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Análise: Say No! More (Multi) nos convida a dizer “não” em uma cômica aventura

Se rebele e se negue a fazer todo tipo de tarefa chata neste divertido e inusitado título indie.


Cansado de ter que atender inúmeros pedidos de seus colegas insensíveis? Aprenda a mudar a situação com Say No! More, um curioso título indie focado em dizer “Não!” para todos que aparecem pelo caminho. O jogo usa esse conceito inusitado para contar uma história repleta de momentos divertidos, mas que também nos convida à reflexão. A simplicidade o torna acessível, mas a ausência de um mínimo de complexidade compromete a experiência. 

Dominando o poder do “Não!”

Você acabou de conseguir um estágio em uma importante empresa. Chegando lá, em uma breve reunião, é mostrada a principal diretriz do local: é necessário dizer “sim” para tudo o que for solicitado. Seus colegas de trabalho fazem pedidos abusivos, que você é forçado a aceitar — afinal estagiários existem para fazer todo tipo de tarefa, né? A situação é tão extrema que um chefe pega a sua lancheira com o seu almoço, que foi preparado por um amigo especial, e a única coisa que você pode fazer é aceitar. O estágio dos sonhos logo se revela um pesadelo.


Explorando os arredores de sua mesa, que fica em um muquifo embaixo de uma escada, você encontra um Walkman e uma fita com o título “Aprendendo a dizer NÃO!”. Ao apertar o play, começa uma aula com um enérgico professor que ensina a arte de se opor aos abusos dizendo a poderosa palavra de negação. Animado e energizado, você, um reles estagiário, decide subverter as regras da empresa e passa a falar “Não!” para conseguir de volta a sua lancheira e acabar com todo esse abuso.


Say No! More explora esse conceito maluco em mecânicas bastante simples. Em cada um dos capítulos, nosso personagem se move sozinho por uma rota pré-determinada. Pelo caminho, ele é interrompido por colegas de trabalho que fazem inúmeros pedidos (“pegue café pra mim”, “faça cópias desses documentos”, “leve meu cachorro para passear”), e, para prosseguir, é necessário desferir um sonoro “Não!”.

Conforme avançamos pela jornada, nosso herói aprende diferentes maneiras de falar a palavra: começamos com um Não! esquentado e logo aprendemos uma negação fria, uma versão zombeteira ou um tipo que demonstra pura preguiça. Além disso, há ações para desconcertar os indivíduos, como bater palmas lentamente ou fingir que está concordando — para logo em seguida falar “não”. A maior parte das pessoas é completamente destruída por uma simples negação, mas há também alguns que não se abalam fácil. Nesses momentos, a solução é soltar o devastador “Não!” carregado.
 


Humor absurdo em uma experiência simples demais

Say No! More não se leva a sério em nenhum momento e a zoeira toma conta da atmosfera constantemente. Falar “Não!” sempre tem efeitos exagerados: funcionários desmaiam ao ouvir a palavra, objetos voam erráticamente pelo ar e a palavra carregada é capaz de lançar pessoas e destruir estruturas. É tudo muito cômico e dei várias risadas com as loucuras que apareceram pelo caminho — fiz questão de ouvir com cuidado os pedidos sem noção dos colegas para depois mandá-los pelos ares com um “Não!”.


A trama segue a mesma linha brincalhona com situações que ficam cada vez mais absurdas, com direito a batalhas impressionantes e personagens voando como se tivessem poderes. Por trás de tanto humor, há assuntos sérios, como abusos no ambiente de trabalho, relacionamentos afetados pela falta de sinceridade, etiqueta social e as consequências de ser inflexível. Claro, tudo é abordado de forma leve e com texto bem humorado, que está em português. A ambientação contribui para isso com visual colorido e quadradão, e com personagens de feições estranhas, dublagem exagerada e movimentação peculiar.

O jogo aposta na simplicidade com pouquíssimas ações. Além de dizer “Não!”, o personagem pode zoar os colegas de trabalho, mudar para diferentes tons de voz (preguiçoso, frio, irritado) e desferir uma versão carregada da palavra. O problema é que as mecânicas são superficiais: os diferentes tipos de “Não!” e as zombarias não afetam o andamento das partidas. Há alguns pequenos puzzles espalhados pela aventura que exigem ficar calado nos momentos certos, porém não são suficientes para trazer complexidade ao jogo.


Eu apreciei a experiência no geral, que dura algumas poucas horas e é bem divertida. No entanto, fiquei com a sensação de que o título não soube explorar o seu potencial, afinal as mecânicas são basicamente irrelevantes. Não há motivos para revisitar a aventura uma vez terminada a história, pois o jogo não conta com extras. Essas limitações tornam Say No! More uma visual novel com interação reduzida; faltou um pouco mais de complexidade em todos os seus aspectos.
 


A louca e agradável arte de dizer não

Say No! More explora um conceito curioso em uma experiência repleta de humor. É muito divertido falar “Não!” para os inúmeros pedidos absurdos de colegas de trabalho, principalmente por causa das consequências intensas, como pessoas voando e pilastras caindo. A trama cativa com cenas exageradas e personagens cômicos, explorando temas importantes com leveza. O ponto negativo está nas mecânicas de jogo, que são tão simples a ponto de serem irrelevantes. No fim, Say No! More é uma boa e breve maneira de extravasar e se divertir.

Prós

  • Conceito absurdo explorado em inúmeras situações exageradas;
  • Trama divertida repleta de cenas malucas, humor afiado e críticas à cultura do trabalho;
  • Atmosfera carismática com visual retrô colorido.

Contras

  • Mecânicas de jogo extremamente superficiais.
Say No! More — PC/Switch/iOS — Nota: 7.0
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: José Carlos Alves
Análise produzida com cópia digital cedida pela Thunderful Publishing

é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.


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