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Análise: Per Aspera (PC) mostra os desafios de uma IA em colonizar Marte

O título da independente Tlon Industries falha ao não explicar com clareza as suas complexas mecânicas.


Há alguns anos, tive o prazer de conhecer o board game Terraforming Mars, uma aventura na qual os jogadores buscam a transformação de Marte no novo planeta Terra, competindo entre si para alcançar a hegemonia. As excelentes lembranças com os tabuleiros me atraíram para Per Aspera (PC), game single player de estratégia em tempo real com o mesmo objetivo. Atuando como a inteligência artificial AMI, abriremos caminho para que o planeta vizinho seja habitável e enfrentaremos todos os perigos da delicada missão.

Uma conhecida expressão em latim, "per aspera ad astra", que significa "por ásperos (caminhos) até os astros", representa muito bem este jogo. Todas as suas mecânicas são desenvolvidas com maestria e, unidas, formam uma experiência completa do gênero RTS, mas há ainda um áspero caminho até a perfeição, principalmente em aspectos da experiência dos usuários no gerenciamento, que podem confundir até os mais veteranos. Ainda assim, é um prato cheio de diversão para os aventureiros dos jogos de estratégia.

Hora de terraformar

Em sua embrionária jornada interplanetária, a humanidade tentou inúmeras vezes popular o planeta vermelho, sempre sem sucesso. Agora, a expectativa é de que tudo será diferente, pois uma inteligência artificial será enviada ao planeta antes dos seres humanos, para que possa preparar todo o necessário para criar colônias habitáveis no planeta. Chamada de AMI, a consciência robótica é quem controlamos.

Em algum momento eu não estive no controle?

Em Per Aspera, o destaque fica por conta do modo Campanha, onde, além de gerenciar toda a estratégia de transformação de Marte em uma nova Terra, acompanhamos a trajetória de AMI em seus diálogos com os novos colonos e a ISA (agência espacial internacional). Além disso, podemos ver seu processo de autoconhecimento, ouvindo os próprios questionamentos da consciência acerca de suas capacidades e objetivos na relação com os seres humanos. Em um momento, por exemplo, estamos nos questionando se as decisões humanas são incorretas por levar em conta as emoções e se a escolha baseada na coleta de dados realmente nos dá sempre a resposta certa.

Em meio aos devaneios dos microprocessadores da protagonista, temos que lidar com o gerenciamento da missão de colonização. A premissa básica é a construção de estruturas, sempre conectadas numa espécie de rede, que têm funções específicas como a extração de minérios (alumínio, ferro, compostos, etc.), fabricação de produtos manufaturados e desenvolvimento de itens essenciais, como os trabalhadores e drones de manutenção.

Uma bela vista da dominação interplanetária.

Conforme cresce, a base terráquea em Marte torna-se capaz de implementar diferentes tecnologias por meio dos espaçoportos, permitindo o avanço para o objetivo final, que é tornar o planeta habitável. Os indicadores de progresso da missão são exibidos no canto superior esquerdo, por meio da temperatura atual, por exemplo. Avanços como a inserção de poeira preta sobre os polos para absorção de radiação e consequente derretimento das calotas polares permitem que o objetivo chegue mais rapidamente.

Além disso, o principal objetivo dos espaçoportos é a migração de colonos, que poderão realizar a exploração de estruturas abandonadas pelo planeta e desenvolver novas tecnologias por meio da árvore de pesquisa. Assim, diferentes avanços em estruturas, otimizações na extração de minérios e sistemas militares chegam ao jogo.

Se na forma de alguns parágrafos resumidos a ideia já parece complexa, imagine como fica a execução disso. São muitos fatores a se levar em conta em uma campanha de Per Aspera, como o tráfego de trabalhadores e sua carga de trabalho, o gerenciamento da rede de energia elétrica, a demanda e a produção de recursos. Mesmo com toda a orientação dada pela ISA e as missões na lateral da tela, fica difícil entender tudo o que está acontecendo.

Não pense que escapará da sua conta de luz no espaço.

Frequentemente travei em situações como a necessidade de recursos para uma construção específica e o motivo não ficou claro. Na construção de um hub de trabalhadores, por exemplo, mesmo possuindo os recursos necessários, eu não conseguia prosseguir. Analisei os gráficos de demanda de toda a cadeia de produção, a energia elétrica e defini a construção como prioritária, mas fui descobrir apenas mais tarde que o problema era a carga de trabalho dos operadores e eu precisava de mais deles.

O desentendimento acabou levando à ruína a minha primeira campanha de terraformação, mas serviu como experiência para a próxima. Porém, o que fez falta foi um guia mais adequado para todas as funcionalidades apresentadas. São tantos mapas de calor, demandas, recursos e pesquisas que é fácil se perder. A expansão para novas bases ao longo da superfície torna tudo ainda mais difícil.

Manter a integridade estrutural é essencial para prosseguir.

Por isso, a impressão que fica é que Per Aspera elabora com maestria um sistema de estratégia em tempo real, com mecânicas concisas e complexas, mas falha em ensinar todas elas ao jogador de forma amigável, deixando na mão dos mais experientes do gênero a compreensão. No fim, os fóruns da comunidade se tornam um excelente local para guiar o gameplay.

Explorando novos territórios

Mesmo que sua dificuldade em apresentar as mecânicas seja um fator de peso nesta análise, Per Aspera continua se mostrando uma experiência sólida. Seus dois únicos modos de jogo mostram o cuidado da desenvolvedora independente, a Tlön Industries, em trazer poucos modos de jogo mais elaborados. A diferença da campanha principal para o modo sandbox fica por conta da história, que é ausente no segundo, deixando o jogador livre para guiar suas escolhas. Essa liberdade nos deixa imaginando o infinito universo de caminhos que podem ser tomados para alcançar a terraformação de Marte.

Mesmo que não seja obrigatório, um modo multiplayer fez falta e poderia ser incluído no roadmap de atualizações do jogo. Inspirado no board game citado no início desta análise, o modo poderia trabalhar com diferentes organizações competindo para a hegemonia da terraformação, ou também unir os jogadores para um objetivo comum.

Na visão orbital, as possibilidades de intervenção no planeta são muitas.

Por fim, vale destacar que o suporte da desenvolvedora nos primeiros dias após o lançamento foi crucial para o sucesso do título, inclusive nesta análise. O desempenho gráfico foi melhorado significativamente nas atualizações iniciais e permitiu que a experiência ficasse jogável em um dispositivo que estava dentro dos requisitos. Além disso, erros de tradução para o português do Brasil foram se tornando menos frequentes.

O que tenho a dizer é que Per Aspera é uma sólida e concisa experiência do gênero da estratégia em tempo real. Sua diversidade de mecânicas o torna tão complexo que o leque de possibilidades parece infinito para cada nova aventura que se inicia. Essa imensa complexidade, porém, foi onde a desenvolvedora pecou, não apresentando todas as mecânicas de forma clara e, por vezes, prendendo os jogadores em deadlocks sem que eles entendam onde estão errando. Espero que o intenso suporte à comunidade dado até agora também corrija esses problemas.

Prós

  • Mecânicas completas e concisas;
  • Inserção de história em um jogo de estratégia;
  • Infinitas possibilidades de escolha garantem o replay com diversão;
  • Suporte à comunidade via patches.

Contras

  • Ausência de tutoriais sobre alguns aspectos mais complexos;
  • Sem modo multiplayer.
Per Aspera — PC — Nota: 8.5
Revisão: Davi Sousa
Análise produzida com cópia digital cedida pela Raw Fury

Fã de games desde o primeiro salto dado em Super Mario World, divide seu tempo entre experimentar algum indie ou rejogar um velho Pokémon. Mesmo sendo das engenharias, joga, escreve e é diretor de redação do Nintendo Blast nas horas vagas. Está sempre no Twitter como @niccomch.


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