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Análise: Astalon: Tears of the Earth (Multi) traz três heróis em uma envolvente jornada por uma torre perigosa

Um mundo vasto e variedade de situações são os destaques deste ótimo título indie.


Em Astalon: Tears of the Earth, um trio de heróis precisa desbravar uma imensa torre para tentar salvar uma vila da destruição. Para avançar nesta aventura de ação e plataforma, precisamos alternar entre os personagens para utilizar suas habilidades exclusivas. Um mapa imenso repleto de segredos, puzzles e perigos nos convida a explorar todos os cantos, e há algumas mecânicas interessantes, como fortalecer os heróis após morrer. Salvo alguns problemas de ritmo, Astalon oferece uma experiência envolvente.

A esperança em um futuro desolado

Depois de uma guerra mundial, a Terra se transformou em um cenário pós-apocalíptico tomado por desertos, monstros e outros perigos. Os poucos humanos restantes se reuniram em povoados e lutam para sobreviver nesse ambiente hostil. Uma dessas vilas está em risco, pois, misteriosamente, a água do rio próximo tornou-se venenosa. Diante disso, três exploradores saem em uma jornada pelo deserto para tentar encontrar uma solução. A busca os leva até uma torre sombria que parece ser a fonte do veneno, na qual enfrentarão seus perigos para salvar a vila.

Astalon: Tears of the Earth é uma aventura de ação e plataforma tradicional. Para avançar pela torre, precisamos controlar três diferentes heróis. O guerreiro Arias desfere poderosos golpes com sua espada, que também são capazes de cortar vinhas que obstruem passagens. A ágil ladina Kyuli ataca de longe com arco e flecha, e consegue saltar em paredes para alcançar locais altos. Já o feiticeiro Algus conjura esferas mágicas que atravessam obstáculos, o que é útil para ativar certos mecanismos. O herói ativo só pode ser alterado em fogueiras, logo é essencial alternar entre eles para superar os obstáculos.


A torre conta com mapa labiríntico e muitas áreas só podem ser acessadas por meio de chaves ou habilidades específicas — ou seja, Astalon apresenta elementos de metroidvania. A progressão não é linear e normalmente podemos explorar rotas distintas pelo mapa. O local é extremamente perigoso, mas a morte não é o fim: Algus fez um pacto com Epimetheus, o Titã da Morte, que revive os heróis após a derrota. Além disso, antes de recomeçar, podemos utilizar orbes coletados de inimigos para fortalecer atributos dos personagens e liberar novas habilidades. Com isso, aos poucos as chances de sobrevivência aumentam com derrotas sucessivas.

A ambientação evoca o passado com charmoso visual pixel art 8 bits e música chiptune, e a nostalgia é reforçada com vários filtros visuais interessantes que simulam telas antigas. A escala chama a atenção com personagens pequenos e cenários amplos, o que traz uma sensação de vastidão às salas. É surpreendente a variedade temática das áreas da torre, e apreciei algumas salas que contam com estátuas e pinturas mais elaboradas. A trama é simples, mas conta com algumas surpresas pelo caminho, principalmente em relação ao mundo e aos antagonistas. Gostei especialmente das conversas dos heróis nas fogueiras — são nesses momentos que os personagens são desenvolvidos.
 


Desbravando um mundo cheio de desafios intrigantes

O que mais me agradou em Astalon: Tears of the Earth foi a diversidade de situações. Pela torre, há todo tipo de desafio, como trechos de plataforma, combates e também alguns puzzles. O local está repleto de segredos, como itens e salas, e muitos deles só podem ser acessados após resolvidos alguns enigmas não óbvios, como inscrições nas paredes e elementos visuais dos cenários que dão dicas sutis. A campanha tem duração moderada e há muito conteúdo adicional, como vários finais, modos adicionais e extras.

Um ponto notável é o estilo da progressão da aventura. O jogo é um metroidvania, mas foca mais em exploração e criação de novas rotas. Durante a jornada, é muito comum encontrar algum ponto intransponível e normalmente a solução é procurar por um caminho alternativo, o que muitas vezes exige trocar o personagem ativo. Alguns trechos só podem ser acessados com habilidades específicas, mas esse recurso não é o foco de Astalon (muitas técnicas especiais, inclusive, são completamente opcionais). Mesmo assim, eu me surpreendi com alguns recursos legais que aparecem pelo caminho.


Essa abordagem, em conjunto com o mapa intrincado e labiríntico, resulta em uma aventura instigante — constantemente saí da rota principal tentando alcançar pontos distantes ou buscando segredos. Vasculhar todos os cantos é recompensador, e há muito o que ver, pois a torre é imensa e repleta de conteúdo. Claro, às vezes é fácil ficar perdido, mas considero isso parte da experiência. É ótimo ter um vasto mundo para desbravar, no entanto senti falta de recursos úteis, como marcadores — é difícil lembrar onde estão pontos de interesse, pois o mapa é visualmente simples.

Já o combate, em seu cerne, é bem básico, porém consegue ser interessante. Cada personagem tem alguns poucos ataques, e a variedade dos embates surge pela combinação de elementos de cada sala e os diferentes tipos de inimigos. Algumas batalhas são mais diretas e exigem observar os padrões dos monstros; já em outras a dificuldade é conseguir simultaneamente desviar de armadilhas, saltar por plataformas e desviar de ataques inimigos. Cada personagem oferece abordagens diferentes e me diverti experimentando as possibilidades.
 


As dificuldades do ciclo de vida e morte

Além de variado e flexível, Astalon: Tears of the Earth apresenta dificuldade acentuada: a maioria das salas tem muitas armadilhas e inimigos, e há pouquíssimas oportunidades para recuperar a vida. Morrer é inevitável, mas é um recurso intencional, afinal só podemos fortalecer os heróis quando eles são derrotados. Mesmo assim, o que conta é a perícia, pois a maioria das melhorias só faz diferença a longo prazo quando conseguimos alocar muitos pontos em alguma característica. O sistema é balanceado e nunca precisei fazer grind para superar pontos difíceis.


Um detalhe curioso do jogo é que, ao morrer, como penalidade, sempre recomeçamos da primeira sala da torre. Por causa disso, precisamos atravessar novamente as salas para chegar no ponto em que fomos derrotados — atalhos, elevadores e pontos de teletransporte tornam essa tarefa mais ágil. Essa é uma abordagem interessante, fazendo sentido dentro do contexto da trama: cada nova tentativa funciona como uma linha do tempo paralela. Isso traz também um pouco de tensão, afinal ser descuidado significa refazer parte do caminho.

No entanto, essa característica é também o maior ponto negativo de Astalon. Acontece que a quantidade de pontos de viagem rápida é reduzida, o que nos força a andar pelas mesmas salas constantemente. Os atalhos amenizam isso, mas nem sempre eles são suficientes, pois, mesmo com eles, algumas partes continuam muito longas e complexas (um exemplo são as áreas finais, que não têm pontos de viagem intermediários). Essa questão, em conjunto com a dificuldade alta e a cura escassa, cria situações cansativas e repetitivas — ter que refazer longos trechos complicados se torna irritante. Torço para que o jogo passe por balanceamentos para tornar o backtracking um pouco mais ágil. Mesmo assim, achei a aventura instigante e agradável, pois dosa bem seus elementos na maior parte do tempo. 
 


Uma jornada que vale a pena

Astalon: Tears of the Earth oferece uma aventura envolvente por um mundo elaborado com ares retrô. É ótimo alternar entre heróis para superar desafios diversos, como combates, puzzles e trechos de plataforma, sendo constante a presença de segredos que incentivam a explorar minuciosamente os cenários. A dificuldade é intensa e morrer é inevitável, porém isso faz parte da progressão, afinal podemos fortalecer os personagens ao revivê-los. A penalidade da derrota é recomeçar a jornada na entrada da torre, e atalhos ajudam a navegar com agilidade pelo mapa, porém essa abordagem cria alguns trechos repetitivos. No fim, Astalon: Tears of the Earth é uma experiência notável, variada e divertida.

Prós

  • Boa combinação de ação, plataforma e exploração com três personagens distintos para controlar;
  • Mundo intrincado e repleto de segredos para descobrir;
  • Ambientação retrô agradável com visual pixel art e música chiptune;
  • Grande quantidade de conteúdo espalhada por vários modos.

Contras

  • Atravessar as mesmas áreas novamente às vezes é custoso e repetitivo, especialmente nas partes finais.
Astalon: Tears of the Earth — PC/PS4/XBO/Switch — Nota: 8.5
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Ives Boitano
Análise produzida com cópia digital cedida pela DANGEN Entertainment

é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.


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