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Análise: INMOST (Multi) — puzzles e plataformas em um mundo soturno

Acompanhe três diferentes personagens neste jogo que se destaca por sua atmosfera tensa.


INMOST, logo no início, já mostra as suas intenções: contar uma história inquietante e impactante. Para alcançar esse objetivo, este título de plataforma e puzzles emprega uma atmosfera sombria, que traz uma constante sensação de desconforto e tensão. O resultado é uma experiência imersiva, mas que acaba tropeçando em alguns problemas em suas mecânicas e narrativa.

Um homem, uma garota e um guerreiro em tramas interligadas

Em INMOST acompanhamos três diferentes personagens: uma garotinha que se vê presa em uma estranha casa, um guerreiro feroz que enfrenta criaturas sombrias a mando de um ser maligno e um homem que explora as cercanias repletas de perigos de um castelo. No começo não é muito claro, mas aos poucos percebemos que suas histórias estão fortemente interligadas — os elos não são tão explícitos, logo é importante atenção para entendê-los.

Cada um dos protagonistas apresenta um estilo de jogo distinto. Os trechos da garota evocam o estilo de aventura e investigação, exigindo explorar a sua casa em busca de pistas. As partes do guerreiro são focadas na ação: o objetivo é derrotar inimigos com sua espada, além disso ele conta com um gancho para alcançar locais distantes e um movimento de esquiva para escapar de perigos. Já os momentos do homem misterioso consistem em puzzles misturados com plataforma, sendo que certas partes do mapa só podem ser acessadas por meio de itens específicos.


A progressão de INMOST é linear, mas controlamos os personagens alternadamente durante a história, que dura por volta de quatro horas. Mesmo com foco na narrativa, há conteúdo opcional na forma de colecionáveis espalhados pela campanha do homem misterioso e também algumas conquistas. É possível acessar livremente qualquer capítulo já terminado, facilitando revisitar áreas ou cenas específicas.

Experimentando três estilos distintos

Três diferentes estilos de jogo e ambientação bem trabalhada fazem com que INMOST seja uma experiência envolvente. A qualidade entre os gêneros varia bastante, mas as trocas de protagonistas ajudam a amenizar os problemas.

A jornada do homem misterioso foi a minha favorita, justamente por apresentar as mecânicas mais elaboradas. Nestes momentos, INMOST se torna uma aventura de puzzle e plataforma por uma região bem interessante. Pelo caminho, o personagem precisa resolver vários enigmas para prosseguir, normalmente envolvendo algum elemento do cenário. Em uma parte, por exemplo, a dificuldade é acessar uma plataforma aparentemente inalcançável — depois de explorar um pouco, você descobre que basta derrubar caixas para usá-las como escada. Já em outro trecho, uma criatura sombria patrulha um corredor e é necessário arranjar uma maneira de tirá-la dali. Muitos trechos exigem itens específicos para interagir com elementos do cenário (como uma picareta ou uma faca), e há vários colecionáveis para encontrar.


No entanto, algumas questões atrapalham fortemente os trechos do homem. Muitas das soluções dos puzzles são bastante obtusas e com dicas praticamente inexistentes. Em um momento, por exemplo, precisava alcançar uma alavanca para abrir uma porta, mas tentáculos negros impediam o acesso. Depois de muitos minutos tentando diferentes estratégias, por acaso apertei para baixo em um trecho e, magicamente, o personagem acessou uma área escondida que me permitia continuar. Esse tipo de situação é recorrente e foram inúmeras as vezes que eu fiquei preso em algum canto sem a mínima ideia de como prosseguir. Há também muitos momentos de tentativa e erro com mortes instantâneas difíceis de entender a solução, atrapalhadas por controles que nem sempre respondem bem. Esses problemas trazem irritação e até mesmo frustração.

As partes da menina são mais lentas e com maior foco na narrativa. Nelas, a garota e seu coelhinho de pelúcia exploram uma casa em momentos bem lineares. Normalmente seus desafios envolvem chegar a algum lugar, como alcançar o sótão, e para isso a menina arrasta objetos, como cadeiras. As mecânicas em si são simples, mas as partes de história são envolventes e até mesmo impactantes. Assim como nos trechos do homem, há alguns problemas com controles nem sempre responsivos e soluções obscuras, mas o impacto é diminuído por causa do escopo reduzido e do ritmo mais lento.


Por fim, há os trechos estrelados pelo guerreiro. Neste momento, INMOST se torna um simples jogo de ação cujo objetivo é derrotar todos os inimigos que aparecem pelo caminho. Eventualmente o personagem usa um gancho para alcançar locais distantes para, em seguida, continuar a matança. Para mim, este é o aspecto mais fraco do título, pois a simplicidade é banal: basta apertar o botão de ataque repetidamente e pronto. Às vezes precisamos esquivar de um inimigo ou atacá-lo pelas costas, mas, no geral, não é necessário estratégia alguma. Esta é uma ideia interessante para trazer ação ao jogo, porém, no fim, não faz tanta diferença.


Em um mundo desconcertantemente belo

Um dos focos de INMOST é a narrativa e ele utiliza uma atmosfera bem construída para contar suas histórias. O jogo conta com visual impressionante que mistura pixel art propositalmente em baixa resolução, uma paleta de cores reduzida e iluminação dinâmica, resultando em um mundo misterioso e sombrio. A mescla de elementos traz um ar de “jogo de Game Boy moderno”, mas há muitos momentos belos pela história. Sentimentos como solidão, melancolia, desespero e pesar são reforçados com uma trilha sonora suave com pianos.


A trama é contada por meio de várias cenas angustiantes e até mesmo desconcertantes. Em um trecho, por exemplo, o homem misterioso escapa por um triz de uma criatura das sombras com garras imensas, sendo palpável o sentimento de tensão e perigo. Já a história da garota é repleta de melancolia, com a presença constante de chuva, muito uso de sombra e monólogos. Violência e desespero são os temas do guerreiro, explorados na forma de encontros com criaturas bizarras. Fiquei impressionado com os temas abordados, principalmente alguns mais delicados.

A narrativa tem várias linhas, mas ela não é explorada de forma direta. No começo é tudo confuso, e só no final do jogo um narrador aparece e amarra melhor as três narrativas — infelizmente sem a sutileza do restante do jogo. Mesmo assim, muitas das questões têm interpretação livre e várias correlações ficam sem explicação, sendo necessário prestar muita atenção aos detalhes para conseguir montar tudo. Apreciei essa abordagem livre e enigmática, mas confesso que apreciaria um pouco mais de clareza.


Um conjunto de jornadas instigantes

Uma atmosfera envolvente é o maior destaque de INMOST. Acompanhar as tramas dos três protagonistas é simultaneamente atraente e inquietante por causa dos vários temas abordados e das cenas impactantes. Um visual com poucas cores, iluminação repleta de contrastes e música suave ajudam a montar a ambientação sombria. Mecanicamente, o jogo apresenta boa variedade de estilos com puzzles, ação, momentos de plataforma e investigação. Infelizmente há alguns problemas, como aspectos subdesenvolvidos, soluções nada intuitivas e constante tentativa e erro, o que traz frustração. No fim, INMOST é uma experiência breve e interessante ainda que com falhas.

Prós

  • Atmosfera soturna bem construída com a mistura de visual, música e cenas impactantes;
  • Três diferentes personagens com estilos de jogo distintos;
  • Boa combinação de puzzles e momentos de plataforma.

Contras

  • Muitos puzzles com soluções obtusas, forçando constante tentativa e erro;
  • Alguns trechos apresentam mecânicas subdesenvolvidas;
  • Controles nem sempre responsivos.
INMOST — PC/Switch/iOS — Nota: 7.0
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Ives Boitano
Análise produzida com cópia digital cedida pela Chucklefish Games

é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.


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