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Análise: Abomi Nation (PC) traz uma aventura roguelike repleta de criaturas adoráveis

Título surpreende pelo bom emprego de suas mecânicas, que acabam proporcionando uma experiência nova, porém familiar.

Como meus amigos próximos bem sabem, tenho uma paixão enorme pela franquia Pokémon. Até hoje, recordo-me vivamente da primeira vez que joguei Pokémon Gold no Game Boy Color de um amigo de escola. Instantaneamente, a proposta de montar um time de monstrinhos e sair em jornada com eles capturou meu pensamento de tal forma que perturbei meus pais por meses, até conseguir um portátil similar da Nintendo no Natal — certamente um dos dias mais felizes da minha vida até hoje.

Mas por que começar esta análise falando de Pokémon? Porque Abomi Nation (PC) é claramente uma obra idealizada e realizada por outros fãs da franquia. E, assim sendo, há neste carismático jogo independente um prato cheio para os entusiastas do estilo que busquem algo novo, porém familiar em muitos aspectos. Sem mais delongas, vamos à análise!

Abomi... nação?

Abomi Nation se passa em uma ilha homônima, distante e misteriosa. Através dos anos, tal ilha sofreu alterações geográficas diversas vezes, mas sempre se manteve distinguível por um motivo crucial: ser lar de criaturas fantásticas conhecidas como Abomis.

Como tais seres são capazes de realizar ataques extremamente poderosos, em certo ponto de sua história a ilha foi dominada por batalhas letais e guerras que pareciam não ter fim. Porém, desde esse período, os Abomis evoluíram e se tornaram mais civilizados. Ataques e batalhas, hoje, são usados somente em circunstâncias extremas, e o que leva um Abomi a se fortalecer não é o medo de morrer em combate, mas sim o desejo de se aventurar e de descobrir coisas novas.

Lendas locais dizem que, a cada 100 anos, o espírito da luz e o da escuridão, responsáveis por guardar a Nação Abomi, renascem e se enfrentam com seus exércitos em batalha. Tal confronto, dizem, define o destino da ilha, de modo que o reinado de paz de tantas gerações seria o resultado direto dos esforços do guardião do bem. Apesar de, aparentemente, essas crenças serem folclóricas, três Abomis decidem sair em jornada e procurar a estátua do espírito da luz — e é aí, ao se deparar com o próprio presencialmente, que começa a nossa jornada.


Uma aventura singular

Sendo Abomi Nation um RPG em que se monta, se treina e se gerencia uma equipe de monstrinhos fantásticos, não é preciso muito tempo de jogo para perceber que a obra da Orange Pylon Games carrega diversas similaridades fundamentais com Pokémon. De todas essas, talvez a mais marcante seja o sistema de batalha por turnos regido por vantagens e desvantagens entre diferentes tipos, sobre o qual falaremos mais em breve.

Ainda assim, há algumas diferenças significativas aqui que fazem com que o título seja muito mais do que uma mera cópia fan-made da franquia da Nintendo: a primeira é o fato de Abomi Nation ser um roguelike. Isso significa que, embora seu objetivo principal dentro do jogo seja sempre o mesmo (neste caso, derrotar a tropa de Furcifume, o espírito do mal), cada partida jogada será diferente, com cenários, Abomis e localidades sendo geradas aleatoriamente.

Também há uma enorme influência do chamado Nuzlocke Challenge, desafio popular entre os fãs hardcore de Pokémon. Caso você nunca tenha ouvido esse termo, aqui vai uma breve explicação: basicamente, trata-se de um conjunto de regras pensadas para tornar a experiência da campanha mais difícil e envolvente. Nascido de uma série de quadrinhos em inglês de Nick Franco, o desafio possui características adaptáveis, mas algumas são fixas, como a obrigatoriedade de capturar somente o primeiro pokémon encontrado em cada rota e de soltar (release) os pokémon que por ventura tiverem desmaiado em combate, simulando assim uma morte permanente. Se em dado momento, todos seus pokémon desmaiarem (status fainted), nada de visitar um Centro Pokémon: de acordo com a proposta, é game over

Logicamente, em um Nuzlocke Challenge, também é proibido voltar a um save anterior, o que anularia o efeito de todas as regras anteriores. Como já pode ser percebido, a graça desse desafio está na dificuldade autoimposta pelo jogador, que acaba tendo de preservar seus pokémon para evitar perdê-los definitivamente ao mesmo tempo em que tem de fazer o melhor com os encontros que lhe são cedidos pelo algoritmo do jogo.

Interessante, não? E o melhor, todos esses elementos acima se fazem presentes em Abomi Nation, em um casamento que, honestamente, considero perfeito com as já citadas mecânicas roguelike. Isso significa que aqui, com exceção do seu parceiro inicial (que pode ser escolhido dentre três opções), todos os monstrinhos que formarão sua equipe são definidos aleatoriamente ao iniciar uma partida. 

Escolhidos por Yoki, o carismático espírito da luz, os “guerreiros da luz” serão suas ferramentas para impedir que o exército crescente da escuridão domine a Nação Abomi. Mas cuidado: qualquer passo em falso ou arriscado demais pode custar a vida de um de seus companheiros, e escolhas erradas podem levar a um doloroso e real game over. Nesse caso, só começando tudo de novo.

Primeiro eu, depois você

Obviamente, de nada adiantaria acertar na escolha e na combinação das mecânicas acima se Abomi Nation não fosse bem-sucedido em seus outros elementos. Felizmente, não é o caso, o que significa que no fim do dia temos aqui um produto coeso e honesto consigo mesmo.

O sistema de combate segue a cartilha da franquia da Nintendo, sendo bem divertido na prática. Embates se darão em lutas 1x1, sequenciadas em turno, e devem ser facilmente entendidos por jogadores que já possuem certa intimidade com o gênero. Porém, com oito tipos elementais disponíveis tanto para os Abomis como para seus golpes — cada qual contendo suas fraquezas e vantagens particulares —, há uma profundidade natural aqui, que faz com que este seja o tipo de título que é facilmente entendido, mas dificilmente dominado.

De fato, fiquei positivamente surpreso ao ver elementos mais complexos como itens, habilidades e chances de golpe crítico incluídos aqui. Há até um certo bônus de dano quando seu Abomi utiliza um golpe de seu tipo — uma mecânica que fãs mais hardcore de Pokémon logo reconhecerão. Assim, confesso que não precisei de muito tempo de jogo para me pegar analisando e calculando os pontos fortes e fracos de minha equipe, exatamente como faço quando aprecio um bom RPG.

Porém, caso você só queira relaxar, e/ou cálculos, números e estratégias não sejam lá o seu forte, não se preocupe: ao iniciar um jogo, é possível selecionar entre três níveis de dificuldade (Casual, Normal e Brutal), e desligar ou ligar a opção de morte permanente (Permadeath). Há, inclusive, a elogiável opção de personalizar diversos aspectos de cada partida, incluindo o número de chefes que serão encontrados antes do final, a aparição possível ou não de duplicatas, e o escalonamento de nível. Considerando que também é possível compartilhar códigos de seed de cada ilha, há um potencial fator replay aqui inegável.


Animais fantásticos e onde habitam

Claro, é preciso falar das estrelas do show: embora portadores de um design mais simples se comparados a outros jogos do gênero, os Abomis são bem carismáticos, fazendo com que não seja preciso muito tempo para estabelecer laços com as mais de 100 criaturas disponíveis. Deixo aqui registrado um destaque especial aos monstrinhos Allignaw, Giraffodil e Sushimo.

Por falar em laços, como aqui não há uma figura humana, todos os diálogos e cenas são protagonizados pelas próprias criaturas, o que acaba fazendo com que vitórias sejam celebradas coletivamente, e eventuais mortes sejam ainda mais sentidas por todo o grupo. Este é um aspecto interessante e que confere peso à narrativa, embora não seja tão incomum presenciar a repetição de diálogos nos momentos de interação e lazer entre os personagens.

Onde talvez Abomi Nation não desperte muita curiosidade é no design dos seus mapas, que, apesar de funcionais, prezam pelo básico: conectar rotas e servir de ponto de aparição de itens ou personagens. Ainda assim, com a jogabilidade e as mecânicas sendo os destaques do título, é mais fácil relevar esse aspecto do jogo. 

Em uma nota menos positiva, não há suporte a português brasileiro, o que faz com que seja necessário um certo nível de domínio do inglês para usufruir completamente do jogo. Honestamente, é algo compreensível por se tratar de uma obra independente, mas fica aqui o registro para que cada vez mais produtores percebam o Brasil como um dos maiores mercados consumidores de games do mundo. 

Também é preciso destacar que não foram encontrados bugs ou crashes em nenhuma das sessões de jogo para análise, e que, com os requisitos relativamente baixos de hardware, este é um título que, em tese, poderá ser aproveitado por grande parte do público, não somente por aqueles que possuam máquinas high-end.


Uma carismática aventura

Sendo bem sincero, Abomi Nation (PC) é um dos jogos mais divertidos e adoráveis que joguei este ano. A premissa de treinar e gerenciar criaturas fantásticas e salvar o mundo não é uma novidade sob nenhum prisma, mas a forma com que é executada neste título vale o investimento. Jogadores entusiastas da proposta certamente encontrarão diversão aqui, e mesmo aqueles que não o são poderão encontrar um motivo para visitar mais de uma vez esta fascinante ilha. Recomendado.

Prós

  • Criaturas carismáticas;
  • Casamento perfeito das regras do Nuzlocke Challenge com mecânicas roguelike;
  • Sistema de combate divertido, sem perder a complexidade de vista;
  • Fator replay;
  • Diversos níveis de dificuldade e chave de permadeath garantem acessibilidade aos diferentes públicos;
  • Possibilidade de personalizar a geração do mundo.

Contras

  • Sem funções multiplayer;
  • Cenários básicos em sua maioria;
  • Sem suporte a português brasileiro;
  • Sem opção de ajustes gráficos no PC;
  • Por vezes, pode soar “familiar” demais.
Abomi Nation — PC — Nota: 8.0 
Revisão: Ives Boitano
Análise produzida com cópia digital cedida pela Dangen Entertainment

é bacharel em Produção Cultural pela UFF e estudante de Comunicação Social pela FSMA. Na infância, ganhou um Super Nintendo dos pais e, desde então, nunca mais deixou o mundo dos games. Ainda sonha em ser um Mestre Pokémon.


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