Jogamos

Análise: Disc Creatures (PC): um jogo de capturar monstros que vai além da nostalgia

Com estilo retrô e uma história mais sombria do que se espera, Disc Creatures é um interessante RPG de captura de monstros.

Um menino de poucos anos de idade ganha umas criaturas com poderes e parte em uma jornada para conseguir todos. Já ouviu isso antes, né? Disc Creatures é um RPG de captura de monstros inspirado em clássicos do Game Boy como Pokémon e Dragon Quest Monsters. De fato, até mesmo sua aparência é bastante similar à desses jogos na busca de um apelo à nostalgia. No entanto, o jogo tem mais do que seu fator retrô a oferecer.


Uma aventura igualmente familiar e surpreendente


Em Disc Creatures, assumimos o papel de um jovem que acabou de se tornar um Disc Ranger (usualmente abreviado como DiscR). Após escolher as suas três criaturas iniciais, o jogador deve cumprir algumas missões do quadro de avisos da cidade. Em seis capítulos, a história leva o jogador a locais variados, como: uma floresta assombrada onde as pessoas ficam perdidas, as profundezas de uma caverna onde há lava e até mesmo um pico de neve em que os rumores dizem que uma lendária criatura habita.

O mais interessante do jogo é que as missões que o jogador precisa realizar para avançar a história acabam sendo muito mais sinistras do que o esperado. Mais do que uma jornada feliz para capturar as 200 criaturas, a aventura tem reviravoltas que chegam a ser ousadas, com acontecimentos bem pesados que jogos do gênero normalmente tentariam, no mínimo, amaciar para não se tornarem traumatizantes para um público mais novo. Após completar a história, o jogador ainda tem bastante conteúdo extra para explorar no pós-game.


Assim como em Pokémon, o gameplay possui como base as afinidades elementais. Além de ataques básicos sem tipo, são ao todo 11 elementos: fogo, planta, água, terra, pedra, gelo, elétrico, vento, espírito, mágico e metal. As criaturas podem pertencer a qualquer um deles ou a uma combinação de dois tipos (como fogo/água ou terra/vento). Dependendo dessa afinidade, eles podem ser melhores ou piores para cada área, visto que, por exemplo, uma área de lava terá muitos inimigos fracos contra água.

Mas não só os tipos das criaturas são relevantes; afinal, conforme ganham nível (e também através do gasto de discos de outras criaturas), elas podem aprender uma grande quantidade de golpes. Apesar de haver um limite de 4 por vez, são mais de 20 ataques por criatura e é possível alternar entre eles pelo menu principal sem qualquer tipo de custo. Assim, ao explorar uma área de gelo, é possível trocar o ataque de uma das suas criaturas para um golpe de fogo em vez de treinar outra criatura do tipo fogo.

No entanto, apesar de ter vários tutoriais no início, o jogo acaba sendo ruim em apresentar como as afinidades funcionam de forma geral. É possível obter a informação em um duelo contra um especialista no segundo capítulo, mas até a menção à efetividade nem sempre ocorre quando os golpes são utilizados, tornando isso um pouco confuso, especialmente quando se tratam de inimigos com tipos combinados.

Outra questão que é importante mencionar é que não há um item de captura. Ao lutar contra os inimigos, o jogador tem a chance de obter um disco deles. Quanto mais raras, mais difícil conseguir o item, mas é possível aumentar a chance utilizando um consumível chamado HiSpeed Memory. Uma vez obtido, o disco pode ser convertido em uma criatura lv.1, vendido na loja ou até mesmo utilizado para desbloquear golpes de outras criaturas. Também é possível realizar fusões entre os discos seguindo receitas específicas que podem ser obtidas em vários locais do jogo.

Caso o jogador queira customizar os atributos da sua criatura, é possível, a partir de um determinado ponto do jogo, utilizar uma máquina de Reincarbonation. Ao tomar essa bebida, os bichos perdem 10 níveis, mas é possível escolher um atributo para que eles tenham um ganho permanente e assim possam chegar àquele nível mais fortes. Essa é a única forma de criar bichos com particularidades próprias, já que todos eles seguem uma base comum. Ou seja, duas criaturas da espécie Tomatee terão exatamente os mesmos atributos de HP, ataque, defesa, magia e velocidade.

Peculiaridades do combate


No combate, existem alguns aspectos bastante peculiares. Primeiramente, o jogador utiliza três criaturas simultâneas. Isso adiciona muito potencial estratégico, sendo possível montar equipes equilibradas ou focar em três criaturas que são mais vantajosas para uma determinada área. Como não há time reserva ou qualquer coisa do tipo, é importante ter cuidado com a escolha, mas o jogo também garante 100% de chance de escapar das batalhas contra inimigos comuns.

Inclusive, não há encontros aleatórios. Os combates acontecem quando o jogador e o inimigo se tocam no campo. Desviar deles é uma possibilidade na maioria dos casos, mas usualmente pouco recomendado por uma questão de garantir que as criaturas estejam no nível adequado para o boss de cada área. Conforme o jogador avança na história, os padrões de movimentação das criaturas mudam, algumas passam a perseguir o jogador e até fazer emboscadas difíceis de evitar.

Outra questão do combate é a barra de energia. Cada bicho tem uma barra única que é consumida para o uso dos golpes. Quando as batalhas começam, a criatura sempre tem um nível específico de barra cheia, associado ao seu nível (10 para lv.1 a 9, 20 para lv.10 a 19, e assim vai). Ao longo da batalha, é possível recarregar a barra, mas isso deixa a criatura vulnerável, garantindo que qualquer ataque recebido será crítico. Ao mesmo tempo, o inimigo também está sujeito às mesmas regras e é possível causar muito mais dano quando está recarregando.

Dependendo do atributo sorte dos personagens em combate, também é possível obter uma recarga no fim do turno. Algo bastante vantajoso quando ocorre para as criaturas do jogador e péssimo quando afeta os adversários. Itens também podem ser usados, mas com uma restrição importante: caso uma criatura use um item, a opção não poderá ser acessada na próxima rodada. O mesmo vale para golpes de cura em geral, fazendo com que seja necessário planejar com cuidado o uso desses recursos.

Mais do que uma experiência retrô


Com todos esses detalhes, o jogo realmente apresenta uma jornada consistente e interessante e é uma boa pedida para fãs de RPGs onde é necessário capturar criaturas. No entanto, a escolha por uma aparência retrô inspirada no Game Boy não se mostrou tão interessante. Os designs de algumas criaturas ficaram um tanto confusos, com detalhes que dificultam compreender o que elas são.

Se por um lado a escolha de apelo ao lado retrô reforça a ousadia de algumas decisões de roteiro, por outro essa restrição acaba reduzindo o apelo do jogo desnecessariamente. É um título que poderia muito bem andar com as próprias pernas, e se prender à noção de “homenagem” acaba se tornando mais uma camisa de força do que algo que valoriza o jogo. Ainda assim, é um título surpreendentemente divertido e inspirado, e vale a pena conhecê-lo.

Prós

  • História envolvente com algumas decisões ousadas;
  • Uso de três criaturas simultâneas adiciona potencial estratégico ao combate; 
  • Possibilidade de trocar a qualquer momento os golpes das criaturas.

Contras

  • Tentativa de apelo nostálgico acaba implicando em designs confusos, artes e trilhas genéricas;
  • Apresenta mal as afinidades elementais, uma das bases do gameplay.
Disc Creatures - PC - Nota: 8.0
Revisão: Ives Boitano
Análise produzida com cópia digital cedida pela Dangen Entertainment

é formado em Comunicação Social pela UFMG e costumava trabalhar numa equipe de desenvolvimento de jogos. Obcecado por jogos japoneses, é raro que ele não tenha em mãos um videogame portátil, sua principal paixão desde a infância.


Disqus
Facebook
Google