Discussão

Por que The Last of Us Part II (PS4) ainda incomoda tanto?

Lançado em meados de 2020, o jogo continua a despertar ataques e polêmicas.


Caro leitor, eu começo esse texto, logo de cara, com um desafio para você: achar uma publicação que fale sobre The Last of Us Part II (PS4) que não tenha dezenas de pessoas xingando o game. Acredite ou não, essa é uma tarefa quase impossível, o que parece meio contraditório, já que estamos falando do jogo mais premiado da história. 


The Last of Us Part II é, sem dúvidas, um game polêmico, seja pela premissa narrativa, considerada simples e previsível por alguns, seja pelas temáticas nele abordadas. É inegável, todavia, que a Naughty Dog, desde o princípio, assumiu todos os riscos e entregou um jogo denso e tematicamente relevante. Aqui, ficarei adstrito somente à discussão dos temas e, consequentemente, tentarei entender toda a antipatia que parte da comunidade gamer nutriu pela obra.

Escrito por Neil Druckmann e Halley Gross, o game nos aproximou de personagens antigos, aumentando seus sensos de humanidade e vulnerabilidade, e apresenta novos, como a Abby. Justamente nesse sentido, conhecemos novas camadas da própria Ellie, inclusive sendo apresentados à sua orientação sexual, o que gerou infindáveis críticas.

Infelizmente, por mais que existam alguns personagens esparsos, a comunidade LGBTQIA+ tem poucos representantes em posição de destaque nos games e é especialmente por isso que a sexualidade de Ellie tem tanta importância, principalmente no tangente à representatividade, algo tão almejado na cultura pop. Junto a isso, a aparência “masculinizada” de Abby e a identidade de gênero de Lev fomentaram um movimento de boicote ao jogo, inclusive ensejando ataques à equipe de produção.


Mas qual o motivo de tudo isso? Antes de entrar no mérito, cabe sempre rememorar que as opiniões aqui veiculadas não refletem necessariamente os posicionamentos de toda a equipe do GameBlast. Dito isso, vamos lá.

Uma comunidade tóxica


Falar que a comunidade gamer é conhecida pela sua toxicidade não é nenhuma novidade. Agora, isso obviamente não significa que todo mundo com um joystick na mão fique propagando ódio por aí. A parcela de gamers com atitudes questionáveis e desrespeitosas é sim significativa (o que mancha, inclusive, a visão externa da comunidade) e posturas agressivas e sexistas infelizmente são bem comuns. 

Muitos games passam a ter suas notas manipuladas e são boicotados antes mesmo de seus lançamentos, com ataques motivados geralmente por discordâncias ideológicas. Em relação a The Last of Us Part II (PS4), deixo claro que não considero o game perfeito e, mais do que isso, penso que nenhuma forma de conteúdo deve ser imune a críticas. O que acontece, porém, é que muitas opiniões viraram ataques de cunho preconceituoso e muitas pessoas que sequer jogaram o game começaram a perpetuar discursos agressivos e negativos. Tentarei, a segui,r explorar e desconstruir os principais argumentos que convergem nesse sentido.

“Aff! A Ellie é homossexual? Só fizeram isso pra lacrar...”



Bom, vamos por partes. Existem pessoas das mais diversas orientações na realidade, certo? Isso é um fato, independentemente de haver ou não uma aceitação social. Nesse passo, eu pergunto: o que a orientação sexual da Ellie muda nas nossas experiências como jogadores? Não muda nada. Por outro lado, talvez não signifique nada para alguns, mas significa algo para a comunidade LGBTQIA+, que muitas vezes tem a representatividade resumida a personagens secundários ou alívios cômicos.

Então não, o fato de existir uma personagem homossexual não significa lacração, mas uma representação da realidade. Todo mundo tem o direito de não gostar do jogo, mas usar esse argumento está longe de ser razoável ou respeitoso. A Ellie já tem que lidar com o preconceito dentro do jogo, por que trazer isso para fora? 

“Até transexual estão colocando agora? Qual a necessidade?”



Ah, o Lev... Talvez um dos personagens com a história mais trágica do jogo, o jovem serafita também foi alvo de muitos ataques nas redes sociais e, desafortunadamente, retrata a vida de muitos transexuais que passam por dificuldades de enquadramento e têm que lidar com a rejeição e o preconceito, mesmo no ambiente familiar. Do outro lado, existe uma crítica a respeito do chamado misery porn, que consiste na perpetuação da típica narrativa dos personagens trans: uma história pautada na dor e no sofrimento. No mais, em relação ao ódio pelo personagem, enquadro-o em tudo o que eu disse acima a respeito da Ellie.

“E essa Abby? Mulher com esse tanto de músculos nem existe. Coisa feia.”



Mas o que esperavam? Que ela saísse por aí, em um mundo pós-apocalíptico cheio de “zumbis” e outras ameaças, sem nenhum preparo físico? Queriam ela de minissaia e roupa colada? Realmente não dá para entender essa “necessidade” de sexualização do corpo feminino. Gostando do caráter dela ou não, temos que admitir que ela é uma baita personagem e sua força, tanto física, quanto psicológica, faz toda a diferença no seu desenvolvimento.

Resumindo: por que, afinal, The Last of Us Part II (PS4) é importante?


A verdade é que The Last of Us Part II tem muita coisa a dizer e, por mais que nem tudo altere a continuidade da trama, nada acontece por acaso. Talvez pareça só um jogo sobre vingança e consequências, mas é mais: é sobre amor, ódio, aceitação e medo. The Last of Us continua sendo uma das maiores e mais influentes franquias de jogos e cada uma das premiações mostra que crenças excludentes não podem e não devem mudar a virtude da obra, símbolo de representatividade e empoderamento.

Pode ser que não façamos parte dessa comunidade, mas ver as pessoas LGBTQIA+ representadas tem um significado muito grande, não acha? Por que não podemos comemorar juntos? Ah, e que também possamos criticar o que precisamos criticar, né? Desde que seja com respeito.

Concorda comigo? Discorda de mim? Se discordar, pode deixar que resolvemos essa questão em uma partida do multiplayer quando sair (espero, com todas as minhas energias, que realmente saia).

Revisão: Davi Sousa

é estudante de Jornalismo e Direito, atuando como escritor, podcaster e pseudocrítico, seja de cinema ou jogos. Sua paixão pelo mundo dos games começou logo cedo e ele sempre sonhou em viver uma grande aventura como Nathan Drake ou Lara Croft, desbravar o mundo Pokémon como o Red e ter a coragem e a determinação de Ezio Auditore. Contato: @rafael.isenof (Instagram); isenof.contato@gmail.com.


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