Blast from the Past

Missile Command (Atari) prova que há 40 anos os jogos já defendiam posicionamentos políticos

Por trás de suas mecânicas simples, uma crítica à Guerra Fria.


Este mês, um dos maiores sucessos do Atari 2600 está fazendo aniversário de 40 anos. Missile Command é um port do sucesso dos arcades, lançado no ano anterior. Trata-se de um jogo de ação, no qual assumimos o papel de um operador do sistema de defesa antimísseis de uma área com seis cidades. O objetivo do jogo é interceptar os mísseis e defender o máximo possível de cidades antes que sua munição se esgote.
O segredo é não atirar onde o míssil está, mas sim para onde ele vai

Você inicia o jogo com uma munição de 30 mísseis defensivos: dez em sua base, mais duas recargas de dez mísseis, cada uma delas sendo representada por uma barra preta no canto inferior esquerdo da tela. Sua base fica no centro da tela e, se atingida, toda sua munição atual é perdida, obrigando-o a recarregar com um dos estoques reserva.

Se você esgotar os estoques, não poderá mais agir, e tudo que poderá fazer é aguardar o ataque inimigo terminar, rezando para que não atinjam as cidades que sobraram. Se você conseguir sobreviver à onda de ataques, todos os locais não atingidos e mísseis que sobrarem contarão pontos para seu placar e uma nova onda recomeça. O jogo termina quando você perder todas as cidades.
Quando uma cidade é atingida por um míssil, ela explode em um cogumelo atômico



Apesar da simplicidade, Missile Command possui mensagens políticas em seu design e também uma curiosa história de um peru que resultou em outro grande clássico daquele console: Demon Attack.

Uma mensagem política

Para sentir a importância de Missile Command, precisamos entender a época em que ele foi lançado. Estávamos no auge da Guerra Fria, período em que tínhamos quase certeza de que, algum dia, os Estados Unidos e a União Soviética (que hoje já não existe) se explodiriam e matariam todo o mundo com eles.
Ronald Reagan, presidente dos Estados Unidos em 1981
Lembro-me claramente de estar assistindo à televisão e ver nos noticiários o presidente dos Estados Unidos (na época, Ronald Reagan) fazer pronunciamentos prometendo mais armamentos, o que causava uma resposta equivalente por parte da União Soviética. Até eu, que era uma criança, sabia que o mundo estava em uma situação extremamente complicada, em que as vidas de todo o planeta dependiam de políticos apertarem ou não um botão.

O medo era muito real e permeava toda a cultura da época, aparecendo em filmes como RoboCop e Rocky IV. Posteriormente, já na década de 90, o filme O Exterminador do Futuro 2 também representou o medo da aniquilação nuclear fazendo uma referência explícita, com o jovem John Connor jogando Missile Command em um arcade.
John Connor jogando Missile Command numa cena de O Exterminador do Futuro 2
Inicialmente a proposta de Missile Command, concebida pela divisão de arcades da Atari, seria “aproveitar” esse climão maluco que estava acontecendo no mundo e fazer um novo jogo inspirado nas telas de radar, onde a União Soviética atacaria cidades dos Estados Unidos com mísseis nucleares e o jogador responderia contra-atacando com mísseis que destruiriam cidades soviéticas em retaliação.

O programador do jogo original, Dave Theurer, ficou horrorizado com a ideia de o jogador ser o responsável por arrasar cidades com armamento nuclear e matar milhares de inocentes. Em vez disso, modificou seu conceito básico e agora o jogador seria o responsável por defender as cidades, sem jamais contra-atacar.
Remake de 2007 para Xbox 360



Missile Command leva a algumas questões filosóficas muito mais profundas do que sua simplicidade aparente. Por exemplo, uma das maneiras de sobreviver mais tempo é defender as cidades mais próximas da base e deixar as mais distantes desprotegidas. Com isso, sua necessidade de movimentação é menor e sua chance de passar para a próxima fase é melhor, porém isso custará a vida de milhares de pessoas. Você sacrificaria vidas para ser promovido? Ou você pode tentar defender todas as cidades, ao custo de deixar a sua própria base descoberta. Você usaria seus últimos mísseis para proteger uma cidade distante em vez de guardá-los para proteger a si mesmo?

Um funcionário do peru

O port para Atari 2600 foi desenvolvido pelo programador Rob Fulop e foi um estrondoso sucesso comercial, vendendo mais de dois milhões e meio de cópias. Como bônus de Natal por fazer milhões de dólares para a empresa, Rob imaginou que receberia uma quantia por volta de 5 mil dólares, mas… a Atari recompensou-o com um cupom para um peru grátis, o que o deixou extremamente decepcionado.
Rob Fulop, o homem que portou Missile Command para os consoles

Com isso, o programador deixou a Atari e foi trabalhar para a Imagic, certamente inspirado pelo sucesso dos colegas que, também descontentes com a Atari, saíram e fundaram a Activision. Na Imagic, Fulop criou o fantástico Demon Attack, jogo que inaugurou o novo estúdio e se tornou um dos títulos mais vendidos de todos os tempos para o Atari 2600, e tecnicamente um dos mais avançados para o console, frequentemente entrando em listas de melhores jogos daquela geração.
“Esses caras são burros! Eu tinha 23 anos, ficaria maravilhado com um bônus de 5 mil dólares e estaria completamente motivado a fazer mais três jogos para a empresa” disse Rob em uma entrevista para a Paleo Tronic
Demon Attack, um dos jogos mais vendidos da segunda geração



Mas foi graças a Rob que Missile Command ganhou um port tão bom e se popularizou, especialmente no Brasil, onde a máquina de arcade era quase impossível de se encontrar. Com o Atari 2600 podíamos jogar em casa, e sem gastar fichas.
 
Missile Command foi posteriormente portado para diversas plataformas, como o Atari Lynx, o Game Boy e o Atari Jaguar. Também ganhou remakes para PC, PlayStation e Xbox 360. O remake mais recente é o de 2020, chamado Missile Command: Recharged (PC/Switch/Mobile).
Missile Command: Recharged, o remake de 2020 no Nintendo Switch



Lembro-me daquelas tardes na década de 80, com o cartucho de Missile Command espetado no Atari, controle na mão. Aquela mesma TV onde eu via os noticiários ameaçadores agora era uma tela de radar. Não interessava de onde os mísseis vinham, eu estava disposto a evitar que aqueles lugares – que na minha imaginação eram a minha própria cidade – se transformassem num cogumelo atômico. Não lembro quantas vidas eu salvei naquelas tardes com meu Atari, mas lembro que foi o primeiro jogo no qual eu estava decidido a proteger vidas, ao invés de atacar.
Revisão: Ives Boitano

é engenheiro eletrônico e tem uma filha fofinha que tenta morder os controles do papai. Curte jogos de luta, corrida e ação.


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