Jogamos

Análise: Ion Fury (Multi) usa a nostalgia para trazer as qualidades e os defeitos de um FPS dos anos 90

Direto do túnel do tempo, o game desenvolvido pela Voidpoint é divertido graças à sua simplicidade.


Ion Fury (Multi) é um jogo de tiro em primeira pessoa desenvolvido pela 3D Realms com o motor gráfico utilizado em Duke Nukem 3D (Multi), de 1996. O resultado é um título nostálgico, repleto de adrenalina e com qualidades e defeitos vindos diretamente da década de 90.

Um filme de ação sob o controle do jogador

A protagonista de Ion Fury é a policial Shelly “Bombshell” Harrison, cuja missão é impedir os planos de conquistar Neo DC do maléfico Dr. Heskel e suas criaturas horrendas. E é basicamente essa a história do jogo. A bem da verdade, o game adota o estilo “atire primeiro, atire depois” em praticamente 100% do tempo de campanha. A personalidade ácida e sagaz de Shelly só é apresentada ao jogador por meio de suas falas esporádicas durante a aventura. Parte dessas falas são referências a filmes e séries clássicas, como Duro de Matar e Breaking Bad. É bem divertido ouvir essas referências, mas, por serem poucas, o jogador logo irá se cansar de ouvir “Yippee ki-yay, motherfucker!” repetidas vezes.

Munição pode ser coletada por todo o cenário, assim como itens de saúde e armadura. O jogo, bem como títulos mais clássicos como Doom, Quake e Duke Nukem, conta com uma movimentação veloz da protagonista, o que é excelente para explorar rapidamente os amplos cenários e encarar as hordas de soldados e monstros do Dr. Heskel. Para incentivar ainda mais a exploração, há inúmeros segredos escondidos pelas fases. Encontrar esses segredos e derrotar os inimigos melhoram a classificação do jogador ao final da fase.



Há uma variedade interessante de inimigos em Ion Fury. Cada um conta com armas e padrões de ataques diferentes, e derrotá-los é uma tarefa tranquila para Shelly, ao menos na maioria das vezes. A policial tem à sua disposição um arsenal explosivo e diverso, com submetralhadoras de balas incendiárias, uma escopeta poderosa que se transforma em um lança-granadas, uma balista que pode ser carregada para atirar mais flechas de uma vez e até mesmo uma metralhadora giratória tão forte que a empurra para trás quando disparada.

As batalhas contra chefes são poucas, mas interessantes em um primeiro momento. Uma ou outra chega a ser memorável, no entanto. Em sua maioria, consistem em apresentar um novo inimigo com uma barra de vida no topo da tela. Esse inimigo acaba aparecendo em versão “sem barra de vida” em outros momentos da jogatina, o que drena ainda mais a chance dessas batalhas serem memoráveis.

Lá e cá outra vez

99% de Ion Fury é resolvido na base de balas e explosões. O 1% restante fica por conta de trazer alguns quebra-cabeças modestos para o jogo, que exigem situações como ativar botões e válvulas aqui e acolá, pisar em botões no chão e encontrar cartões de acesso coloridos em uma área para então obter acesso a outra com os referidos cartões. E é aqui que se encontra a repetição mais enfadonha do jogo.



A busca por cartões amarelos, azuis e vermelhos é uma constante em Ion Fury. Não necessariamente nessa ordem, mas o jogador deve encontrar o cartão azul para desbloquear a área para o amarelo e então usá-lo para conseguir o vermelho e avançar para o trecho final da fase. Esse processo se repete à exaustão por toda a campanha. É uma reminiscência de shooters antigos, e funciona na maior parte do tempo. Porém, poderia ser um recurso utilizado com menos frequência.

Há uma certa verticalidade nas fases, o que complementa bastante seus layouts e disposição de inimigos, dando maior variedade à exploração e ampliando as possibilidades de ações durante os combates.

Visualmente clássico

Ion Fury replica os visuais oriundos de 1990, com texturas de cenários feitas em pixels e colocadas de forma que passem a sensação visual de 3D para o jogador. Inimigos, armas e demais objetos são feitos em sprites, com animações competentes e bastante convincentes. Para quem está acostumado apenas com jogos modernos e gráficos ultrarrealistas, o visual pixelado e os sprites podem causar certa estranheza, mas a fluidez da jogabilidade e os desafios dos tiroteios tornam a experiência bastante prazerosa.

Embora os cenários sejam majoritariamente urbanos, com uma paleta de cores acinzentada predominante nas ambientações, o título desenvolvido pela Voidpoint oferece uma iluminação competente, com uma variação de cores muito bem-vinda em algumas partes do cenário, assim como nos momentos de combate por meio dos tiroteios e das explosões. Em áreas abertas, o jogo mostra ainda mais sua beleza visual, com um céu colorido bem bonito e folhagens, grama e árvores bem verdes dando mais vida aos cenários.



Para um jogo feito a partir de um motor gráfico mais antigo, era de se esperar que os consoles atuais conseguissem rodá-lo de forma quase perfeita. O que se tem, no entanto, é uma experiência com bastante momentos de lentidão. O game roda, na maioria do tempo, a 60 frames por segundo, mas há diversas ocasiões em que o jogador irá experimentar slowdowns visíveis. Para um jogo cuja precisão é muito importante em seus combates de movimentação rápida, essas lentidões podem atrapalhar um pouco na hora de acertar os tiros.

Ion Fury (Multi) é um jogo de tiro em primeira pessoa extremamente competente em sua premissa nostálgica. Os inimigos são bem desafiadores, o arsenal de armas é variado e explosivo e o frenesi está presente tanto nos combates quanto nos momentos de exploração, graças à rapidez com que Shelly se movimenta. Os layouts das fases são bem bacanas e incentivam bastante a exploração. Triste mesmo é ter que frequentemente encontrar cartões coloridos para progredir. No geral, é um excelente jogo. É uma boa pedida para os veteranos que cresceram com o estilo visual e de jogabilidade dos shooters da década de 1990, bem como uma ótima opção para quem está acostumado com títulos modernos, mas deseja conhecer como eram o estilo precursor dos jogos atuais.

Prós

  • Rapidez da movimentação e dos combates;
  • Arsenal variado;
  • Combates divertidos, desafiadores e frenéticos;
  • Diversos segredos espalhados pelas fases que incentivam a exploração.

Contras

  • Uso excessivo de cartões coloridos durante as fases como sistema de progressão;
  • História praticamente inexistente e repetição constante de falas da protagonista;
  • Excesso de slowdowns em diversas situações.
Ion Fury — XBO/PS4/PC/Switch — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: Xbox One
Revisão: Ives Boitano
Análise produzida com cópia digital cedida pela 3D Realms 

Escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.


Disqus
Facebook
Google