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Análise: 13 Sentinels: Aegis Rim (PS4) é uma experiência essencial de ficção científica

Jogo combina uma aventura com estrutura narrativa fragmentada e RTS para construir uma obra verdadeiramente memorável.

13 Sentinels: Aegis Rim é o jogo mais recente da Vanillaware. Anunciado originalmente em 2015 para PS4 e PS Vita (versão esta que foi descartada durante a produção), o título seria a primeira obra de ficção científica da desenvolvedora, tendo seu lançamento ocidental confirmado pela Atlus ainda em 2017. No entanto, após alguns atrasos, o jogo foi lançado no Japão em novembro de 2019 e chegou ao Ocidente no dia 22 de setembro de 2020.

O gameplay alterna entre a fragmentada história de treze personagens por múltiplas eras e batalhas de robôs gigantes em tempo real. Essa combinação única, junto com o estilo artístico tradicional da empresa, é apenas um dos elementos que tornam a experiência do jogo verdadeiramente memorável.

Os 13 sentinelas e um caldeirão de conceitos de sci-fi

13 Sentinels conta a história de um grupo de jovens que um dia veem sua cidade ser atacada por criaturas gigantescas chamadas de kaiju (mesma categoria de Godzilla, Gamera e outros). Como último recurso para salvar a humanidade, eles são forçados a lutar em robôs gigantes, os Sentinels, que, por algum motivo, precisam ser ativados pela ID desses rapazes e moças especificamente.

Através das perspectivas desses personagens, o jogador tem uma trama fragmentada em que cada um aprende uma parte do que está realmente acontecendo. O resultado é uma trama complexa em que vamos gradualmente juntando as peças até chegarmos a uma visão global do que realmente está acontecendo. No meio do caminho, é apresentada uma variedade de conceitos de ficção científica, que a princípio podem parecer completamente desconexos.

Em termos de estrutura, após um curto prólogo, o jogo é dividido em três modos: Remembrance, Destruction e Analysis. O primeiro compreende a maior parte da trama, sendo apresentado em forma de jogo de aventura. Após escolher um dos personagens disponíveis, é necessário explorar curtos mapas 2D em busca de NPCs e áreas específicas para interagir. Em alguns momentos, travas de progresso acontecem para que o jogador avance na história de outros personagens ou realize algumas batalhas.

De acordo com o desenvolvimento da trama, algumas palavras-chaves são desbloqueadas. Cada personagem tem seu próprio grupo de palavras, sendo possível fazê-lo pensar sobre o que elas significam, uma forma simples de lembrar o que aconteceu na história até aquele momento. Além disso, elas podem ser usadas para acessar uma lembrança específica ou como um tópico de conversação para dialogar com outro personagem.

No entanto, vale destacar que a estrutura pode ser um pouco repetitiva. Uma boa parte das histórias segue uma fórmula, colocando o jogador para refazer determinadas ações cotidianas como se estivesse em um loop temporal. Avançar pela história de cada personagem também é mais rígido do que pode parecer inicialmente devido às restrições de palavras-chave obtidas.

Robô gigante vs kaiju

No modo Destruction temos as batalhas em estilo RTS (real-time strategy, estratégia em tempo real). Com 13 personagens jogáveis, cada um com seu próprio robô, é necessário montar um esquadrão de 6 pessoas para lidar com os kaiju. Essa escolha é importante, pois o uso das sentinelas implica em uma penalidade chamada Brain Overload; ou seja, não é possível ficar sempre usando a mesma equipe.

As batalhas são apresentadas em fases chamadas de waves, cada uma contando com a expectativa de tipos diferentes de inimigos. Existem kaiju terrestres e aéreos, aqueles que são mais rápidos, os encouraçados, os que atacam à distância, os que ativam escudos, os que explodem e muito mais. Uma descrição super concisa está presente no menu de escolha dos sentinelas, para que o jogador saiba qual tipo esperar e planeje a equipe adequada para essa luta. Há também missões especiais como “derrotar os inimigos em X tempo” ou “usar tais personagens”, cujo cumprimento leva ao desbloqueio de termos do dicionário do jogo.

Os robôs que podemos utilizar são divididos em quatro tipos referentes às gerações de sua fabricação. Os primeiros sentinelas são extremamente fortes para curta distância, mas boa parte dos seus ataques são voltados a atingir monstros terrestres, sendo os kaiju voadores imunes a eles. Já a segunda geração é equilibrada entre ataques de curta e longa distância, possuindo inclusive a habilidade de colocar armas automáticas de apoio ou guardiões que atraem o ataque inimigo.

A terceira geração é especializada em ataques à distância, com grandes áreas de efeito. Uma outra habilidade importante desses robôs é a possibilidade de usar ondas eletromagnéticas de larga escala. Esse ataque serve para fazer com que kaiju voadores caiam no chão, virando presas fáceis para os da primeira geração, por exemplo.

Por fim, o último grupo de sentinelas consegue voar pelo campo de batalha. Isso faz com que a sua movimentação seja muito mais ágil do que a dos outros, que precisam se locomover por trilhos pré-estabelecidos. As suas habilidades também são bastante variadas, incluindo escudos temporários para aliados, voar na direção dos inimigos e atirar mísseis de curta distância, e a invocação de drones auxiliares de ataque.

Além da diversidade de estilos de robôs, o jogo conta com um sistema robusto de upgrades. Cada batalha concluída leva não só ao ganho de experiência, níveis e novas habilidades para os personagens que participam do combate, como também à obtenção de pontos que podem ser gastos para melhorar os sentinelas. Novas armas podem ser obtidas, equipadas e fortalecidas, aumentando a sua força, área de efeito e outros atributos.


Além disso, outra forma importante de gastar os pontos é melhorando os terminais. Graças a eles é possível utilizar habilidades chamadas Meta-Skills, que incluem uma onda eletromagnética que atinge o campo inteiro, recuperação de HP e EP (pontos gastos para realizar ataques), escudos e outras formas temporárias de suporte, aumento na pontuação obtida em combate, etc. Esses poderes só podem ser ativados um número limitado de vezes (no nível máximo, são 4 usos) e é necessário uma barra cheia de Meta-Skill, o que demanda atacar e derrotar alguns dos inimigos primeiro.

Todos esses elementos contribuem para batalhas que ressaltam muito bem o seu aspecto estratégico. Como é necessário manter todo mundo vivo e impedir que o terminal seja destruído pelos inimigos, o desafio pode realmente demandar que o jogador se esforce bastante para coordenar as ações de todos os personagens. No entanto, caso você prefira um desafio menor, basta ajustar a dificuldade, sendo possível escolher entre Casual, Normal e Intense. Ao todo, a história conta com 38 batalhas, mas são liberadas ainda mais após o fim da campanha principal.

Uma obra maior do que a soma de suas partes


O terceiro módulo do jogo, Analysis, reúne termos importantes da história e cenas já visualizadas. Esse banco de dados recebe novas entradas conforme o jogador avança pela história, sendo alguns deles liberados ao obter um bom ranking nas waves ou cumprir os seus objetivos específicos. Vale destacar também que alguns dos termos ficam bloqueados na lista, sendo necessário gastar pontos obtidos em batalha para abri-los.

O avanço na história também adiciona novas camadas a cada termo. Por exemplo, um personagem pode ter uma descrição bem simples inicialmente, mas uma reviravolta de história irá adicionar mais detalhes sobre quem ele é. Dessa forma, o sistema Analysis permite que o jogador se aprofunde no universo estabelecido e tenha maior clareza do que já foi apresentado. Além disso, as cenas de história são organizadas de forma que possamos ter mais clareza da ordem dos eventos.

Além de tudo que já mencionei, é impossível não mencionar a extrema beleza do visual do jogo. Já é uma marca registrada da Vanillaware apresentar personagens e cenários 2D de tirar o fôlego com a sua riqueza de detalhes e alta qualidade estética. Em 13 Sentinels, um aspecto que chama bastante a atenção é a iluminação de ambientes, que dão uma sensação mágica à sua ambientação urbana. É impossível não se encantar com o resultado.

Também gostaria de destacar os personagens carismáticos, que são uma parte fundamental do que torna o jogo uma experiência forte, mantendo o jogador intrigado pelas backstories de cada um e pelos rumos que a história irá tomar. Mas esse jogo é mais do que só a história, os personagens, a arte ou o gameplay bem pensado. 

13 Sentinels: Aegis Rim é muito maior do que a soma de suas partes. É um título profundamente cativante, é algo indescritível, é, em uma única palavra, arte. Trata-se de um jogo essencial para literalmente qualquer pessoa com um PS4 e que eu pessoalmente gostaria de ver alcançar outras plataformas para que ainda mais jogadores tenham a oportunidade de vivenciar essa experiência.

Prós

  • A história é um mergulho excitante por um envolvente universo sci-fi;
  • Múltiplas perspectivas que se encaixam para formar uma trama complexa;
  • Batalhas em tempo real com múltiplas opções estratégicas;
  • Sistema robusto de upgrade de ataques e habilidades para os 13 robôs;
  • Os quatro tipos de sentinelas são bastante diversificados;
  • A seção Analysis ajuda o jogador a se aprofundar no universo com palavras-chaves e cenas do jogo organizadas para maior clareza;
  • Visual deslumbrante que já é marca registrada da Vanillaware;
  • Personagens carismáticos e intrigantes.

Contras

  • Alguns momentos da história podem ser um pouco repetitivos.

13 Sentinels: Aegis Rim  — PS4 — Nota: 10.0

Análise produzida com cópia obtida pelo próprio redator
Revisão: Davi Sousa


é formado em Comunicação Social pela UFMG e costumava trabalhar numa equipe de desenvolvimento de jogos. Obcecado por jogos japoneses, é raro que ele não tenha em mãos um videogame portátil, sua principal paixão desde a infância.


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