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Análise: Kingdom Two Crowns: Dead Lands (Multi) — administrando um reino em uma estratégia minimalista

Muito conteúdo, novas mecânicas e até mesmo um crossover com Bloodstained são os destaques do terceiro jogo da série indie.


Kingdom é um título indie de estratégia que nos convida a administrar e expandir um reino por meio de mecânicas simples, mas com campanha de alto desafio. Kingdom Two Crowns é o terceiro capítulo da franquia e inclui várias novidades, como aventuras mais elaboradas, mecânicas inéditas e modo cooperativo para dois monarcas. Além disso, o jogo conta com campanhas temáticas com conteúdo único, sendo uma delas inspirada em Bloodstained: Ritual of the Night. O resultado é uma experiência mais completa que mantém a essência minimalista do original ao mesmo tempo em que explora ideias interessantes.

Construindo um reino por meio de ouro

Kingdom pega os principais conceitos de estratégia e administração e os condensa em um jogo minimalista 2D. Na pele de um monarca montado em um cavalo, o objetivo é construir e expandir um reino em uma ilha. Para isso, usamos ouro: moedas são utilizadas para recrutar súditos, construir muros, melhorar estruturas, fabricar armas e até mesmo coordenar ataques. Os comandos são extremamente simples, com dois botões para se mover e um terceiro para usar moedas.

Construir defesas e um exército é importante, pois durante a noite o reino é atacado pelas Ganâncias, bizarras criaturas em busca de ouro e riquezas. Muros impedem o avanço dos monstros, permitindo que os arqueiros ataquem. Gerenciar os recursos e expandir as defesas é essencial, pois a cada dia que passa as incursões dos monstros ficam mais agressivas. O reino acaba quando a coroa é roubada, logo proteger o monarca também é importante.


Um novo mundo que pode ser governado por dois

No primeiro título, as ideias simples funcionavam bem, mas depois de um tempo as limitações tornavam a ação repetitiva. Novas versões introduziram mecânicas para tornar a ação mais completa, e Two Crowns é o ápice desse processo. O jogo expande as ideias da série com várias camadas de complexidade sem nunca deixar de lado a sensação de “estratégia minimalista” do original. A novidade mais notável é um modo cooperativo: dois jogadores podem administrar o reino juntos, o que facilita bastante a tarefa. O multiplayer pode ser aproveitado tanto localmente como online.

Assim como o segundo jogo, Kingdom New Lands, a aventura de Two Crowns se passa em inúmeras ilhas. A essência ainda é expandir os domínios ao construir uma vila e contratar súditos, porém cada localidade conta com desafios e recursos únicos. A evolução dos reinos é dividida em três eras (madeira, pedra e metal) que exigem adquirir tecnologias escondidas em diferentes localidades — explorar com cuidado todas as ilhas é essencial para evoluir.


Muitos elementos inéditos tornam o mundo de Kingdom mais rico. Fora novas estruturas e unidades, Two Crowns conta com diferentes montarias com habilidades únicas, como um grifo veloz ou um imenso lagarto cuspidor de fogo. Há também a presença de diferentes estações do ano, sendo que o Inverno é brutal e exige preparação prévia para ser sobrevivido. Por fim, a luta contra as Ganâncias tem novidades e conseguir derrotá-las de vez é um desafio e tanto. Diferentes campanhas temáticas mudam a arte e alguns elementos, com o Japão feudal em Shogun.

Dessa vez, perder a coroa não é o fim. Quando um rei morre, seu descendente arrume o trono e parte do legado é mantido, como estruturas desbloqueadas por meio de joias (um dos novos recursos do jogo) e parte das estruturas. O novo governante precisa refazer algumas coisas, mas essa persistência parcial de elementos torna a derrota menos frustrante. No modo cooperativo, o monarca sobrevivente pode fazer uma nova coroa para o outro jogador.

Entre o deslumbre e a frustração

Kingdom sempre me cativou com sua união entre simplicidade, estratégia, exploração e constante sensação de descoberta. Os comandos são bem simples, mas há complexidade a ser dominada — gastar o dinheiro com sabedoria é essencial. Além disso, cada ilha tem detalhes a serem desbravados, como tesouros escondidos e estruturas estranhas. Two Crowns aumenta o escopo com a presença de mais ilhas e várias outras mecânicas, o que torna o pacote mais completo.

Ao contrário de outros títulos do gênero, Kingdom é uma experiência mais suave, com seu ritmo lento e contemplativo. Boa parte das vezes estamos só cavalgando pela ilha pensando no próximo passo e é ótimo observar o ambiente: a arte em pixel art é bela e bem construída, com bom uso de iluminação para fazer contrastes. Já durante a noite a tensão tem vez durante os ataques das Ganâncias, principalmente quando o monarca está longe das paredes protetivas ou quando você sabe que as defesas montadas não foram suficientes. É deslumbrante ver o reino crescendo aos poucos, partindo de uma simples cabana para um imenso castelo de pedra. A topografia se altera de acordo com nossas ações e aos poucos o lugar fica repleto de pessoas e atividades.


Fora o tutorial simples no início, Kingdom não explica nada e nos convida a experimentar constantemente. É um recurso interessante que incentiva testar diferentes abordagens, no entanto essa abordagem também é problemática. Funções de estátuas mágicas e outras estruturas, quando ativadas, não são completamente explicitadas. Sendo assim, é perfeitamente possível perder muito tempo investindo recursos valiosos em algo inútil naquele momento. O problema é que, às vezes, isso significa em perder horas de planejamento, comprometendo drasticamente o avanço. Informação é um recurso essencial em um jogo de estratégia, e Kingdom é bastante sovina nesse aspecto.

Comandos simples tornam o jogo acessível, afinal não há menus e regras complicadas para aprender, e com o tempo e com experimentação entendemos como fazer ações importantes, como ordenar um ataque conjunto. Porém as mecânicas simplificadas limitam um pouco as estratégias, sendo impossível controlar ou alterar diretamente alguns aspectos. É comum, por exemplo, situações em que arqueiros se concentram em uma das bordas do reino enquanto a outra está completamente indefesa. Como não é possível movê-los, o reino fica à mercê dos inimigos.


Por fim, o jogo apresenta ritmo irregular. Em alguns dias você vai cavalgar aleatoriamente sem fazer nada, em outros mal há tempo hábil para fazer o necessário. Também é custoso se recuperar de um ataque mal defendido, o que deixa as coisas um pouco frustrantes. A repetição também aparece aqui: quando você vai para uma nova ilha, precisa recomeçar a vila do zero, repetindo as mesmas ações de sempre. Felizmente Two Crowns tem alguns recursos para amenizar esses problemas, mas não deixam de incomodar.

Um mundo sombrio em Dead Lands

Kingdom Two Crowns conta com diferentes campanhas temáticas. Shogun usa o Japão feudal como inspiração, com florestas de bambus, samurais, ninjas. Algumas poucas unidades e mecânicas funcionam de maneira levemente diferente, mas, no geral, é mais uma alteração visual.


A mais recente adição ao jogo foi Dead Lands, uma campanha inspirada no último projeto de Koji Igarashi, Bloodstained: Ritual of Night. A principal novidade dessa expansão é a presença de personagens do metroidvania: a shardbinder Miriam, o caçador de demônios Zangetsu, o alquimista Alfred e o vilão Gebel. Cada um dos monarcas especiais conta com um poder exclusivo, como os cristais paralisantes de Miriam e a habilidade de se mover rapidamente na forma de morcego de Gebel. É possível alternar entre eles durante as partidas.

Montarias inspiradas no jogo, como o cavalo-demônio Gamigin, uma criatura-árvore capaz de criar barreiras e um besouro gigante que enterra armadilhas, estão presentes em Dead Lands. Agora é possível mudar livremente de montaria, recurso este não presente na campanha principal. Fora isso, os personagens exploram as Dead Lands, uma terra sombria e estranha inspirada na atmosfera gótica de Bloodstained: as ilhas são repletas de árvores retorcidas e com brilho estranho, habitantes bizarros, florestas repletas de névoa, música tensa e misteriosa, e mais. Mesmo assim, é fácil ver que muito do visual é uma modificação da campanha padrão — esperava mudanças mais profundas, afinal Bloodstained tem inúmeros monstros e cenários que poderiam ser utilizados como inspiração.


Os poderes dos monarcas convidados alteram sensivelmente a experiência de Two Crowns, pois oferecem mais possibilidades estratégicas e mais envolvimento direto durante as partidas. Particularmente, gostei bastante de Miriam e seus cristais paralisantes (perfeito para congelar inimigos enquanto os arqueiros atacam), e da forma de morcego de Gebel (ele voa bem rápido, o que torna ágil a exploração e movimentação).

Construir um reino é muito envolvente

Kingdom Two Crowns cativa com sua interpretação minimalista do gênero estratégia. Criar e expandir um reino na companhia de um monarca que age diretamente é empolgante por causa da presença de elementos de construção, administração e defesa. Two Crowns expande os conceitos da série com muitas novidades, como montarias com diferentes habilidades, mais opções de unidades e estruturas, e muitos segredos. A atmosfera suave e calma ainda se mantém com momentos contemplativos pontuados por trechos tensos em que tentamos defender o reino de monstros. A simplicidade é elegante e acessível, porém algumas mecânicas limitadas e constante tentativa e erro tragam um pouco de frustração.

A expansão gratuita Dead Lands, em especial, oferece um crossover ótimo com Bloodstained: Ritual of the Night. Além de apresentar atmosfera mais sombria, a nova campanha traz conteúdo inédito interessante, como monarcas e montarias. E os personagens do metroidvania, como Miriam e Gebel, foram bem inseridos no mundo de Kingdom, e suas habilidades abrem novas possibilidades de jogo. No fim, Kingdom Two Crowns é uma experiência imersiva, sendo muito divertido mergulhar nesse mundo e aprender suas particularidades.

Prós

  • Interpretação minimalista interessante do gênero administração de reino;
  • Boas camadas de estratégia e complexidade bem aplicadas em um sistema simples de comandos;
  • Vasta quantidade de conteúdo espalhada por diferentes campanhas temáticas;
  • Ambientação notável com belo mundo em pixel art e trilha sonora suave.

Contras

  • Muitos detalhes e mecânicas mal explicados, o que resulta em situações frustrantes de tentativa e erro;
  • Limitações em algumas regras e comandos deixa o andamento rígido em alguns momentos;
  • Ritmo irregular e com um pouco de repetição.
Kingdom Two Crowns: Dead Lands — PC/PS4/XBO/Switch/iOS/Android — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PC
Análise produzida com cópia digital cedida pela Raw Fury

é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.


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