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Análise: Taisho x Alice -Episode II- (PC): mergulhando mais fundo na toca do coelho

Com histórias mais pesadas do que o episódio anterior e uma excelente tradução para o inglês, o jogo é obrigatório para fãs de otome games.


Desenvolvida pela Primula, Taisho x Alice é uma visual novel otome lançada em formato episódico. Ela conta a história de uma jovem garota chamada Yurika Arisu, que, após acordar em um mundo sombrio, tem a oportunidade de se relacionar com rapazes baseados em contos de fada e salvá-los de suas aflições.


Enquanto o primeiro episódio era focado em Cinderela e Chapeuzinho Vermelho, o mais novo conta as histórias de Kaguya e Gretel. Com temáticas bem mais pesadas, o episódio 2 conta com duas narrativas envolventes, sombrias e bastante satisfatórias, ao mesmo tempo em que atiça a curiosidade do jogador para o próximo capítulo.

Kaguya ou Gretel?

Em um mundo sombrio, reencontramos a figura curiosa de Alice.
O jogo começa de forma similar ao anterior. A protagonista acorda sem memórias em um mundo sombrio e caminha a esmo até encontrar um jovem rapaz, que se apresenta como Alice. Tendo em mente que esse nome é a única coisa da qual ele se lembra, ele decide chamá-la de Arisu, um nome que soa igual em japonês.


Nessa cena inicial já é possível ver bem a dinâmica da localização, que valoriza os floreios e devaneios dos personagens em suas escolhas de expressões. Vale destacar que a cena tem algumas pequenas alterações e mesmo os trechos que já existiam no anterior são interessantes de ser relidos já tendo um pouco mais de contexto.
Kaguya é uma das opções vistas nos espelhos desta vez.
Após andar por um bom tempo, eles encontram espelhos que revelam o mundo de Looking-Glass. Yurika tem assim a oportunidade de escolher entre dois rapazes. Por um lado temos Gretel, que é baseado no conto de João e Maria, e por outro temos Kaguya, cuja história é inspirada no Conto da Princesa Kaguya.


Ambos foram apresentados no episódio anterior, mas estão em posições bastante diferentes devido às características específicas de suas histórias originais. Gretel agora é irmão de Yurika e sua personalidade pode parecer um tanto arrogante a princípio. Os dois vivem sozinhos e uma série de eventos pode abalar a relação entre eles. Já Kaguya prefere seguir o que os outros dizem, sem nunca se posicionar a respeito de nada. Após terminar com sua namorada, ele pede Yurika em namoro repentinamente e os dois decidem se conhecer melhor.
Quem dera a história fosse simples assim.
Assim como no episódio anterior, no entanto, as coisas não são simples. Conforme avançamos pela história, várias revelações sobre os personagens e seus passados acontecem graças à perspicácia da protagonista. Ambas as rotas envolvem tópicos bem pesados, que incluem estupro, psicopatia e suicídio.

Isso já era de certa forma esperado, considerando que o jogo anterior deixava indícios desse tipo de temática, mesmo tendo apresentado questões menos impactantes. Devido a isso é importante ter em mente que o conteúdo pode ser bastante desagradável de lidar. No entanto, os tópicos supracitados são parte fundamental da experiência, sendo necessária e esperada a repulsa, já que o jogo busca construir um envolvimento emocional entre jogador e personagens.

Sombras dos contos de fada

Doces são uma parte muito importante da história de Gretel.

Mesmo se considerarmos as rotas isoladamente, a obra conta com uma narrativa bastante envolvente. Um aspecto que contribui para isso é a utilização de elementos que se referem diretamente aos contos de fada. Como as obras originais são populares, com Kaguya sendo a menos conhecida no Ocidente, é divertido reparar em como Taisho x Alice faz a sua releitura.

Outro elemento fundamental e um dos pontos altos do jogo é a sua localização. A tradutora, Molly Lee, faz um trabalho sensacional na sua escolha de palavras, que fazem com que todos os diálogos fluam de forma natural e ao mesmo tempo sejam divertidos e reflitam bem as peculiaridades dos personagens.

Yurika chama atenção com suas falas e atitudes ousadas.

Além de Kaguya, Gretel e os outros rapazes, a própria protagonista é muito marcante e constantemente rouba o show com suas falas cheias de personalidade e decisões que podem até mesmo assustar o jogador. Yurika tem uma mentalidade bastante focada em cumprir seus objetivos custe o que custar. Ao mesmo tempo, ela é uma pessoa cheia de vida e bom humor, o que a torna muito carismática e interessante.


No Episódio 1 já era possível notar que a personagem era um tanto ousada e havia pistas de que há aspectos mais complicados por trás de sua personalidade. Agora já é possível ver como ela pode extrapolar limites de razoabilidade com muita facilidade. A complexidade de Yurika é sedutora e deixa o jogador em uma frequente tensão por não saber até onde ela é capaz de ir.

Obviamente, em se tratando de uma visual novel, também é importante considerar os aspectos gráficos e sonoros. Visualmente, Taisho x Alice é bastante atraente, com personagens masculinos que seguem o estilo bishounen e fundos bem detalhados. Existe um bom uso de posicionamento para indicar proximidade com os rapazes, que são os únicos com sprites.

Há também uma boa quantidade de CGs (imagens que funcionam como cenas especiais de visual novels) para destacar momentos importantes da história com Yurika e/ou seu possível par romântico. Em particular, vale mencionar as CGs de backstories, que utilizam um esquema muito bonito de sombras e silhuetas. Essa escolha artística reforça o tom de passado, de uma história no estilo conto de fada, como se fosse um vitral de uma antiga lenda.
O uso de silhuetas confere a algumas CGs um estilo marcante.
Em termos sonoros, se sobressaem os dubladores japoneses, única opção de voz do jogo. Junto com o texto, são eles que conferem vida aos personagens e fazem um papel muito bom em evidenciar suas características. Já a trilha sonora é bem empregada, se adequando de forma consistente ao contexto, mas com poucas músicas que realmente brilham.


O único aspecto verdadeiramente ruim no jogo é a falta de indicação de escolhas corretas. Já mencionei isso para o episódio anterior, mas essa falha acaba sendo ainda mais perceptível aqui. Enquanto a rota de Gretel é mais direta ao ponto, Kaguya exige uma série de escolhas corretas e conta com muitos finais ruins. O problema chega ao ponto de que pode ser necessário usar um guia, e a própria desenvolvedora compartilhou um fluxograma de escolhas para garantir que seja possível alcançar o final bom.

Uma indicação de quando se faz a escolha correta já seria suficiente para facilitar essa exploração da visual novel. Mesmo com esse pequeno problema, Taisho x Alice continua sendo um excelente exemplar do gênero. Mais do que isso, o Episódio 2 conta com rotas muito envolventes e de forte carga emocional. Para quem não se incomodar com os tópicos mais pesados da história, é um otome game obrigatório.

Prós

  • Excelente localização;
  • Protagonista carismática com falas e decisões cheias de personalidade;
  • Rotas bem escritas e satisfatórias, mesmo isoladamente;
  • Artes detalhadas de personagens e cenários, com um estilo especial durante backstories.

Contras

  • Sem indicação de escolhas corretas, uma das rotas pode exigir do jogador um guia.
Taisho x Alice -Episode II-  — PC  — Nota: 9.0
 Análise produzida com cópia digital cedida pela Primula
Revisão: Davi Sousa

é formado em Comunicação Social pela UFMG e costumava trabalhar numa equipe de desenvolvimento de jogos. Obcecado por jogos japoneses, é raro que ele não tenha em mãos um videogame portátil, sua principal paixão desde a infância.


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