Kingdom Hearts: Dark Road (Mobile) — uma avaliação do que o título tem a oferecer

Jogo de celular lançado na semana passada apresenta batalhas repetitivas e pouca recompensa até o momento.


Iniciada no PS2, a série Kingdom Hearts ficou conhecida por se espalhar por vários sistemas com uma diversidade de jogos que constroem uma narrativa muito rica em detalhes. Dark Road, o mais novo título da franquia, foi lançado na semana passada para celulares como parte do aplicativo Kingdom Hearts Union χ [chi] e é um primeiro passo para a narrativa pós-KH3.


No entanto, o que ele realmente oferece? Vale a pena investir tempo no jogo? Este texto pretende avaliar o atual conteúdo de Dark Road, que conta apenas com seu primeiro capítulo. Vale lembrar primeiramente que, por se tratar de um título mobile em andamento, é possível que as atualizações ao longo do tempo o transformem em algo mais polido e interessante.

O passado de Xehanort

Um aspecto muito importante de Kingdom Hearts é o seu lore ainda em expansão. Cada entrada traz uma nova perspectiva e elementos para uma narrativa cada vez mais detalhada. No caso de Dark Road, a abordagem nos leva a conhecer a perspectiva de Xehanort, principal vilão da série até o momento, quando ainda jovem saiu de Destiny Islands e começou sua jornada que, em algum ponto, se transformou em um caminho para as trevas.

Ao chegar em Scala ad Caelum, Xehanort se tornou um dos discípulos do Mestre Odin ao lado de Eraqus (de Kingdom Hearts: Birth by Sleep) e quatro personagens introduzidos no novo jogo: Hermod, Urd, Bragi e Vor. Ainda novatos no uso da Keyblade, o grupo recebe a missão de procurar por seus veteranos desaparecidos.

Enquanto exploram os mundos de Agrabah e Wonderland, os personagens logo se veem atacados por grandes quantidades de Heartless. Durante o capítulo 1, eles ainda estão no início das buscas, mas revelações em uma cena situada quatro anos depois indicam que desenvolvimentos sinistros estão por vir.

Batalhas ad infinitum


Dark Road é um jogo bastante simplificado, reduzindo o gameplay ao combate. Não há nada de exploração de mundo, apenas batalhas sucessivas que seguem um modelo de tempo real, com um sistema bastante específico. A ideia é que o jogador tem uma mão de cinco cartas e é necessário selecionar três delas para realizar um ataque.

Cada carta se enquadra em uma de três cores: azul, verde ou vermelho. Selecionar aquelas que têm a mesma cor implica em um combo que fortalece o golpe, chegando a duplicar o seu poder para 3 cartas de cores iguais. Apenas o efeito da primeira é ativado, o que inclui não apenas dano físico e mágico, mas também efeitos de cura e buff. Novas cartas podem ser adquiridas em um modelo gacha (ou seja,de forma aleatória) caso o jogador gaste joias. Essa moeda in-game, que é a mesma de Union χ, é obtida na conclusão de algumas missões do Dark Road ou com dinheiro real.

O problema é que, por mais interessante que esse sistema seja a princípio, Dark Road decide forçar o jogador a cumprir missões absurdamente demoradas para poder avançar na história. É difícil sentir que o esforço vale a pena quando precisamos “derrotar 500 heartless em Agrabah” e objetivos similares para conseguir um fragmento mínimo de valor do jogo.

Com isso, a próxima etapa natural é deixar o título no automático. Em batalhas automáticas, o jogo escolhe as cartas em um bom ritmo, dando prioridade a magias de cura e os melhores ataques disponíveis. Buffs e poções são ignorados, mas, honestamente, nesse ponto eles fazem pouca diferença nas batalhas.

Afinal, o desequilíbrio entre os níveis faz com que um personagem possa permanecer infinitamente em batalhas simples ou não aguentar nem 10 batalhas seguidas contra criaturas mais poderosas. Com isso, sair do modo automático só faz sentido em batalhas contra oponentes do mesmo nível que o protagonista, mas há grandes lacunas nas opções atuais.

Quests, missões e os outros elementos do jogo


Atualmente, o jogo conta com três ranks para os dois mundos, sendo eles progressivamente mais difíceis com maiores ganhos de BP (pontos que são gastos para aumentar de nível). Escolher um deles leva o jogador a batalhas subsequentes infinitas até morrer ou optar por sair. Pouco tempo após começar, contanto que o jogador tenha a carta da Minnie (que cura o Xehanort), já é possível apenas deixar o rank 1 no automático sem a possibilidade de perder.

Após concluir as missões que aparecem no canto superior da tela, é possível avançar para a próxima parte da história, que usualmente envolve mais batalhas contra grupos menores (usualmente contra um chefe mais poderoso ao final). Tanto nas batalhas de mundo quanto nas de história, Xehanort é acompanhado obrigatoriamente por Eraqus e um dos outros personagens.

Esses aliados também realizam ações e o jogador pode escolher o terceiro membro da equipe de acordo com o que considerar mais vantajoso. Hermod é focada em ataque, Bragi usa Protect para reduzir o dano tomado, Urd usa Blizzard e Vor se especializa em aumentar o poder das magias. Na prática, ainda não dá para sentir a diferença. Mesmo sendo visível que cada um usa golpes diferentes, o peso da batalha recai, na prática, em Xehanort.

Já os eventos oferecem pequenos trechos de combate mais vantajosos. Gastando chaves obtidas em missões, o jogador pode lutar contra heartless que dão mais BP. Também há três níveis de Feat of Strength, cuja recompensa é um bilhete para ter a chance de invocar cartas mais poderosas. Dificilmente o jogador atualmente conseguirá bater algum deles fora o primeiro. Há também um desafio para obter joias que é completado ao vencer 30 batalhas consecutivas cuja dificuldade vai aumentando progressivamente.

Por fim, o jogo também tem um sistema de missões, que servem para recompensar o jogador por certos feitos. BP, chaves, cartas e joias são alguns dos pagamentos que ele oferece, mas assim como nas missões de história, o esforço necessário é muito maior do que o valor real da recompensa.

O vazio das trevas


De forma geral, o que está disponível de Dark Road atualmente está longe de ser um jogo interessante. Ele não apenas comete o pior erro de Kingdom Hearts: Union χ [chi], que é a sua repetição exaustiva pensada para artificialmente estender o jogo, como acaba sendo mais razoável deixá-lo no automático para não morrer de tédio.

Mesmo que manter o jogo no automático fosse a proposta, o título não apresenta nada que torne essa experiência mais agradável, como a possibilidade de deixar as batalhas acontecendo em segundo plano no celular. Ainda que ele possa apresentar valor para a narrativa geral da série, enquanto não houver grandes mudanças de qualidade de vida em sua apresentação, trata-se apenas de “batalhas vazias sem fim”.

Revisão: João Pedro Boaventura

é formado em Comunicação Social pela UFMG e costumava trabalhar numa equipe de desenvolvimento de jogos. Obcecado por jogos japoneses, é raro que ele não tenha em mãos um videogame portátil, sua principal paixão desde a infância.


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