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Análise: The Pathless (Multi) é uma aventura ágil por um mundo visualmente estonteante

Corra e salte por vastos cenários neste título que conta com mecânicas inventivas de movimentação.


Fluidez define The Pathless, o novo jogo do estúdio Giant Squid (de ABZÛ). Na pele de uma caçadora acompanhada de uma águia, tentamos livrar o mundo de um grande mal em uma jornada por uma vasta ilha. O seu maior destaque é o criativo e estiloso sistema de movimentação, que é amplamente explorado em uma aventura de progressão majoritariamente aberta. O jogo encanta com sua ambientação e beleza, mas várias limitações e elementos subdesenvolvidos impedem que todo o seu potencial seja alcançado.

Enfrentando um matador de deuses

Um dia, um homem ambicioso conhecido como Deicida corrompeu os deuses e espalhou trevas por toda a Terra com suas ações. Muitos tentaram enfrentá-lo, mas todos foram derrotados. Uma Caçadora, a última de sua linhagem, é a única esperança, e ela viaja até a ilha dos espíritos para tentar dissipar a maldição sombria que assola o mundo. Lá, ela terá a ajuda de uma entidade transformada em águia, mas o Deicida vai fazer o possível para impedir a dupla.

Para alcançar seus objetivos, a Caçadora precisa explorar grandes regiões da ilha e libertar seus espíritos guardiões corrompidos pelo Deicida em uma aventura de mundo aberto. Em cada área, primeiro precisamos coletar selos mágicos, que estão escondidos em pequenos puzzles espalhados pelos cenários. Estes itens são utilizados para ativar grandes torres, que são capazes de conter as bestas para serem purificadas após uma batalha. Somente após libertar todos os espíritos que a heroína conseguirá enfrentar o Deicida. A campanha tem por volta de cinco horas de duração e pode alcançar o dobro ao tentar obter tudo.

O detalhe mais único de The Pathless é a maneira como a Caçadora se movimenta. Inúmeros talismãs estão espalhados pelos cenários e a personagem pode acertá-los para obter energia para correr ou para fazer uma investida durante os saltos. A garota mira automaticamente no alvo mais próximo, logo o foco é em continuar atirando para se mover com agilidade. Com a ajuda da águia, a personagem consegue planar pelo ar e bater as asas permite alcançar locais altos. Algumas poucas habilidades são desbloqueadas no decorrer da aventura, mas a essência dos movimentos não muda.
 


Saltando e correndo livremente por um mundo expansivo

The Pathless é um título de exploração de progressão livre: fora alguns poucos objetivos, podemos desbravar os ambientes da maneira que quisermos. Não há mapa, mas os pontos de interesse podem ser encontrados ao usar uma máscara que ativa um modo visual especial — trechos em vermelho ou amarelo indicam puzzles ou possíveis itens. A intenção é observar a topografia e investigar os locais, sem ordem definida. Na maior parte das vezes o desafio é descobrir como chegar até esses pontos com as habilidades da Caçadora.

Fora a movimentação, The Pathless tem inúmeros puzzles. Em ruínas de uma casa, precisamos lançar flechas por arcos para abrir portas; em outro local, o objetivo é acender tochas; já em um conjunto de pedras a Caçadora persegue mariposas brilhantes. A águia também ajuda na resolução dos enigmas carregando objetos que podem ser utilizados para ativar botões ou então arrastando espelhos ou argolas. Os selos mágicos são recompensa para a maioria deles, mas alguns também dão itens que permitem aumentar o número de vezes de bater de asas da ave no ar.


Apreciei a suavidade dos enigmas, mas logo eles se tornam cansativos. O motivo disso é que há poucos tipos de atividades que se repetem por toda a aventura, às vezes levemente mais elaborados — basicamente eles se resumem a lançar flechas em objetos e apertar botões. Há algumas variações, como áreas em que a águia não pode ser utilizada e pequenos calabouços mais complexos, mas não são suficientes para diminuir a sensação de repetição e simplicidade.

Enquanto exploramos, a besta corrompida vaga pelos cenários em busca da heroína. Quando o caminho dos dois se encontram, a ação muda o foco para a furtividade. Nestes momentos, precisamos resgatar a águia caída enquanto evitamos o monstro, abusando dos elementos do cenário para não sermos vistos. Além de quebrar o ritmo tranquilo da exploração, as partes de furtividade são mal pensadas e enfadonhas: é muito difícil evitar o monstro, pois há poucos locais para se esconder; e muitas vezes a cena já começa com a Caçadora sendo descoberta, o que resulta em derrota instantânea. Imagino que a intenção era trazer um pouco de tensão, mas senti somente irritação.
 



Uma vez purificadas todas as torres da área, é hora de enfrentar o espírito corrompido local em uma batalha. Na primeira parte do confronto, a Caçadora persegue a besta e precisa acertar os olhos espalhados pelo seu corpo enquanto desvia de perigos. A segunda parte normalmente acontece em uma arena, em um combate focado em ação: é necessário escapar de ataques e golpear no momento certo, às vezes com trechos de plataforma e aspectos de puzzle. Apreciei bastante estes embates, pois são intensos e exploram as mecânicas de maneiras criativas, mesmo que alguns se estendam demais.
 


Variando entre a empolgação e o marasmo

A minha característica preferida no jogo é a sua fluidez de movimentação. Controlar a ágil Caçadora é um deleite, pois sempre estamos correndo, flutuando e saltando de maneiras impressionantes. A mira automática descomplica a execução das ações, permitindo focar somente em aproveitar as sensações.

Boa parte da diversão vem de fazer vários movimentos em sequência, e inúmeras estruturas pelas áreas incentivam a experimentação — particularmente, gostei bastante de me manter no ar atirando em inúmeros alvos. Aspectos audiovisuais reforçam a sensação de flexibilidade e agilidade: o cenário fica borrado em momentos de velocidade, a câmera assume ângulos dramáticos, a Caçadora faz poses estilosas e as flechas fazem som de fogos de artifício quando são lançadas.

Assim como os trabalhos anteriores dos desenvolvedores, The Pathless utiliza o visual e o áudio para transmitir sensações. Aqui, é mais uma questão de liberdade com movimentação ágil, ambientes vastos que convidam à exploração e música pontual que reforça os momentos mais dramáticos e contemplativos. Os gráficos são tecnicamente simples, mas há charme nos pequenos detalhes, especialmente na aparência da Caçadora e em suas interações com a águia. Não é visualmente elaborado como ABZU ou Journey, mas agrada a seu jeito.

No entanto, alguns aspectos atrapalham o andamento. O mundo é vasto, mas às vezes é também vazio e simples demais — frequentemente ir de um lugar para o outro é uma ação simplesmente automática e desinteressante por espaços sem nada. Ir para lugares distantes ou revisitar áreas é custoso, pois não há viagem rápida. Além disso, as áreas são visualmente e mecanicamente parecidas demais entre si. Essas questões, somadas a outras escolhas subdesenvolvidas, impedem que o jogo alcance todo o seu potencial, por mais que seja divertido e interessante.
 


Uma experiência peculiar

The Pathless envolve com suas mecânicas ágeis e sensação de liberdade. É extasiante explorar o mundo na pele da Caçadora, que salta e corre com velocidade e estilo enquanto lança flechas contra alvos. A progressão é livre e os vastos cenários contam com muitos puzzles e informações de história, mas a variedade limitada se torna cansativa depois de algum tempo. O visual, a música e a ambientação montam uma aventura com ares contemplativos, no entanto a simplicidade de muitos dos aspectos incomoda. No fim, The Pathless oferece uma jornada única, mesmo que não muito memorável.

Prós

  • Sistema de movimentação ágil e flexível;
  • Mundo vasto com puzzles e segredos para desbravar;
  • Batalhas contra chefes empolgantes que exigem destreza e observação;
  • Ótimo tratamento audiovisual.

Contras

  • Puzzles parecidos demais entre si;
  • Áreas com muitos espaços vazios e desinteressantes;
  • Momentos de furtividade mal pensados que quebram o ritmo.
The Pathless — PC/PS4/PS5/iOS — Nota: 7.5
Versão utilizada para análise: PS4
Revisão: José Carlos Alves
Análise produzida com cópia digital cedida pela Annapurna Interactive

é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.


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