Blast Test

Banners of Ruin (PC) traz cartas e animais em um tenso e envolvente RPG roguelike

Este título indie combina características em um jogo sólido, mas ainda há muito a ser melhorado.


Em Banners of Ruin, dois clãs rivais de animais se enfrentam em um RPG de construção de baralhos. O jogo é claramente inspirado em clássicos do gênero (como Slay the Spire), mas conta com vários conceitos interessantes, como grupos com diferentes classes e personagens que sobem de nível e se fortalecem. Lançado no PC em Acesso Antecipado, o título impressiona com boas mecânicas e visual elaborado, mas ainda peca com questões de balanceamento e variedade de conteúdo.

Participando de uma sangrenta luta entre grupos adversários

Os animais da Casa Pés Pretos foram atacados pela Casa Ender, o que resultou em inúmeras baixas. Em busca de vingança, os membros da Pés Pretos decidem se infiltrar sorrateiramente na cidade Ponto do Amanhecer para acabar de vez com o grupo rival. A tarefa é complicada: além de ter que explorar as ruas labirínticas do local, os animais precisam também enfrentar a guarda armada, que é controlada pelos Enders. Muitos morrem tentando, mas outros membros assumem seu lugar na luta pela causa da Casa Pés Pretos.


Banners of Ruin utiliza essa premissa em uma aventura RPG regida por cartas. No controle de um grupo de animais guerreiros, exploramos a cidade Ponto do Amanhecer em várias atividades. Cada campanha oferece uma experiência única por causa da presença de elementos de roguelike: os eventos, cartas e personagens encontrados pelo caminho mudam a cada tentativa. Ser derrotado significa perder todo o progresso e recomeçar desde o início com um novo grupo. Conteúdo, como cartas e habilidades, é desbloqueado entre as partidas, o que aumenta a variedade aos poucos.

A jornada é dividida entre momentos de exploração e combate. Cada trecho do mapa conta com ruas com três cartas com eventos diversos, como lojas, santuários para recuperar a vida dos personagens, atalhos e embates. Os cartões têm um contador que diminui conforme resolvemos as situações e quando ele chega a zero a carta automaticamente é substituída por outra. Com um pouco de estratégia, é possível evitar eventos complicados com a ajuda desse sistema.


As batalhas são por turnos e contam com elementos de posicionamento e gerenciamento de energia. Em cada rodada, o jogador recebe uma mão com cartas com efeitos diversos, como ataque, geração de pontos de defesa e melhorias temporárias. Cada personagem tem dois tipos de energia: Resistência, que se regenera a cada turno, e Vontade, que só se recupera entre os combates. A maior parte dos cartões pode ser utilizada por todos, mas certas habilidades são exclusivas de certos personagens. Para sair vitorioso, é importante usar com inteligência as cartas e os pontos de ação dos aliados.

O fortalecimento dos heróis se dá principalmente ao incluir novas cartas no baralho, mas Banners of Ruin conta também com elementos de RPGs tradicionais. Ao subir de nível, os personagens recebem cartões exclusivos, habilidades passivas e aumento em um dos tipos de energia. Pelo caminho também é possível alterar o equipamento, assim como recrutar mais aliados. O jogo conta com seis diferentes raças de heróis, cada qual com especialidades distintas: os ursos têm muitos movimentos focados e poderosos, os ratos contam com ataques fracos que acertam várias vezes, as lebres são especialistas em infligir estados negativos, e assim por diante.
 


Desbravando ruas em uma jornada tensa

É difícil não se lembrar de vários outros roguelikes de construção de baralhos ao jogar Banners of Ruin, afinal a sua base é bastante similar a outros títulos. A luta entre clãs de animais tem vários méritos que se destacam, por mais que muitos aspectos ainda estejam incompletos ou desbalanceados.

As partes de exploração tentam retratar a sensação de um pequeno grupo explorando vielas estreitas de uma grande cidade; particularmente, gostei bastante dessa abordagem. Ter que escolher entre somente três eventos parece muito pouco, mas a mecânica de tempo traz aspectos estratégicos interessantes. Nas minhas tentativas, foram várias as vezes em que consegui escapar de um inimigo difícil ao escolher outras opções, mas também fui encurralado e derrotado ao fazer escolhas impensadas. As atividades em si são bem conservadoras, como lojas com novas cartas ou eventos com diferentes resultados de acordo com a escolha feita, no entanto funcionam bem.  


A ideia principal dos momentos de exploração apresenta uma base sólida. O problema é que, no estado atual, as campanhas de Banners of Ruin são extremamente parecidas entre si. O motivo disso é a variedade limitada de eventos, assim como a estrutura linear das partidas. Falta também um pouco de balanceamento: é comum ver cartas parecidas (e inúteis) aparecendo juntas e frequentemente, já lojas ou locais de recuperação de vida raramente surgem. Modificadores de campanhas tentam amenizar a questão da diversidade, mas não achei que são suficientes. Felizmente isso deve mudar no futuro com novas adições prometidas no roadmap.

Um ponto muito acertado é a ambientação. O jogo conta com inúmeras ilustrações belíssimas no estilo realismo fantástico: os animais são todos bípedes, porém um traço mais próximo do real dá um ar de sobriedade a eles. Uma trilha sonora com cordas, percussão e outros instrumentos tradicionais dita o tom soturno do mundo e a urgência dos combates. O texto já está em português e é bem escrito, mas o universo precisa de maior desenvolvimento, pois fora a descrição inicial, não há maiores explicações sobre a origem do conflito e as motivações dos personagens.
 


Cartas e decisões em um combate estratégico bem pensado

O meu aspecto favorito de Banners of Ruin é o seu sistema de batalha estratégico e repleto de nuances. Em sua essência, ele é mais um RPG por turnos cujas ações são determinadas por cartas, porém inúmeros detalhes o tornam bastante interessante.

O maior diferencial do jogo é a presença de vários aliados durante o combate, mas uma única mão de cartas. Por causa disso, precisamos pensar com cuidado quem vai fazer cada ação, o que às vezes cria decisões difíceis. Além disso, é necessário levar em conta também os cartões exclusivos dos heróis — erros no planejamento podem resultar em cartas que não podem ser utilizadas ou turnos desperdiçados. As ações dos inimigos são explicitadas na interface, permitindo reagir de forma consciente.


Como é de praxe do gênero, muitas das cartas têm sinergias entre si, o que oferece boa variedade de opções na hora de montar as estratégias. Em muitas batalhas, por exemplo, usava uma habilidade para aumentar temporariamente o dano da próxima ação para fortalecer um cartão que executava um golpe fraco três vezes. Já em outra campanha, me especializei em envenenar e sangrar os inimigos enquanto defendia as suas investidas.

O posicionamento das unidades também é importante. A arena é dividida em duas colunas e certas cartas mudam de efeito dependendo da posição. Além disso, as divisões do grupo inimigo atacam de forma alternada. Com as cartas certas, é possível impedir o ataque de oponentes ao movê-los para outra coluna, assim como evitar dano ao levar um aliado para um espaço seguro. É uma pena que no momento a quantidade de cartas de movimentação seja bem limitada; torço para que essas opções sejam expandidas no futuro.


Por fim, Banners of Ruin conta com sistemas de RPG e seis classes. As diferenças entre os animais são pequenas (como habilidades passivas e cartas exclusivas), mas ajudam a trazer diversidade. Aumentar o nível de um herói traz uma sensação palpável de evolução, por mais que seus atributos não mudem muito. Já o baralho em si é um pouco difícil de alterar: não existem opções para melhorar cartas e remover cartões é um pouco custoso. Do jeito que está funciona, mas acredito que o jogo seria mais interessante se as classes fossem mais distintas entre si e se a construção de baralhos fosse mais ágil.

Gostei do sistema de combate e dos leves elementos de RPG, mas há um ponto que o jogo precisa de muito trabalho: balanceamento. A dificuldade é estranha e com picos, com combates banais seguidos de encontros praticamente impossíveis. Alguns embates se arrastam por muito tempo, pois os inimigos têm quantidades absurdas de vida e armadura. Curar aliados ou recrutar novos heróis são ações raras durante as campanhas, tanto é que na maior parte das vezes só avancei com os dois personagens iniciais. Os desenvolvedores estão cientes destes problemas e alterações têm sido introduzidas constantemente para amenizá-los.
 


Uma aventura intensa que ainda precisa de ajustes

Banners of Ruin oferece uma interpretação interessante do gênero RPG com construção de baralhos. O combate é seu maior destaque ao contar com várias mecânicas elaboradas e muitas possibilidades na hora de montar as estratégias e de evoluir os personagens. Os momentos de exploração são mais conservadores, porém funcionam bem. O visual elaborado e o bom texto criam uma atmosfera envolvente, por mais que um pouco subdesenvolvida. Mesmo com tantas qualidades, o jogo ainda precisa melhorar bastante: a diversidade de conteúdo é muito limitada, a dificuldade é desbalanceada e o ritmo geral é irregular. No mais, Banners of Ruin mostra potencial e diverte, apesar de seus problemas.

Revisão: José Carlos Alves
Texto de impressões produzido com cópia digital cedida pela Goblinz Studio

é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.


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