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Análise: Necronator: Dead Wrong (PC) traz cartas e mortos-vivos em um roguelike estratégico

Este título indie apresenta ideias criativas, mas problemas de balanceamento e de variedade limitam o seu potencial


Um gênero em ascensão no cenário indie é o de construção de baralhos e, recentemente, foram lançados inúmeros títulos que exploram estes conceitos de maneiras variadas. Necronator: Dead Wrong expande a ideia de ações regidas por cartas ao apresentar também aspectos de estratégia em tempo real e pitadas de tower defense. Mapas pequenos e ritmo acelerado tornam as partidas ágeis, mas picos de dificuldade e elementos não muito desenvolvidos atrapalham a experiência do jogo para PC.

Espalhando o caos com um exército de criaturas das trevas

Em Necronator controlamos um comandante recém formado na Academia Morto-Vivo. O seu objetivo é claro: promover o terror e dominar as terras de VivsVivos, habitada por humanos. Com a ajuda de Chubat, um simpático morcego monstruoso, o anti-herói vai participar de inúmeras batalhas a fim de obter o glorioso título de Necronator, o maior dos necromantes. A temática pode parecer macabra, mas o jogo adota o tom de humor pastelão em uma atmosfera bem leve e divertida com texto completamente em português.

Em sua essência, Necronator é um título de estratégia em tempo real com alguns conceitos simplificados. Na maior parte das batalhas o objetivo é destruir o castelo inimigo e a principal maneira de realizar essa tarefa é por meio de batalhões de unidades. Uma vez invocados, os guerreiros se movimentam automaticamente em caminhos predeterminados no mapa em direção à base inimiga e às vezes é possível escolher rotas alternativas.


Todas as ações durante o combate são feitas por meio de cartas com efeitos diversos. Algumas invocam unidades na nossa base, outras ativam feitiços ofensivos ou defensivos, um terceiro tipo provê vantagens (como sacar mais cartões ou alterar atributos das cartas presentes na mão). Cada ação tem um custo de mana, que aumenta constantemente em uma taxa fixa, sendo que o efeito pode ser melhorado ao dominar cidades inimigas presentes em alguns mapas. O cerne da estratégia de Necronator está em escolher com cuidado a próxima ação: é necessário avaliar as cartas disponíveis na mão, o custo de mana de cada uma delas e até mesmo quando ativar seus efeitos. Muitos feitiços, inclusive, levam em conta a posição das unidades, pois seus alcances são limitados.

Durante a campanha construímos dinamicamente o baralho com a inclusão, remoção e melhora de efeitos das cartas, e esta ação é altamente tática: unidades fortes têm características adicionais, mas custam muita mana; já cartas baratas são versáteis, porém seus efeitos fracos podem ser inviáveis a longo prazo. Pelo caminho há também relíquias com variados efeitos passivos que influenciam fortemente as estratégias.


A estrutura da campanha do jogo utiliza recursos de roguelike para trazer variedade às partidas tanto na Campanha como no modo Infinito. O mapa é gerado proceduralmente, o que resulta em uma seleção distinta de batalhas, eventos e lojas. A oferta de cartas e relíquias muda constantemente, forçando a adaptação e experimentação. Como é de praxe do gênero, ser derrotado significa recomeçar tudo desde o início, mas há conteúdo desbloqueado entre as partidas, como novos baralhos iniciais, cartas e relíquias. O jogo conta também com suporte a mods e Oficina do Steam.

Diversidade estratégica nos combates

Necronator simplifica conceitos de estratégia em tempo real e títulos de construção de baralho, o que o torna fácil de aprender e jogar. Além disso, as partidas são ágeis, pois os mapas têm tamanho reduzido. O resultado é uma experiência acessível, mas sem deixar de ter momentos mais desafiadores. Em um primeiro momento pode parecer que basta jogar as cartas de qualquer jeito para vencer, mas, rapidamente, a jornada se complica e fazer escolhas cuidadosas se torna questão de sobrevivência.


O que mais apreciei no título foi a variedade na hora de montar as táticas, mesmo que as regras básicas não mudem. Há boa diversidade de unidades, feitiços e relíquias, e com um pouco de cuidado é possível montar ótimas sinergias. Em uma partida, por exemplo, minha estratégia focava em usar muitas magias de ataque em conjunto com uma relíquia que automaticamente invocava unidades ao utilizar esse tipo de carta. Já em outra, produzia batalhões fracos e baratos e os fortalecia com outros cartões.

Os comandantes também alteram sensivelmente o ritmo de jogo. No lançamento, dois capitães estão disponíveis, e um terceiro será adicionado no futuro. Soldado 7 se concentra em invocar unidades, e seus feitiços permitem fortalecê-las. Já Mirabella conta com mais mana e batalhões estáticos que podem ser jogados em diferentes partes das rotas, lembrando um pouco o gênero tower defense. Novos baralhos iniciais para cada um deles, cartas e relíquias são liberados aos poucos, incentivando a jogar de novo — gostei bastante de testar as várias possibilidades.


Algumas limitações táticas

A mistura de conceitos de Necronator é bem interessante e é divertido participar de combates em tempo real controlados por cartas. No entanto, infelizmente, o jogo apresenta algumas questões problemáticas que atrapalham profundamente a experiência. Os comandos, por exemplo, às vezes não funcionam muito bem: em alguns momentos a câmera se move quando estamos tentando definir a área de ativação de um feitiço ou então o marcador de alvo simplesmente desaparece. A precisão é importante nesse tipo de jogo e estes problemas atrapalham o andamento.

Já a dificuldade carece de balanceamento. Pela campanha é muito comum vencer batalhas sem muito esforço, bastando simplesmente chamar todos os batalhões disponíveis. De repente, do nada, aparecem fases absurdamente difíceis e praticamente impossíveis em que os inimigos contam com vantagens e unidades poderosíssimas. Isso aconteceu comigo em várias partidas, mesmo eu tentando diferentes abordagens, e é muito frustrante quando isso surge — é como se o meu planejamento e a minha estratégia não valessem de nada.


A variedade de conteúdo nas partidas é outro ponto negativo do jogo. Mesmo com aspectos procedurais, as campanhas apresentam mapas muito similares entre si, mesmo nos diferentes biomas da jornada. Além disso, na maior parte das batalhas, basta utilizar a mesma abordagem para vencer — o que é uma pena, afinal há boa diversidade de cartas e relíquias. Comandantes inimigos com poderes únicos tentam trazer variedade aos embates, mas os efeitos negativos são parecidos e de pouco impacto. Por causa disso, com o tempo, a sensação de repetição é acentuada. Acredito que diferentes tipos de missões, mapas mais complexos e situações que permitissem outras estratégias tornariam o jogo mais interessante.

Estratégia limitada

Necronator: Dead Wrong é um título de tática e cartas com ótimas ideias. A curiosa combinação de estratégia em tempo real, montagem de baralhos e gerenciamento de tropas cria situações interessantes em batalhas ágeis por mapas de tamanho reduzido. Há boas possibilidades na hora de montar o arsenal do comandante com cartas, relíquias e poderes, e novas opções aparecem constantemente. No entanto picos de dificuldade desagradáveis, batalhas simples demais e variedade limitada de conteúdo atrapalham a experiência com o passar do tempo. No fim, Necronator é um jogo de estratégia que diverte, mas que acaba não explorando completamente seu próprio potencial.

Prós

  • Sistema de jogo único que mistura cartas, tower defense e estratégia em tempo real;
  • Diferentes cartas e relíquias possibilitam variadas opções táticas;
  • Ambientação leve e com texto bem humorado.

Contras

  • Dificuldade desbalanceada em muitos momentos;
  • Variedade reduzida de mapas e desafios;
  • Pequenos problemas nos comandos.
Necronator: Dead Wrong — PC — Nota: 7.5
Revisão: José Carlos Alves
Análise produzida com cópia digital cedida pela Modern Wolf

é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.


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