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Análise: Total War: Three Kingdoms (PC) é a oportunidade de reescrever a história dos Três Reinos

Mesmo quase dois anos após seu lançamento original, título de estratégia ainda é um prato cheio para fãs do gênero.

Total War: Three Kingdoms
(PC) é o segundo jogo este ano que me faz perder horas de sono; o primeiro foi Nioh 2 — The Complete Edition (PC). Mas, se na excelente aventura soulslike da Koei Tecmo meu ciclo de descanso sofreu alterações devido aos chefes cada vez maiores e mais fortes, aqui o principal motivo reside no fato de que explorar e conquistar a China antiga é extremamente divertido. Sendo sincero, não raramente perdi a noção de tempo em frente ao meu monitor enquanto me envolvia em tramas políticas e guerras cada vez mais complexas.

Lançado originalmente em maio de 2019, o título da Creative Assembly recentemente recebeu uma nova e considerável expansão intitulada Destinos Divididos, o que faz com que esta seja uma ótima hora para revisitar ou simplesmente conhecer esta aventura da já longeva série Total War. Por isso, caro leitor, prepare sua melhor estratégia e embarque conosco na análise a seguir.

Romance dos Três Reinos

Caso você não possua intimidade com a franquia em si, aqui vai uma rápida explicação: desde o seu primeiro lançamento no início da década de 2000, a série Total War tem se destacado por sua adaptação dos conceitos de estratégia em turnos e em tempo real, frequentemente abordando tanto simples relações diplomáticas como empolgantes conflitos em larga escala. 

Estes últimos são um destaque particular da saga, posto que é possível posicionar e comandar suas tropas em guerra livremente no campo de batalha (e visualizar todos os fatos conforme eles ocorrem). Assim, com certa frequência, os embates viram um espetáculo memorável, que inclusive pode ser gravado e assistido posteriormente.

É uma proposta deveras interessante, e, como qualquer fã pode atestar, é praticamente impossível não se empolgar com os gritos de guerra de seus soldados antes de uma batalha, por menor que esta seja. Outro diferencial é que cada novo jogo costuma abordar uma temática ou período histórico diferente — há espaço para entradas baseadas nas guerras de Tróia, de Roma e até mesmo da franquia Warhammer 40.000.

Como o nome da obra entrega, Total War: Three Kingdoms é baseado no período histórico conhecido como Três Reinos (184-280 D.C.), que contemplou fatos como a queda da poderosa dinastia Han e o consequente surgimento de três impérios (Wei, Wu e Shu-Han). Essa foi uma época de muitas reviravoltas para o povo chinês e que até hoje habita o imaginário popular do país, com diversas obras culturais como livros e peças sendo influenciados pelos acontecimentos da época — destaque para a lendária obra Romance dos Três Reinos da Dinastia Ming, de Luo Guanzhong, um dos maiores clássicos da nação.

No nosso caso, a riqueza desse período histórico também acabou permitindo uma série de novidades e particularidades ao jogo da Creative Assembly, que fazem com que este seja um título que vale a pena ser experimentado.

A escola da vida

Uma das primeiras novidades do jogo é o fato de que é possível jogar a campanha de dois modos: Histórico e Romance. O primeiro é o já tradicional modo regular da série, no qual a fadiga das tropas tem uma influência muito grande, e é preciso prestar atenção constantemente nas táticas e manobras de cada exército. O segundo, por sua vez, é inspirado no Romance dos Três Reinos, e acaba por dar um peso maior aos generais de sua tropa, que serão decisivos em campo de batalha — conforme as lendas orientais, tais figuras poderão inspirar seus companheiros abatidos e até derrotar, sozinhas, multidões inimigas.

Na prática, ambos os modos são divertidos (o que, juntamente com a variedade de personagens, se torna um incentivo a mais para jogar diversas vezes a campanha), mas, se eu precisasse escolher, ficaria com o Romance. Neste modo, ainda é preciso ficar atento às estratégias em campo, e a proporção que o poder dos generais toma em batalha é muito interessante: em certa partida, consegui eliminar seis tropas rivais somente com dois combatentes, e confesso que tal feito ficou entre as minhas melhores memórias do título.

Qualquer que seja a escolha do jogador, o objetivo maior será chegar ao posto de Imperador da China e unificar o país, tarefa cujo nível de desafio dependerá em grande parte do personagem escolhido inicialmente. Devido a diversas circunstâncias, como localização geográfica e alianças prévias, figuras históricas como Cao Cao, Yuan Shao e Liu Bei possuem um início menos árido que Yuang Shu, Liu Biao e Zheng Jiang, por exemplo.

Mas, embora seja possível personalizar separadamente a dificuldade tanto da campanha quanto dos combates, preciso citar aqui aquela que é realmente a minha única crítica contundente ao jogo: apesar da aparição valiosa e constante de dicas na tela, Total War: Three Kingdoms não possui um tutorial in-game detalhado, especialmente no que tange à parte administrativa de seu reino.

E, como é de praxe do gênero, este é um jogo complexo. Como pode ser visto pelas capturas de tela, são muitas abas e aspectos para tomar conta, de modo que mesmo após 20 horas de gameplay você provavelmente ainda estará aprendendo coisas novas. E, em vez de tudo ou grande parte ser explicado em uma fase, digamos, introdutória, há uma série de links dentro do jogo para uma série no YouTube chamada de Total War: Academy.

Em sua justiça, tais vídeos são realmente explicativos (e há legendas em português), mas não creio que a presença deles seja uma alternativa consistente a um tutorial mais rico e compreensível dentro do próprio game. E se um dia os vídeos saírem de circulação? Considero-me um jogador relativamente experiente em jogos de estratégia, e, mesmo assim, no início não consegui identificar com facilidade como aumentar meus rendimentos ou a melhor maneira de investir em minhas propriedades.

Resultado: estado de falência decretado em menos de 15 turnos, e toda uma campanha com Cao Cao praticamente perdida devido a decisões que não seriam tomadas se eu tivesse algum tipo de orientação prévia mais destacada. Honestamente, temo que alguns jogadores desanimem com o início praticamente “no escuro''. Dada a qualidade geral do título, seria realmente uma pena se isso acontecesse, então fica registrada aqui a sugestão para os desenvolvedores.

Dividir e conquistar

O lado positivo é que, conforme se joga, todos os subsistemas de Total War: Three Kingdoms começam a ficar mais claros. Para alcançar o posto de imperador da China, você precisará aumentar seu prestígio, passando pelos estágios de nobre, segundo marquês, marquês, duque e rei. Prestígio é obtido basicamente capturando e expandindo povoados, o que significa que todo investimento e movimento devem ser planejados antes de serem propriamente executados.

Na prática, funciona da seguinte forma: para capturar uma localidade de outra facção, você precisará de um bom exército, e, para ter (e manter) um bom exército, você precisará de uma renda constante de suas propriedades, fruto de uma administração consciente, que atende tanto aos seus desejos quanto aos da população que lá habita. É uma fórmula simples, mas que gera um ciclo envolvente, cujos elementos interdependentes precisam ser mantidos em harmonia.

Por exemplo, assim que você alcançar o posto de segundo marquês, poderá ajustar a carga tributária das propriedades de sua facção. Mas, embora os impostos mais altos possam representar um lucro atrativo, encargos inesperados levarão a baixos níveis de ordem pública, que por sua vez podem desencadear uma rebelião. E tudo o que um inimigo pode estar esperando para avançar em uma terra sua é a insatisfação do povo com seu governo.

Tocando nesse assunto, tenho que elogiar o comportamento da inteligência artificial em Total War: Three Kingdoms. Mesmo nas dificuldades mais baixas, não presenciei nenhum movimento questionável dos líderes de outras facções — muito pelo contrário, há inclusive uma tendência à agressividade na busca por outros territórios, obrigando o jogador a se manter sempre alerta a possíveis ameaças.

Assim, muito cuidado ao sair declarando guerras a torto e a direito; a chave para o sucesso em Three Kingdoms provavelmente envolverá uma boa dose de diplomacia. Ao apertar a tecla correspondente, é possível obter um panorama de todas as facções presentes no jogo e iniciar ou romper uma tratativa, que pode ser tanto uma declaração de guerra quanto um acordo comercial ou os sábios pactos de não-agressão.

Achou pouco? Há ainda opções de mútuo acesso militar, vassalagem, casamento, coalizões… Com mais de 30 facções únicas disputando o trono chinês, é possível eliminar algumas sem nem entrar em guerra diretamente, e, sem dúvidas, esse é um dos grandes destaques desse título e um dos pontos altos da campanha.

O caminho da glória

Como de costume na série, as guerras são um dos destaques do jogo. Dependendo do seu posicionamento no terreno e da sua estratégia é possível inclusive contornar situações bem desfavoráveis, o que torna todo o processo mais divertido e dinâmico, especialmente em conflitos de larga escala. 

Reviravoltas são especialmente comuns no modo Romance, onde os generais vão interagir entre si uma vez em combate. É até possível “chamar a responsabilidade” e organizar um duelo particular entre um de seus comandantes e um dos chefes inimigos, e as tropas respeitarão todo o decorrer desse confronto. Além de fazer jus às lendas do material base, vencer um desses acontecimentos pode ser a chave para a virada em uma situação apertada, visto que o perdedor sairá com o moral bem afetado, podendo debandar a qualquer momento.

Ao encerrar o conflito por um local, seja por meio de cerco, seja por confronto direto, o jogador se deparará com as opções de “ocupar”, “espoliar e ocupar” ou simplesmente “saquear” a localidade. Cada uma dessas alternativas possui seus prós e contras, mas, a não ser que você esteja nadando em suprimentos militares, ocupar sempre será a opção mais equilibrada na minha opinião, pois permitirá um rápido reaproveitamento do espaço (e uma nova fonte de renda) sob seu comando.

O mesmo vale para generais capturados após uma guerra — se você tiver os fundos necessários para o salário e ele não odiar sua facção, a melhor alternativa é quase sempre aproveitar a mão de obra disponível (haverá também opções para libertar e executar, caso você queira se consagrar pela tirania). Em uma grata surpresa do título, cada oficial possui suas próprias características e sua própria mini árvore de talentos, então, ao achar um de nível elevado, o melhor a se fazer é reaproveitá-lo em sua corte em uma função apropriada para sua condição.

Algo que precisa ser mencionado é que não há limite de turnos na campanha (felizmente!), mas os três primeiros chefes de facção a se proclamarem reis se tornarão imperadores, fundando os três reinos e efetivamente mudando a dinâmica do jogo. Uma vez proclamado imperador, você deverá combater os outros dois reinos (que automaticamente tornar-se-ão seus inimigos) e unificar de uma vez por todas a China Antiga.

É um ponto de virada na narrativa, e devo dizer que sua implementação é muito bem feita, trazendo a tão importante sensação de progressão rumo ao ápice e à desejada conclusão. Juntamente com as missões históricas (tarefas que representam o que aconteceu na realidade, mas são desafios opcionais para o jogador), e o já citado alto número de facções, há espaço para múltiplas abordagens e uma grande longevidade aqui.

Beleza oriental

Com um mapa de campanha bem largo e detalhado, Total War: Three Kingdoms não desaponta no sentido gráfico, apesar de até hoje sofrer de um número de artes limitado para generais comuns. Essa falta de variação visual também se estende às unidades de batalha, embora neste caso seja um pouco mais compreensível quando se leva o período histórico em questão.

Porém, ambos os “problemas” podem ser solucionados com o uso de mods, e felizmente Three Kingdoms possui suporte à Oficina Steam, fazendo com que instalar modificações seja um processo simples e indolor. Desde o lançamento oficial, a comunidade já produziu diversas criações que merecem ser conferidas, então, caso você tenha interesse, saiba que é possível adicionar bastante conteúdo gratuito ao já extenso jogo base.

Infelizmente, o cenário não é o mesmo para o multiplayer do título a essa altura do campeonato. A impressão que fica é que a maior parte dos fãs está em Total War: Warhammer II, então, caso você tenha interesse em experimentar o multijogador, o melhor a se fazer é convidar amigos ou procurar pares em comunidades dedicadas em vez de confiar no serviço de matchmaking do jogo.

Por fim, algo que deve ser mencionado em qualquer análise de jogos de PC é a otimização, e neste ponto há boas e más notícias aqui. A boa é que, com o passar do anos, houve um refinamento natural da engine desenvolvida pela Creative Assembly, então temos aqui um título que provavelmente terá um desempenho melhor em máquinas mais modestas. Ainda assim, não dá para esperar milagres: para obter a melhor experiência possível de Total War: Three Kingdoms é bom ficar atento à performance tanto do processador quanto da placa de vídeo de seu sistema.

Em minhas experiências pessoais com o jogo, acabei chegando à conclusão de que configurações como profundidade de campo e anti-aliasing foram os maiores ladrões de performance de Three Kingdoms. Para evitar altas temperaturas tanto da GPU quanto da CPU, também pode ser uma alternativa viável ativar o V-Sync. Como observação final, é sempre importante relatar que não foram presenciados bugs ou crashes, e a adaptação ao nosso idioma é digna da qualidade geral da obra.

Destinos divididos

Mais cedo neste mês, Total War: Three Kingdoms recebeu sua mais nova expansão, intitulada Destinos Divididos. Neste conteúdo adicional, os jogadores iniciam o jogo em 200 D.C., e Yuan Shao está em campanha contra Cao Cao, que está de posse da tutela do Imperador Han. A data de início mais avançada permite um panorama mais desenvolvido e menos caótico que o da campanha comum, o que torna grandes e decisivas batalhas já possíveis desde o início. 

É um cenário perfeito para quem desejar jogar com os personagens citados acima ou simplesmente encarar um novo desafio mais acelerado com outras personalidades, como Liu Bei. Com menos distrações e inimigos mais poderosos, a tendência é que as definições de imperadores ocorram muito mais rápido. Como fã de Cao Cao, confesso que foi o cenário perfeito para testar minhas habilidades de batalha e a capacidade de gerenciamento, visto que o personagem inicia a expansão encurralado, com guerras em múltiplos locais.

Com somente a introdução dos novos personagens Liu Yan e Liu Zhang (jogáveis em 190 e 194 D.C.), além de algumas unidades para as estrelas Cao Cao e Yuan Shao, não é exatamente a maior expansão até agora em termos de conteúdo, e nem algo revolucionário (pode até se dizer que Destinos Divididos é mais do que já há em Three Kingdoms). Mas ainda assim é uma experiência que vale a pena, em grande parte devido à composição do cenário 10 anos após o início padrão do jogo.

A arte da guerra

Total War: Three Kingdoms é um daqueles jogos raros, adornados com o poder de absorver totalmente o jogador em seu círculo mágico, fazendo com que se perca muito facilmente a questão das horas dispensadas em sua proposta. Para além das grandes batalhas, há muita diversão a ser encontrada aqui nas diversas possibilidades oferecidas pela campanha, e apreciadores do gênero provavelmente ficarão satisfeitos com a complexidade que os subsistemas do jogo podem oferecer.

Sua mais recente expansão pode ser encarada como um pouco de mais do mesmo, mas ainda assim é inegável a qualidade geral dos elementos que permeiam o título. Assim, mesmo quase dois anos após seu lançamento original, aventurar-se pela unificação da China ainda é uma experiência que vale a pena ser vivida, e o suporte contínuo dos desenvolvedores é só a cereja do bolo. Recomendado.

Prós

  • Diversas opções de dificuldade, incluindo medidores separados para campanha e batalhas;
  • Suporte a português brasileiro;
  • Modo Romance (e consequente buff dos generais) põe acertada ênfase nos personagens, fazendo jus ao material base;
  • Guerras continuam empolgantes;
  • Casamento praticamente perfeito entre temática e jogabilidade;
  • Necessidade de boa diplomacia e administração amplifica conceitos de estratégia do título;
  • Suporte a mods prolonga a já extensa longevidade da obra.

Contras

  • Ausência de tutorial in-game pode tornar certas situações complicadas para novos jogadores, mesmo com dicas constantes;
  • Abundância de recursos, facções e possibilidades pode levar à confusão momentânea;
  • Falta de variedade visual para número considerável de personagens e tropas;
  • Modos multiplayer carecem de atenção.
 Total War: Three Kingdoms — PC — Nota: 9.0 
Revisão: Ives Boitano
Análise produzida com cópia digital cedida pela Sega of Europe

é bacharel em Produção Cultural pela UFF e estudante de Comunicação Social pela FSMA. Na infância, ganhou um Super Nintendo dos pais e, desde então, nunca mais deixou o mundo dos games. Ainda sonha em ser um Mestre Pokémon.


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