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Análise: Recompile (Multi) traz hacking e plataformas em uma decepcionante aventura por um mundo digital

Mecânicas rasas e execução problemática de elementos básicos tornam intragável este belo jogo indie.


Recompile tem uma proposta no mínimo interessante: no controle de um programa, precisamos consertar um computador mainframe por dentro. O jogo usa essa premissa em uma aventura de ação e plataforma 3D por um mundo digital visualmente único em que é possível hackear inúmeros elementos. A ideia principal é bem interessante, mas, infelizmente, o título esbarra em inúmeros problemas estruturais que tornam a experiência completamente esquecível.

Invadindo um mundo digital

Um avançado sistema de inteligência artificial chamado Hypervisor foi instalado em um grande computador mainframe. Mas, depois de um tempo, algo deu errado e ele se descontrolou, causando o caos nos sistemas internos da máquina. Para tentar resolver a situação, foi criado um programa semiconsciente que tem como tarefa explorar o mundo digital e consertar seus setores defeituosos. Isso não será fácil: o mainframe considera essa nova aplicação uma ameaça e vai utilizar inúmeros recursos para eliminá-la.

Fora essa ambientação diferente, Recompile é um título de ação e plataforma 2D tradicional. O protagonista tem forma humanoide e no controle dele exploramos inúmeros cenários, que apresentam desafios de plataforma e combates com armas de fogo. Pelo caminho, o programa recebe upgrades que liberam novas habilidades, como saltos adicionais no ar, e diferentes armas, o que expande as opções aos poucos.


O diferencial do jogo está nas mecânicas de hackear. Depois de alguns upgrades, o protagonista consegue pausar a ação e alterar o comportamento de elementos dos cenários. No combate, por exemplo, os inimigos podem ser transformados em aliados ou simplesmente destruídos com um único comando.

O recurso também é utilizado em puzzles lógicos espalhados pelo mundo. Neles, precisamos ativar interruptores e, para isso, é necessário criar circuitos envolvendo operadores lógicos computacionais, como AND e OR. Os valores dos conectores podem ser alterados via hacking, o que é necessário para resolver alguns dos enigmas.



Recodificando um universo intrigante

Recompile me conquistou com sua ambientação singular que conta com interpretações interessantes de um mundo digital. O protagonista, por exemplo, é feito de inúmeros cubos brilhantes e faíscas, remetendo a sua natureza mutável. Partes do cenário apresentam glitches e só se tornam sólidas quando nos aproximamos, o que reflete o estado de instabilidade do mainframe. Já os menus e opções remetem a terminais computacionais da década de 1980 e trazem um charme único ao jogo.

A jornada é estruturada em áreas temáticas, como a central de energia do computador, repleta de poças de lava, ou o sistema de comunicação, que conta com várias plataformas flutuantes fragmentadas. Em cada uma delas, precisamos completar alguma tarefa, como ativar botões, resolver circuitos lógicos, alcançar locais de difícil acesso ou derrotar inimigos.


A progressão de cada estágio é linear, mas há alguma liberdade na ordem em que podemos completá-los. Certos trechos só podem ser acessados após adquirir certas habilidades, mas as técnicas são bastante tímidas: investidas, saltos adicionais no ar e uma mochila para voar horizontalmente por longas distâncias.

O mais curioso é que há uma trama instigante por trás de tudo: aparentemente a desestabilização da IA Hypervision teve grande impacto na sobrevivência de um grupo de cientistas. Vários assuntos são abordados, como a natureza de sistemas de inteligência artificial e as reações de pessoas em situações de tensão. A história é explorada por vários arquivos de texto com conversas entre os cientistas e o sistema de IA, e esses conteúdos são desbloqueados ao coletar itens espalhados pelos locais — é um bom incentivo para explorar as áreas com cuidado.



Muitos problemas no código-fonte

Com uma atmosfera instigante, mecânicas consagradas e algumas características únicas, Recompile tinha tudo para ser um jogo memorável. No entanto, uma série de decisões ruins e aspectos duvidosos fez com que a minha jornada no mundo digital se tornasse um martírio.

Para começar, o desenho dos mapas é sem inspiração e os estágios basicamente têm plataformas soltas ou alguns caminhos bem simples. Isso não seria tanto um problema caso os controles fossem bons, mas é justamente o contrário: os saltos são bastante imprecisos e a ausência de sombra torna muito difícil saber exatamente onde estamos caindo.


Para piorar, Recompile tem vários trechos que exigem precisão. Em uma das áreas, por exemplo, precisamos saltar por inúmeras plataformas para chegar a diferentes interruptores. O problema é que, além de serem bem pequenas, algumas plataformas se movimentavam. Isso, em conjunto com o pulo impreciso, tornou esse estágio um extremo teste de paciência — não senti nada além de irritação depois de cair no abismo pela centésima vez. Além disso, o personagem é bem frágil e é destruído ao cair de alturas médias, o que deixa os erros ainda mais punitivos.

Fora isso, os cenários são bastante escuros e há pouco contraste entre os objetos, o que torna a navegação custosa. Muitas vezes, inclusive, não sabia onde tinha que ir, mesmo com instruções detalhadas da próxima missão. Existe um mapa no menu, mas ele é inútil, pois é extremamente simples, não representa bem os cenários 3D e não indica com exatidão onde estamos.



Mais subrotinas defeituosas

Fora as sessões de plataforma horríveis, o jogo tem alguns puzzles com circuitos lógicos computacionais em que utilizamos portas AND, OR e similares para ativar interruptores. De início, já é um desafio para o jogador entender como funcionam esses sistemas, mesmo com a explicação dentro do jogo. Com alguma tentativa e erro é possível resolver os desafios mais simples, mas aí aparecem puzzles extremamente complicados com inúmeras portas e caminhos emaranhados em que somos forçados a hackear portas para prosseguir.

Mesmo sabendo como resolver esse tipo de desafio por ter formação na área de TI, sofri para resolver vários dos puzzles, principalmente por ser difícil entender visualmente o que está acontecendo. Eu entendo a intenção por trás desses obstáculos, afinal é um jogo que tem programação como tema, mas, para mim, foi tudo desnecessariamente complicado e irritante. Quem não domina os conceitos de circuitos lógicos provavelmente vai se frustrar com os vários puzzles do jogo.


Na hora de enfrentar inimigos, Recompile se transforma em um jogo de tiro em terceira pessoa. O protagonista tem à disposição várias armas, como uma pistola, uma metralhadora e uma escopeta, cada qual com suas particularidades. Porém, mais uma vez, a execução deixa a desejar com ritmo e controles travados. Enquanto está mirando, o personagem se move muito lentamente; já os inimigos são bastante ágeis, o que resulta em mortes constantes — é frustrante ser destruído enquanto estamos tentando ajustar a mira. Não só isso, o jogo tem somente três tipos de inimigos, o que deixa o combate repetitivo bem rápido.

Cada área tem um chefe no final, mas esses embates são desbalanceados: os mestres são extremamente ágeis e derrotam o protagonista com um único acerto. Para derrotá-los, minha única opção foi me abrigar em um portal desativado para travá-los e, assim, conseguir atirar até a vitória. Faltou muito balanceamento na hora de construir os elementos de combate do jogo.


Por fim, temos a promissora mecânica de hackear elementos, que logo se revela decepcionante. Nos cenários, os únicos objetos que podemos manipular são as portas dos puzzles de circuitos lógicos. Já nos combates, podemos fazer com que inimigos se tornem aliados por algum tempo ou então usar um comando para “deletar” os oponentes. Com essas escassas opções, é fácil ver que o sistema de hackear é raso e praticamente irrelevante, afinal seu uso é extremamente limitado. No fim das contas, só utilizei mesmo a opção de destruir inimigos, pois é muito útil para evitar os desagradáveis combates.

Uma recompilação malsucedida

Recompile apresenta um conceito singular, mas a execução desajeitada de suas ideias compromete completamente o jogo. O mundo dentro do mainframe cativa com sua ambientação interessante, em especial a interpretação de programas e estruturas. No entanto, os demais aspectos têm problemas: o desenho das fases é desinteressante, o salto impreciso torna os trechos de plataforma irritantes, o combate é truncado e sem graça, e a mecânica de hackear é basicamente irrelevante. Sendo assim, Recompile é uma aventura difícil de se recomendar.

Prós

  • Ambientação única e com boa direção de arte e música;
  • Trama instigante.

Contras

  • Pulos imprecisos tornam as sessões de plataforma desnecessariamente difíceis;
  • Desenho de níveis desinteressante e repleto de elementos confusos;
  • Combate lento e repetitivo;
  • Mecânica de hackear rasa e praticamente irrelevante;
  • Os puzzles de portas lógicas são desnecessariamente complicados;
  • Cenários carecem de clareza visual, como contraste entre elementos.
Recompile — PC/PS5/XSX — Nota: 4.0
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Ives Boitano
Análise produzida com cópia digital cedida pela Dear Villagers

é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.


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