas de criação de seres vivos têm sido conduzidas por empresas interessadas no tema.

Neste contexto, uma forma de escapismo tornou-se extremamente comum: trata-se de Virtualia, um termo que abrange as centenas de milhares de jogos eletrônicos disponíveis e o seu público, composto por bilhões de jogadores. Com a popularização e os avanços da tecnologia, é comum que muitas pessoas vivam online, representadas por seus avatares em mundos virtuais completamente imersivos.

Como problemas modernos requerem soluções modernas, logo ao iniciar o título, o jogador já será apresentado à sua profissão, que também dá nome ao jogo. Como um Gamedec — acrônimo para Game Detective —, você é um detetive freelancer capaz de navegar livremente por esses mundos virtuais, resolvendo os mais diversos problemas mediante a contratação de seus serviços. 

Porém, nem sempre as coisas fluem como o esperado em Virtualia, chegando ao ponto de comprometer a integridade física dos jogadores ou de revelar esquemas sórdidos da vida real. Com muito trabalho pela frente, é hora de começar nossa aventura por este universo!

Diversas realidades

Na prática, Gamedec é um RPG investigativo com algumas peculiaridades. Ao iniciar o jogo e personalizar seu personagem, você deverá escolher seus valores, stats divididos em quatro áreas que acabam por influenciar que profissões você pode adquirir uma vez in-game. Como aqui não há qualquer tipo de sistema de combate, tanto a progressão quanto os eventuais conflitos são concluídos por meio das opções de diálogo que o jogo lhe dá.

Logo cedo, já é possível perceber que essa escolha criativa dos desenvolvedores é bem interessante. A boa notícia é que ela funciona, principalmente porque há uma liberdade considerável uma vez dentro de um diálogo.

Em seu primeiro caso, que é fixo, você deverá descobrir o que aconteceu com o filho de um empresário que está preso em um mundo virtual. A partir daí, a maneira como as coisas se desenrolam está nas suas mãos: você tenta colher informações na base da intimidação ou prefere se passar por amigo de seus investigados? Do mesmo modo, ao se deparar com uma pessoa completamente imersa em Virtualia, você tenta despertá-la gentilmente ou puxar o capacete de conexão com todos os riscos envolvidos parece ser mais viável?

Ambas as opções acima, como tantas outras disponíveis, são válidas. Em Gamedec,  não é possível falhar ou receber um game over e seu detetive sempre seguirá em frente, sendo que suas escolhas moldam os acontecimentos futuros.

Você ajudou alguém em uma situação difícil? Talvez essa pessoa retorne o favor posteriormente. Você optou por contar de sua investigação a alguém? Talvez tal pessoa retribua o voto de confiança, fornecendo uma informação privilegiada em um momento crucial.

Esse é um sistema que vai se revelando mais interessante conforme se joga, e de longe o grande pulo do gato — créditos aos desenvolvedores — é que não temos aqui uma narrativa “preto no branco”, dividida entre mocinhos e bandidos. A maioria dos personagens que você encontrará durante sua jornada tem mais de uma camada, exigindo que você mantenha seus instintos investigativos em dia para obter os resultados desejados.

Elementar, meu caro

Como um Gamedec, seus afazeres são conduzidos em diversos ambientes de Virtualia, como os dos jogos Harvest Time e Twisted & Perverted. Essa possibilidade de trafegar entre universos virtuais distintos — de uma fazenda a um MMO, por exemplo — acarreta uma constante variação temática no jogo, que ajuda a combater a sensação de mesmice que muitas vezes acomete o gênero investigativo.

Uma vez dentro de um ambiente e de posse de seu objetivo principal, você deverá começar sua investigação, que passa por explorar o cenário e conversar com outros personagens em busca de pistas que lhe permitam solucionar um problema. Aqui é onde novamente a multiplicidade de opções de diálogo entra em jogo: dependendo das escolhas que fizer, você obterá ou não certas informações, sendo que todos os dados colhidos por você podem ser consultados posteriormente se necessário.

Escolhas feitas também lhe concedem traços de personalidade, que enfatizando o lado RPG do título, podem ser usados para adquirir novas profissões. Aqui há outro aspecto bem realizado pelos desenvolvedores, pois se o jogador detém uma profissão, novas opções de diálogo se tornam disponíveis. Afinal, um programador pode realizar coisas que um cirurgião não conseguiria, e vice-versa.

Investigações são conduzidas em etapas e, uma vez que você acredite ter reunido dados suficientes para tirar uma conclusão, basta fazê-lo por meio do menu Deduction para dar prosseguimento à história. Como dito anteriormente, não há um caminho errado a seguir, mas saiba que suas escolhas (e o resultado delas) são irreversíveis. 

Como teste, optei por carregar alguns de meus saves e fazer escolhas diferentes. Sem entrar no mérito dos spoilers, fiquei positivamente surpreso com o resultado das minhas escolhas. Nesse ponto, digo feliz que Gamedec cumpre o que se espera dele, de modo que jogadores que apreciem a liberdade de escolha e ação se sentirão em casa.

Enciclopédia fictícia

Porém, nem tudo é um mar de rosas e Gamedec acaba falhando em alguns outros pontos significativos que impedem uma recomendação mais ampla. De longe, talvez o fator mais considerável para nós, brasileiros, seja a ausência de suporte ao nosso idioma. Como o foco do título é a narrativa, a verdade é que você precisará dominar uma outra língua se quiser usufruir de tudo que o jogo tem a oferecer. Fica então registrada aqui a esperança de que um patch futuro possa corrigir esse aspecto.

Outro ponto que, a meu ver, também merecia um pouco mais de atenção são os menus do jogo. Embora existam apenas três abas principais — Deduction, Codex e Professions, respectivamente —, praticamente qualquer ação realizada adicionará uma nova informação para ser acessada nas duas primeiras seções. Assim, a tendência é que com pouco tempo de jogo o menu se pareça com a tela de um smartphone cheio de aplicativos, com tantas exclamações e notificações diferentes, que é difícil saber por onde começar uma eventual leitura.

Confesso, sou do tipo de jogador que adora quando um jogo traz definições e extras como complementos para explicar seu universo. Em Gamedec, a verdade é que por vezes me senti perdido em um mar de informações diferentes e nem sempre conectadas claramente. A abundância de termos próprios deste universo (como Zoenets, Diginets e Infolia, só para citar alguns) também se provou confusa, tornando o ato de consultar o Codex basicamente uma necessidade durante as sessões de jogo.

Assim, embora divertido, a impressão que fica é que Gamedec, às vezes, é desnecessariamente complexo. Entendo que os desenvolvedores tenham optado por disponibilizar tanta informação quanto possível dentro do jogo, mas temo que essa escolha criativa, juntamente com as constantes notificações no menu, termine por intimidar o público que não possui tanta paciência para estabelecer conexões entre elementos aparentemente distintos, algo que o trabalho de um detetive exige.

Isso é realmente uma pena, porque, como dito anteriormente, aqui reside uma narrativa que valoriza o tempo e as opções do jogador. Com árvores de diálogo bem ramificadas, é fácil perceber o impacto de suas escolhas no decorrer da aventura, inclusive aumentando o eventual fator replay após a conclusão do título, já que a campanha dura aproximadamente 12h para ser fechada.

Por fim, no que tange aos aspectos técnicos, infelizmente Gamedec me decepcionou um pouco. Mesmo com meu hardware pessoal estando acima das especificações ditas como recomendadas pelos desenvolvedores, sinto relatar que presenciei por mais de uma vez quedas repentinas e significativas na taxa de quadros, denotando a necessidade de uma otimização melhor. Além disso, também notei um ou outro bug durante as sessões de análise, como o breve desaparecimento de minha personagem ao adentrar o cemitério no segundo mundo virtual.

Lógico, esses não foram grandes problemas a ponto de me impedir de aproveitar o jogo, mas eu estaria mentindo se dissesse que eles não quebraram um pouco a mágica da imersão. Novamente, é uma pena, e fica aqui registrada a esperança que, assim como no caso do suporte à nossa língua pátria, recebamos em breve um patch de adição/correção desses deslizes.

A hora da sentença

Embora possua falhas em sua execução, no fim das contas Gamedec é um título recomendável. A abundância de informações disponíveis ao jogador por vezes pode incomodar, mas é inegável que resolver casos e solucionar mistérios aqui é divertido. Fãs de jogos com ênfase na narrativa e liberdade de escolha se sentirão em casa, e entusiastas da temática cyberpunk também encontrarão entretenimento — basta que as expectativas sejam adequadamente dosadas.

Prós

  • Narrativa interessante, reagente às escolhas do jogador;
  • Mecânica dos diferentes mundos virtuais fornece variedade ao título;
  • Multiplicidade de opções de diálogo é incentivo para jogar novamente;
  • Temática cyberpunk é bem representada.

Contras

  • Quantidade de informações no Codex pode assustar;
  • Menus pouco intuitivos;
  • Sem dublagem;
  • Sem suporte a português brasileiro;
  • Ocasionais problemas de performance.
Gamedec — PC — Nota: 7.5 
Revisão: Juliana Paiva Zapparoli
Análise produzida com cópia digital cedida pela Anshar Studios

é bacharel em Produção Cultural pela UFF e estudante de Comunicação Social pela FSMA. Na infância, ganhou um Super Nintendo dos pais e, desde então, nunca mais deixou o mundo dos games. Ainda sonha em ser um Mestre Pokémon.


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