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Análise: Below (Multi) apresenta uma experiência desafiadora e intrigante

Prepare-se para entrar em território hostil, repleto de túneis, masmorras e labirintos em uma jornada ao centro da escuridão subterrânea.


Below tem forte inspiração no subgênero de RPG conhecido como roguelike, ao trazer os cenários criados de forma randômica, a característica visão de cima do protagonista e um alto grau de dificuldade marcado pela morte permanente. Ainda assim, seu grande trunfo reside em sua atmosfera totalmente misteriosa que atiça a curiosidade de forma constante, levando até os mais precavidos a situações descuidadas. Prepare sua lanterna, traga muitos mantimentos e embarque conosco nessa expedição ao centro da terra.

Teste de sobrevivência

A campanha em Below começa de forma despretensiosa. O início da campanha começa com um belo cenário estrelado, com uma passagem bem vagarosa e que aos poucos vai trazendo o foco para nosso singelo aventureiro em seu barco rumo à encosta da praia que marcando o começo da nossa jornada. Munido apenas de dois frascos para coletar água, uma tocha, um escudo e uma espada.



A partir daí estamos por nossa conta e risco, pois o jogo não faz a mínima questão de qualquer tipo de introdução a objetivos, aspirações, narrativa ou qualquer tutorial. Para não ser injusto, ele pelo menos explica a mecânica da lanterna – item fundamental na exploração – e como acessar o mapa. Todo o resto deve ser aprendido na prática. O coração no topo da tela que representa a saúde do explorador é sustentado por três ícones fundamentais: fome, temperatura e frio. Conforme executamos ações, a necessidade de se alimentar e hidratar fica evidente, levando-nos a entender que é preciso procurar por comida e água potável.

A fauna e a flora locais nos apresentam os recursos necessários para sobreviver. Vegetais podem ser colhidos em determinados pontos e, ao estar munido do armamento apropriado, é possível caçar animais silvestres como raposas, ratos e peixes. Felizmente, grande parte desse aprendizado vem de forma intuitiva conforme nos deparamos com a necessidade. Pelo trajeto, encontraremos local para acender uma fogueira. Nela é possível preparar sopas nos frascos que carregamos ao combinar alimentos. Se adicionarmos cogumelos à receita, a refeição recebe bônus especial. Por exemplo: cogumelos vermelhos dão acréscimo ao poder de ataque, já os azuis retardam a fome e a sede, etc. Ao gastar o combustível da lanterna, podemos transformar a fogueira em ponto de checagem a fim de facilitar o trajeto em caso de morte.



Mais adiante na aventura, ganhamos a habilidade de dormir nessas fogueiras, o que nos leva a um local especial: uma espécie de depósito do aventureiro. Nele existem baús e armários preparados para estocar comidas, itens e equipamentos que não iremos utilizar. A maior característica desse lugar é que o item armazenado aqui passa a ser compartilhado pelos próximos aventureiros, caso o seu venha a morrer. Esse é um artifício interessante já que ao morrer todos os pertences do falecido herói permanecem em seu cadáver até que o próximo aventureiro possa saqueá-los.



Um simples sistema de construção de equipamentos está presente no inventário. Nele é possível utilizar três matérias-primas para obtenção de um único item. Junte um graveto, uma brasa e um fio de tecido para adquirir uma tocha. Novamente, não há nenhuma forma de aprender essas fórmulas previamente. Felizmente, é possível testar combinações e cancelar o resultado antes de consumir os itens. Essa mecânica é muito útil para liberar espaço no inventário sem a necessidade de largar o item no chão para tal. Embora o item não suma enquanto permanecer vivo, a necessidade de estar sempre se alimentando nos obriga a evitar revisitar antigas passagens.



O subterrâneo nunca foi tão bonito

As paisagens em Below são encantadoras. Mesmo com as limitações por se tratar de um jogo indie, a iluminação, o balançar da água e a atmosfera sombria das profundezas do subterrâneo esbanjam um charme único. O silêncio é predominante durante a jogatina, para dar o tom de se estar em um ambiente inóspito. Contudo, em alguns trechos específicos, como ao descobrirmos uma construção de uma antiga civilização, uma singela sinfonia mescla muito bem com a situação dando o ar de descoberta e suspense.



O próprio visual do protagonista, apesar de aleatório, me passou a impressão de conter traços de vestimentas peculiares a diferentes povos. Na minha primeira tentativa, o meu aventureiro vestia uma longa túnica, dando a entender que pertencia ao Oriente Médio. Ao morrer com ele, o próximo candidato tinha cabelo loiro e uma longa barba, algo característico do continente europeu. O jogo não menciona nada a respeito, sendo aqui apenas uma teoria plausível da minha parte.



Não tenha medo do escuro

A jogabilidade durante a exploração das fases subterrâneas se mostra bastante ardilosa. Nosso guerreiro é capaz de desferir ataques simples e carregados, além de correr e se esquivar. Dominar esse conjunto de manobras é fundamental para passar aos próximos níveis. Animais silvestres permanecem inofensivos até serem atacados. O grande inimigo está justamente na escuridão. Além de atrapalhar com a constante necessidade de carregar algumas tochas e até gastar as preciosas pedras utilizadas na lanterna, ela dá vida a criaturas sombrias marcadas com uma pequena luz vermelha. Sua versão mais fraca morre com apenas um golpe de espada, porém, as outras versões apresentam mais resistência e até a capacidade de bloquear seus ataques.



Eliminar essas criaturas é fundamental, pois elas deixam pedras de luz, recurso necessário para manter a luz da sua lanterna e prosseguir no jogo. Na tarefa de dar cabo desse tipo de inimigo, além da nossa espada e escudo, contamos com arco e flecha, lança, entre outros equipamentos. Até mesmo a resistência pode ser aprimorada com armaduras e capacetes. Esse último apresenta uma grande diversidade de modelos e efeitos: o capacete de cristal gera uma luz própria que diminui a necessidade de gastar a lanterna, já o elmo sombrio reduz o dano recebido, especialmente de criaturas das sombras.



A partir do terceiro nível, passamos a encontrar as terríveis armadilhas de espinhos, o terror do aventureiro desavisado. Uma simples pisada em sua área de efeito causa a morte instantânea. Felizmente, mas não sem antes morrer algumas vezes, descobri que era possível ativá-las com golpes de espada ou ao atrair criaturas hostis. A luz da lanterna é capaz de ressaltar esse tipo de perigo, auxiliando durante a exploração, mas, caso você tenha a mesma sorte que eu tive em morrer nessas arapucas, você vai passar a identificá-las até na escuridão mais profunda.



Com tantos perigos, alguns deles capazes de te matar instantaneamente, vem à tona a grande necessidade de cautela ao jogar. Contudo, não hesite em explorar o mapa de um nível por completo. Os andares muitas das vezes apresentam passagens secretas que levam a atalhos para a superfície (semelhante à série Souls) e que recompensam com itens novos ou até esferas especiais utilizadas para aumentar o espaço de armazenagem no depósito.



Onde os fracos não têm vez 

Não se engane ao ponto de achar que terá uma experiência 100% prazerosa, agradável e tranquila. Below é um jogo cruel por natureza e ele não faz questão alguma de amenizar a situação para prender o jogador. Durante seu tempo aqui, prepare-se para a possibilidade de flertar com a morte o tempo todo. Caso ela aconteça, e esteja certo de que ela vai acontecer, prepare-se para refazer todo o caminho até onde o falecido aventureiro tiver morrido para recuperar seus equipamentos. O único problema é que o novo herói começa desprovido de recursos, o que te leva a duas escolhas: refazer boa parte do caminho a fim de juntar mantimentos e itens ou apelar aos atalhos que te fazem pular alguns andares, mas que te colocam frente a frente com a ameaça que acabou de ceifar sua antiga vida.

A falta de direcionamento e objetivo é outro ponto que pode deixar jogadores habituados aos jogos atuais, repletos de dicas e tutoriais, a se sentirem perdidos e até mesmo frustrados. O único entendimento que ficou claro é que temos essa lanterna encontrada no início, que ela possui espaços para serem preenchidos com fragmentos encontrados ao longo da jornada e que existe uma infinidade de locais a serem explorados no subterrâneo, além de uma terrível energia/criatura completamente hostil e que aparenta ficar mais forte à medida que descemos os andares. Se existir uma resposta para os porquês que você possa vir a ter, certamente é nos andares mais baixos que ela estará à sua espera. A curiosidade é o principal motor motivador aqui e estou certo de que ela pode não ser suficiente para muitos de vocês.

No seu lançamento em 2018, o jogo foi duramente criticado por conta dessa alta dificuldade e falta de recompensas pelo esforço do jogador. Com sua estreia no PS4, os desenvolvedores receberam bem as críticas e inseriram um novo modo de jogo chamado Explorador. Ao contrário do modo Sobrevivência, aqui temos total espaço para explorar e apreciar com calma tudo o que o título tem a oferecer. Armadilhas e ataques inimigos que antes poderiam causar morte direta, agora apenas consomem parte da energia e a necessidade de se alimentar foi desativada.



Apesar de acreditar que o atrativo de Below esteja justamente no alto grau de desafio e na falta de diretrizes ao jogador, entendo que esse modo é muito bem-vindo e só expande o seu potencial em agradar um maior número de pessoas, tornando-o uma excelente pedida aos fãs hardcore de jogos roguelike e uma excelente porta de entrada para os iniciantes no gênero através do modo Exploração.

Prós

  • Efeitos visuais e sonoros caprichado e que contribuem com o clima de mistério;
  • Ambientação impressionante e sombria, que conduz o que deveria ser o enredo do jogo;
  • Inclusão do modo Exploração que abre a opções para aqueles que desejam apreciar exploração e combate de forma tranquila;
  • Boa diversidade de inimigos.

Contra

  • Contar apenas com a curiosidade do jogador como fator motivador para continuar a campanha.
Below - PS4/PC/XBO - Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: PS4
Revisão: Ives Boitano
Análise produzida com cópia digital cedida pela Capybara Games


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