Western: a influência do gênero no mundo dos games (Parte 2)

Não apenas o cinema, mas principalmente os jogos mostravam um ar de saturação pelos elementos convencionalmente utilizados no faroeste.


Dando prosseguimento em nosso artigo, perceberemos uma redução considerável no lançamento de jogos western em comparação aos anos anteriores. Como dito anteriormente, filmes de ação e ficção científica ganharam a atenção do público e, diante do iminente sucesso, foram adaptados para os consoles, especialmente para o NES — a maioria deles horríveis, servindo tão somente para aproveitar o frisson causado no momento.


No entanto, ainda que com um número consideravelmente menor de lançamentos, o faroeste jamais abandonou os fãs do estilo, seja no cinema, seja nos video-games. A grande questão seria: o que fazer para manter o público atraído por tais jogos? Da repetição de fórmulas aos jogos “eróticos”, a indústria tentou de tudo.

Western Gun Part II

  • Console: Arcade
  • Geração de consoles: não se aplica
  • Ano de lançamento: 1980
A Taito foi a primeira empresa a “apelar”, seja anunciando uma “continuação” para seu arcade de sucesso (lançado originalmente nos Estados Unidos pela Midway), seja copiando descaradamente Sheriff, o último arcade da Nintendo lançado para o gênero.
Lá vamos nós...


Possuindo basicamente a mesma estrutura do jogo lançado no ano anterior pela concorrente, Western Gun Part II foi o único jogo western lançado em 1980, confirmando a saturação do mercado que, não raras vezes, insistia em elementos que já não agradavam o público.

Wild Western

  • Console: Arcade
  • Geração de consoles: não se aplica
  • Ano de lançamento: 1982
É incrível que somente dez anos após o lançamento do primeiro jogo western nos consoles exista um produto que talvez estivesse à altura do que os jogadores realmente se empolgariam.

Wild Western é um arcade lançado pela Taito que traz uma premissa de ação há muito esperada: o jogador está no controle de um pistoleiro que persegue assaltantes de locomotivas, todos montados em cavalos. O título é incrementado, inclusive, com um trecho em .mid de Ghost Riders in the Sky. Ao final de cada estágio, o cavalo do protagonista lança uma garrafa para o alto, devendo o jogador acertá-la para obter pontuação bônus.

Ghost Riders in the Sky (sem  o termo “Ghost”) foi registrada pela primeira vez em 1949 por Burl Ives e, embora imortalizada por Johnny Cash em 1979, é difícil precisar qual versão foi utilizada em Wild Western, já que ela possui a forma como a conhecemos hoje — enérgica — e a primeira versão “rápida” desta canção foi apresentada pelo grupo The Ventures, em 1961. No entanto, diante da proximidade dos lançamentos (jogo e canção), tenho comigo que a versão de Cash foi a escolhida, especialmente diante do apelo do artista na época.

Outra curiosidade decorre do fato de que a canção é homônima do longa Riders in the Sky — por sinal, o filme se baseia na composição em questão —, cuja história se refere a um assassinato supostamente praticado pelo fazendeiro Ralph Lawson, que busca provar sua inocência. Não surpreendentemente, o jogo possui nada referente ao filme ou à música.

Custer’s Revenge

  • Console: Atari 2600
  • Geração de consoles: 2ª geração
  • Ano de lançamento: 1982
Custer’s Revenge é tão infame quanto seu protagonista. Um oficial comandante da cavalaria do exército dos Estados Unidos foi herói da Guerra Civil norte-americana e protagonista nas “Guerras Indígenas”, um dos eventos responsáveis pela expansão do governo para o Oeste daquele país, que resultou no massacre de centenas de nativos. Sua derrocada é atribuída a uma mal sucedida estratégia em enfrentar agrupamentos de nativos norte-americanos sem aguardar reforços, levando-o à morte ao lado de suas tropas.
George Armstrong Custer.


O jogo, lançado em 1982, mais do que um “jogo sexual engraçadinho”, representava o tenente-coronel Custer desviando de flechas que caíam do céu até se aproximar de uma nativa que se encontra do outro lado da tela, até consumar um ato sexual. Como esperado, o jogo causou furor entre grupos feministas e de defesa dos direitos humanos, acusando o título de ser sexista e racista.

É surpreendente que algo do gênero tenha sido lançado à essa altura, visto que, além de menosprezar a problemática condição em que os nativos norte-americanos foram submetidos diante da “expansão ao Oeste”, longas como Giant, Johnny Guitar, Blazing Saddles (lançados em anos anteriores) protagonizaram minorias ou, ao menos, trouxeram as problemáticas históricas que as envolve.

High Noon

  • Console: Commodore 64
  • Geração de consoles: 3ª geração
  • Ano de lançamento: 1984
Embora seja homônimo ao longa de 1952 e possuir a mesma canção tema, High Noon em nada se parece com o filme. No jogo, o protagonista deve enfrentar uma série de criminosos que pretendem sequestrar as dançarinas do saloon e assaltar o banco local.
Mais clichê, impossível.


O título possui cinco níveis, onde cada um deles insere um novo tipo de inimigo, desde criminosos montados a cavalo até aqueles que plantam bananas de dinamite. É perceptível que os jogos western não acompanharam a evolução no cinema, que trazem roteiros mais complexos desde os anos 1950, em especial pela influência do western spaghetti.

Badlands

  • Console: Arcade
  • Geração de consoles: não se aplica
  • Ano de lançamento: 1984
Badlands foi a aposta da Konami em resposta aos jogos de “vídeo interativo” como Dragon’s Lair e Cliff Hanger,  podendo ser considerado o mais sangrento dos western já lançado, a começar pelo enredo. Curiosamente, foi o único jogo da desenvolvedora a utilizar laserdiscs.

O título conta a história de Buck, que teve sua esposa e filhos assassinados por um grupo de criminosos. No controle do protagonista, o jogador passará por diversas ambientações — algumas absolutamente extraordinárias ao western, como uma floresta repleta de dinossauros ou a presença de monstros — a fim de encontrar os vilões, cada qual com uma recompensa por sua “captura”.

A despeito da temática sombria, há muitas situações de comédia, como quando Buck perde uma de suas vidas e é carregado por uma maca por outros cowboys. No entanto, caso seja a última, cenas como ele ser cortado ao meio por um machado informarão ao jogador que é o fim do jogo.

O aspecto dramático — e violento — de Badlands poderia ser uma inspiração para novos produtos — inclusive sua música tema, que era realmente boa —, afinal todos os grandes sucessos de outrora receberam títulos equivalentes, com mínimas alterações. No entanto, a indústria optou pela repetição das velhas fórmulas por mais algum tempo.

Bank Panic!

  • Console: Arcade
  • Geração de consoles: não se aplica
  • Ano de lançamento: 1984
A despeito dos enredos se manterem simplistas, a jogabilidade e o senso de estratégia foram aprimorados. Em Bank Panic! o jogador está no controle de um pistoleiro em um banco que precisa eliminar assaltantes que aparecem em portas antes que o tempo acabe.


O senso de dificuldade surge ao forçar com que o jogador se atente não apenas aos inimigos, como também a outros cowboys que estão simplesmente realizando depósitos. Disparos contra civis ou permitir que uma dinamite plantada por um assaltante exploda fazem com que o jogador perca uma vida. É um título que traz alguma diversificação, mas é nada revolucionário.

Cheyenne

  • Console: Arcade
  • Geração de consoles: não se aplica
  • Ano de lançamento: 1984
A despeito da equivalência de títulos, Cheyenne em nada se aproxima do longa Cheyenne Autumn, de 1964 — por sinal, um dos bons títulos que retratam os descasos do governo norte-americano com os nativos inseridos em reservas.


Neste título para arcade, o jogador terá a função em proteger “Buster Badshot” em sua jornada com mantimentos, disparando contra diversos perigos que surgirem, desde animais selvagens a saqueadores.

Express Raider

  • Console: Arcade / Commodore 64
  • Geração de consoles: 3ª geração (aplicável ao Commodore 64)
  • Ano de lançamento: 1985
Express Raider, desenvolvido pela Data East, é um título um tanto diferente dos então lançados. O primeiro aspecto que se destaca é o fato de que o jogador está no controle de um fora-da-lei responsável por assaltar um trem em movimento. O segundo diz respeito a ele possuir duas perspectivas: a primeira, em um formato beat’ em up, faz com que o jogador controle o assaltante em combates ao melhor estilo “briga de rua” sobre o trem em movimento.


Ao concluir o trajeto e os combates, o jogador será colocado sobre uma montaria, devendo disparar contra aqueles que protegem o trem em movimento, em um modo de visão muito similar ao segundo estágio de Sunset Riders (Multi). Com o término do estágio, o jogo recomeçará com um nível de dificuldade maior.

Gun.Smoke

  • Console: Arcade / NES
  • Geração de consoles: 3ª geração (aplicável ao NES)
  • Ano de lançamento: 1985
Desenvolvido pela Capcom, Gun.Smoke é facilmente o jogo western mais bonito lançado até então. No comando de um pistoleiro (chamado de “Billy Bob” na versão para NES), o jogador deverá seguir por vários estágios a fim de enfrentar diversos criminosos, cada qual com uma recompensa por sua “captura”. Durante o trajeto, o personagem poderá, inclusive, montar um cavalo. A jogabilidade parece simples, com visão aérea. Por outro lado, embora o criminoso procurado seja apresentado antes de iniciar o estágio, para que o jogador possa enfrentá-lo e seguir para o próximo criminoso, deverá encontrar seu respectivo cartaz de recompensa durante a jornada. Caso não o encontre até o final, deverá repetir a fase.

Embora a versão para NES seja visualmente inferior, a canção durante os estágios, Hicksville Theme,  diferentemente da original, remete à uma verdadeira canção western. Mais do que isso, a pontuação obtida no port para o console da Nintendo permitia que o jogador adquirisse armas e power-ups, ao passo que o jogo original, no arcade, serviria apenas para registros contra outros jogadores — upgrades eram encontrados somente em barris. De mesmo modo, embora as semelhanças de título com o longa Gunsmoke (“A  morte tem seu preço”), de 1953, o jogo não possui enredo equivalente ao filme.

Ironhorse

  • Console: Arcade
  • Geração de consoles: não se aplica
  • Ano de lançamento: 1985
Ironhorse possui uma premissa equivalente a Express Raider, senão pelo fato de que o jogador está no controle de um cowboy que tenta impedir um roubo de trem. A ação é lateral e todo o jogo se passa sobre os vagões ou em seus interiores. Antes da partida, estão disponíveis um chicote, uma pistola ou a utilização de ataques físicos (que rendem 200 pontos, enquanto as demais armas rendem 100 pontos cada).


A canção tema, embora sintetizada (como praticamente em todas as canções utilizadas em jogos na época) é muito bem feita e remete ao clima western. A despeito das semelhanças de título com o longa The Iron Horse (“O cavalo de ferro”) e de que seu enredo trata sobre os feitos de imigrantes europeus e afro-americanos, não apenas na construção da primeira ferrovia transcontinental norte-americana, como também na luta contra um inescrupuloso empresário, ambos não compartilham o mesmo enredo.

Um dia o sol brilhará

No decorrer dos anos 1980, os jogos western mostraram uma evolução considerável se comparado aos seus antecessores. Outrora focados tão somente em duelos, se observa que as premissas se tornaram um pouco mais complexas, inclusive permitindo que o jogador esteja no controle também do “vilão”, como foi o caso de Express Raider.

Novas tecnologias permitiram novas formas de jogo — ainda que estranhas —, como ocorreu em Badlands. Ainda assim, muitos destes títulos são restritos a colecionadores de arcades ou aficcionados pelo gênero. Embora a inconteste — e rápida — evolução, levaria mais algum tempo para que novos jogos de faroeste impactassem os corações dos jogadores. Mas quando esse momento chegasse, o mundo dos jogos definiria, de vez, as bases para que qualquer jogo western que buscasse seu lugar ao sol deveria seguir.

Revisão: Farley Santos

Mineiro, apaixonado por livros, música, filmes, discussões, Magic: The Gathering e, claro, jogos eletrônicos.

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