Samba de Amigo (Dreamcast): 20 anos contagiando jogadores de todo o mundo com ritmos latinos

Com o sucesso de Dance Dance Revolution, da Konami, nos arcades, a SEGA decidiu lançar seu próprio fliperama musical e, consequentemente, portando-o para seu mais recente console: o Dreamcast.

A geração 32-bits introduziu o mundo tridimensional no entretenimento eletrônico, mas a 6ª geração de consoles, com todo o poder de seus 128-bits, deixou claro que os videogames poderiam ser mais do que “meros” aparelhos de jogos, mas também um centro multimídia completo. Além disso, apresentaram ao mundo que o entretenimento eletrônico poderia ser bem mais do que jogos de luta, corrida ou ação e aventura.


Embora jogos rítmicos não fossem uma novidade — em 1998 a Metro Graphics já havia lançado Boost a Groove para o PlayStation —, os arcades Dance Dance Revolution, lançados em 1998, traziam outra forma de interação além-controle mesmo para os não aficionados por jogos. No ano seguinte, a SEGA publicou Samba de Amigo como arcade, mas em 2000, decidiu portá-lo para o Dreamcast, sob a tutela do Sonic Team.

Como se joga isso?

Diferente de Dance Dance Revolution, em que o jogador precisa fazer movimentos físicos reais pisando sobre a seta indicada na tela dentro do tempo especificado, Samba de Amigo limitava-se a fazer com que o usuário utilizasse maracas: um sensor de movimento no arcade e nos controles reconheceria se os mesmos foram executados corretamente como indicado no monitor.

No port para o Dreamcast, o jogo era acompanhado não apenas por um par de joysticks especiais, como também por um tapete que possuía sensores próprios, emulando as funções do arcade. Em tempos de Wii Motion Plus, Move e Kinect, isso não é difícil de se visualizar, mas na época era algo bem diferente e divertido.
Um típico kit Samba de Amigo.


O jogo possui quatro modos, sendo eles Arcade, Original, Challenge e Party, além de três níveis de dificuldade: Easy, Medium e Hard. Arcade e Original são quase idênticos, senão pelo fato de que no primeiro o jogador terá de um a dois estágios (a depender do nível de dificuldade, cada um com três canções a serem executadas), enquanto no segundo o jogador poderá escolher inicialmente uma canção que já esteja desbloqueada, num total de seis. Novas músicas são disponibilizadas conforme o usuário avança em Arcade ou Challenge.

Challenge consiste em uma série de desafios para o jogador, que variam desde atingir determinada pontuação ou obter um ranking, como B ou A. Em tempo, Party é uma série de minigames e desafios, seja no modo Battle, em que os jogadores disputam entre si ou mesmo no modo “Love Love” (como é conhecido no Japão), onde os participantes trabalham em conjunto para averiguar sua “compatibilidade”.

Samba no nome, mas não nos ouvidos

É bacana que um jogo lançado no mundo todo carregue não apenas um nome local, como referencie um dos mais importantes ritmos de nossa cultura. Por outro lado, há basicamente nada do samba propriamente dito no jogo. A bem da verdade, há toda sorte de músicas latinas oriundas de grupos e artistas como Ritchie Valens, Los Del Río, Deee-Lite e Bellini, além de remixes mais “latinizados” e “animados” de canções de sucesso do A-Ha (Take On Me, executada pela banda Reel Big Fish) e do grupo Chumbawamba (Tubthumping); artistas brasileiros, de fato, inexistem.
A essa altura, como brasileiro, não sei se apenas usufruo do jogo ou se me sinto insultado, visto que utilizaram toda sorte de ritmos latinos — alguns dos quais desconhecidos do grande público, como o flamenco (que por sinal, adoro) — e mesmo de canções de artistas europeus, mas nenhum nacional, a despeito do “Samba” no nome do jogo. Isso soa ainda mais estranho diante da proximidade da SEGA com o Brasil, seja mediante a antiguíssima parceria com a Tectoy, seja pelo afeto que o Japão sempre devotou a Ayrton Senna.

A despeito disso, o jogo é muito divertido e é uma forma diferenciada em se explorar o potencial do Dreamcast, em especial com um amigo, já que Samba de Amigo possui opção para dois jogadores.

Música, cores e carisma em mais de uma versão

Para aqueles que ao menos tenham visualizado em algum momento a arte de divulgação do jogo, “Amigo” é o nome do tal macaquinho com maracas e usando um sombrero que ilustra a capa da mídia, sendo então acompanhado por uma onça dançarina (enquanto outra onça toca um violão), um sol de bigode, serpentinas, caixas de som, personagens de papel, uma garota-abelha gigante e toda sorte de luz psicodélica durante a jogatina.
O jogo original possui 14 canções de artistas como The Champs, Quincy Jones e Masao Honda, além dos mencionados acima. Além dessa versão, foi lançada a Ver. 2000, para arcade e Dreamcast exclusivamente no Japão, sendo basicamente o mesmo jogo, contudo, acrescido de 14 novas canções, que agora incluíam Carlos Santana e finalmente um brasileiro, Jorge Ben, além de outros artistas. Seis outras canções estavam disponíveis para a versão caseira do game mediante download.

Novos modos de jogo foram inseridos, tais como Survival — consistente no jogador executar uma cadeia de canções em sequência —, Hustle, que insere novos movimentos para as maracas, como entorná-las em 360º ou mesmo ficar em pose estática. Todas as canções lançadas anteriormente foram adaptadas para o modo Hustle em Ver. 2000.

Ports e sucessor espiritual

Com o fim da guerra dos bits na 7ª geração de consoles, um novo aparelho tinha todo o potencial para receber Samba de Amigo: o Wii. A Gearbox Software foi a encarregada de encabeçar a empreitada e, com autorização da SEGA e consultoria do Sonic Team, o título foi lançado em 2007 para o console da Nintendo.

Além de receber quase todo o repertório das duas versões anteriores, Samba de Amigo para Wii recebeu 23 novas canções (excluindo as obtidas mediante aquisição por download), além de estágios baseados em Sonic The Hedgehog e Space Channel 5. Todos os modos de jogo exclusivos no Japão em razão da Ver. 2000 estão disponíveis no novo console, além de um modo exclusivo: Career, em que os jogadores podem desbloquear itens, sons de maraca e canções adicionais.
Outro aspecto interessante da versão para Wii é a possibilidade em se utilizar os Mii como personagens. Ainda assim, diversas análises, inclusive a do NintendoBlast, apontaram problemas na execução e nos controles do jogo.

Há um porém em relação aos sensores de movimento do console da Nintendo em relação ao Dreamcast: ao contrário dos sensores do aparelho original, o Wii Motion Plus e o Nunchuck não possuíam a capacidade de registrar a altura em que as maracas foram erguidas pelo jogador, logo, o acerto destes comandos é confirmado pelo ângulo do Wii Motion, enquanto o analógico do Nunchuk pode auxiliar nesse caso.

Logo após o lançamento da Ver. 2000, a SEGA disponibilizou Shakatto Tambourine para arcades e Dreamcast, similar a Samba de Amigo, contudo, o controlador agora tinha o formato de um pandeiro. Além disso, as canções latinas deram espaço a artistas do j-pop.

Dez anos: já vimos Guitar Hero, Band Hero, DJ Hero e… Donkey Konga: vale a pena?

Jogos rítmicos foram um dos grandes destaques da 7ª geração, especialmente na franquia Guitar Hero, inaugurada ainda na 6ª geração de consoles e Just Dance. Fugindo dos tradicionais pop e rock, Samba de Amigo traz uma série de canções latinas — e outras “latinizadas” — que não perdem o pique um minuto sequer.


Os controles são bem precisos (no arcade/Dreamcast, claro) e a possibilidade em jogar com um amigo melhora a experiência consideravelmente. A despeito da Ver. 2000 (a mais completa para o Dreamcast) ser adstrita ao Japão, o jogo original é capaz de divertir qualquer um que aprecie esse estilo de jogo, seja com o jogo tradicional ou com os modos de jogos e minigames disponíveis.

Destaca-se, inclusive, que o jogo foi muito bem recepcionado pelo grande público em seu lançamento, seja na versão arcade, seja na caseira, além de receber boas críticas da mídia especializada. No final da contas, o que importa é que seja divertido — e isso ele faz com maestria.

Revisão: José Carlos Alves

Mineiro, apaixonado por livros, música, filmes, discussões, Magic: The Gathering e, claro, jogos eletrônicos.


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