Western: a influência do gênero no mundo dos games (Parte 1)

Muitos dos jogos do gênero devem seu status aos estereótipos e características dos filmes de faroeste.


Western, “faroeste” ou “bangue-bangue” é uma das temáticas mais presentes em qualquer mídia, sejam eles literárias, musicais, cinematográficas ou produtos de entretenimento eletrônico. Quanto aos últimos, não importa se os jogadores iniciaram o hobby nas 7ª e 8ª geração de consoles ou nos primórdios dos jogos caseiros, nos idos dos anos 1970: algum título do gênero pousou em algum (ou alguns) de seus consoles no decorrer de suas vidas.


Com o indiscutível sucesso de Red Dead Redemption 2 (Multi), bem como do saudosismo que vem à mente dos jogadores mais velhos com títulos como Sunset Riders (Multi), Wanted (Sega Mark III), Wild Gunman (NES/Arcade) e mesmo o infame Custer’s Revenge (Atari 2600), é interessante remontarmos às origens que despertaram o interesse de um público que, primordialmente, sequer viveu na “era de ouro” do gênero.

A maioria dos jogos do gênero “bangue-bangue” assimilaram muitos dos conceitos e singularidades inauguradas no cinema western e, ao longo deste artigo, destacaremos quais foram essas características em cada jogo lançado, em cada uma das plataformas desde a primeira geração de consoles. A fim de acompanhar a evolução dos jogos — seja com a evolução dos enredos de faroeste nos cinemas, seja com os jogos em si —, listaremos os títulos por ordem de lançamento.

Shootout

  • Console: Magnavox Odyssey
  • Geração de consoles: 1ª geração
  • Ano de lançamento: 1972
Embora esteja inserido na categoria de consoles Pong, o Odyssey experimentou toda sorte de jogos, se considerarmos que os “cartuchos” que o acompanhavam não possuíam qualquer instrução, senão formas como as luzes do console deveriam se movimentar em tela.

Os títulos sequer possuíam imagens: folhas plásticas com representações de objetos acompanhavam o console — ou “pacotes de jogos” — para serem dispostas à frente do televisor. Ainda assim, Shootout pode ser considerado o primeiro jogo western dos consoles pois, embora The Oregon Trail tenha sido lançado um ano antes, foi exclusivo para mainframes HP 2100, recebendo seu primeiro port somente em 1982, inicialmente no computador Apple II.
Gostaria de jogar o cartucho três ou podemos experimentar o cinco?


Shootout era adquirido com o pacote Shooting Gallery, que era ainda acompanhado por um rifle e outras três películas: Prehistoric Safari, Dogfight e Shooting Gallery. O jogador um é o xerife, ao passo que o jogador dois movimentava uma luz — que representa o membro de uma gangue — com o joystick da primeira janela próxima à entrada do saloon e seguir para cada uma das janelas disponíveis, devendo permanecer em cada uma delas pelo tempo que levar para dizer a frase “você nunca vai me pegar, xerife!”. Seguirá a rota até a última janela do segundo andar até, finalmente, saltar para os cavalos e fugir.

Evidentemente que, diante da ausência de uma programação específica, não apenas a imaginação dos jogadores era necessária para a “visualização” de toda a ação, como a boa fé entre os jogadores era necessária para partidas justas, afinal, não apenas o rifle considerava como acerto qualquer iluminação existente (não sendo necessário disparar somente na luz emitida no televisor), como o segundo jogador poderia simplesmente fazer com que o “bandido” corra desvairadamente pelo saloon.
Shootout é exatamente assim.


É importante notar que a tal fuga com cavalos fora inspirada no curta-metragem mudo The Great Train Robbery (“O grande roubo de trem”), lançado em 1903 — o segundo do gênero —, sendo o primeiro filme western a inserir uma série de características que seriam intrínsecas não apenas nos filmes, como também nos jogos, sendo uma delas a fuga dos antagonistas em seus cavalos.

The Oregon Trail

  • Console: Mainframes HP 2100 / Apple II / Commodore 64 / Atari 8 bits
  • Geração de consoles: 3ª geração (aplicável ao Commodore 64)
  • Ano de lançamento: 1971 (Mainframes)
O primeiro jogo com inspiração no western, The Oregon Trail, foi inaugurado de forma que a maioria dos jogadores olhariam como “inconveniente”: tratava-se de um jogo de estratégia (ao invés de um do gênero ação/aventura) e, ainda por cima, era educativo. Para “ajudar” ainda mais, como os computadores da época de lançamento eram destituídos de monitores, o  título não possuía gráficos, sendo os eventos transmitidos mediante a impressão das ocorrências para o jogador com o uso de um teleprinter.
The Trail Oregon no Apple II.
Somente com ports para Apple II, Commodore 64 e produtos da família Atari 8 bits é que foi possível visualizar aquilo que, naquela época, existia apenas na imaginação dos usuários. O jogo consistia em fazer com que o jogador fosse o guia de uma carruagem que guiava pioneiros do Estado norte-americano de Missouri para o Estado de Oregon, sendo responsável pela obtenção de alimentos, aquisição de recursos e a tomada de decisões diante de tempestades e danos nos veículos. O port para Apple II incluiu um mini-game de tiro.

Wild Gunman

  • Console: Arcade / NES
  • Geração de consoles: 3ª geração (aplicável ao NES)
  • Ano de lançamento: 1974 (Arcade) / 1984 (NES)
Originalmente lançado pela Nintendo em formato arcade, Wild Gunman consistia em uma série de “micro filmes” com pistoleiros em um monitor, onde o jogador deveria disparar com sua arma antes de ser atingido. No entanto, o momento indicado para sacar sua pistola é um “brilho” surgindo dos olhos do adversário. Caso o jogador o fizesse um segundo antes ou depois, seria vencido.
Alguém não está tendo um bom dia hoje.
O port para NES, lançado em 1984 no Japão, é praticamente um novo jogo, com a substituição das imagens realistas por sprites em 8 bits. Além do brilho nos olhos do adversário, um balão em que estava escrito fire! indicava o momento adequado para o jogador disparar sua arma.
Alguma diferença?


A versão caseira do título inseriu dois novos modos de jogo: o primeiro era idêntico ao modo convencional, senão pelo fato de que o jogador disputava contra dois adversários controlados pelo computador ao mesmo tempo. O segundo modo de jogo tinha duelos em frente a um saloon, em que diversos inimigos surgiam alternadamente em portas e janelas. Novamente, o foco do jogo mostra a influência do curta-metragem The Great Train Robbery, já que foi neste filme em que duelos com armas foram inseridos no western e seguidos por praticamente todos os filmes e jogos do gênero.

Gun Fight / Western Gun

  • Console: Arcade / Bally Astrocade / Magnavox Odyssey² (como Showdown in 2100 AD)
  • Geração de consoles: 2ª (aplicável a Bally Astrocade e Odyssey²)
  • Ano de lançamento: 1975 / 1977 (aplicável a Bally Astrocade)
Gun Fight (lançado originalmente no Japão como Western Gun) não apenas foi a primeira máquina de jogos do mundo a utilizar microprocessadores (na versão lançada pela Midway), como também permitiu que os jogadores atirassem uns nos outros.
Esse formato de jogos western seria o padrão da indústria por muitos anos.


O jogo consistia em um duelo entre os jogadores, os quais, municiados com cinco balas, disparavam contra seu adversário. A cada round, novos elementos eram inseridos na tela a fim de bloquear os disparos ou mesmo fazer com que eles ricocheteassem, permitindo que as balas acertassem o adversário.

Novamente, o jogo apresenta influência de The Great Train Robbery. Ironicamente, quando um dos jogadores é atingido, um trecho de Marcha Funebre, do compositor polonês Frédéric Chopin, é o que anuncia o óbito, seguido da frase Got me!

Outlaw

  • Console: Arcade / Atari 2600
  • Geração de consoles: 2ª geração (aplicável ao Atari 2600)
  • Ano de lançamento: 1976 (Arcade) / 1979 (Atari 2600)
Outlaw é mais um título que insiste no aspecto do duelo entre pistoleiros, sendo uma resposta ao sucesso de Gun Fight nos arcades. Embora ambos possuam premissas equivalentes, Outlaw possui um visual mais agradável aos olhos, especialmente em razão de uma imagem pré-desenhada que oferecia ao jogador uma sensação maior em estar no Velho Oeste — ainda que preto e branco —, já que os elementos na tela faziam referência a todos os clichês vistos anteriormente em filmes do gênero.
Versão arcade e port para Atari 2600, respectivamente.


Por outro lado, o port para o sistema caseiro Atari 2600 reforça as limitações técnicas do console, forçando que o produto final se limite às imagens dos dois adversários e eventuais elementos que obstruem as balas, como cactos e carruagens, se aproximando muito do jogo lançado originalmente pela Midway.

Boot Hill

  • Console: Arcade
  • Geração de consoles: não se aplica
  • Ano de lançamento: 1977
Boot Hill, lançado pela Midway, mantém a mesma premissa empregada em Gun Fight, acrescida do elemento visual de Outlaw, apenas inserindo cores ao ambiente — provavelmente lançado a fim da desenvolvedora garantir seu lugar nos arcades do gênero.
Basicamente os mesmos jogos lançados anteriormente.


A sistemática é a mesma: dois pistoleiros disputam entre si enquanto evitam os elementos centrais que dificultam acertar o adversário. À essa altura, o gênero nos consoles e arcades já se mostrava repetitivo, ao passo que, nos cinemas, o western já tinha evoluído para além dos duelos, roubos de diligências e fugas em cavalos.

Sheriff

  • Console: Arcade
  • Geração de consoles: não se aplica
  • Ano de lançamento: 1979
Sheriff é um jogo para arcade lançado pela Nintendo e, além de ser o primeiro jogo a se afastar do clássico sistema de duelos, foi o primeiro da desenvolvedora a introduzir uma mulher para ser resgatada.
Novas premissas são garantias de futuras cópias.


No controle de um xerife, o jogador terá de enfrentar 16 pistoleiros em volta do campo, os quais permanecerão fora das linhas-limite por quase todo o tempo. O objetivo é abater todos os inimigos para prosseguir ao próximo nível, sendo que estes também dispararão suas armas contra o jogador. Eventualmente alguns adentrarão a “arena”, devendo o jogador evitar tocá-los, além de desviar dos disparos dos inimigos.

Toda glória há de ruir

No final dos anos 1970 e no decorrer da década de 1980, o western, especialmente o norte-americano, já apresentava seus primeiros sinais de “cansaço” nos cinemas, em especial pela introdução ao público de gêneros de ficção científica e ação nos tempos modernos. Star Wars (“Guerra nas estrelas”), Alien (“Alien, o 8º passageiro”), Die Hard (“Duro de Matar”), First Blood (“Rambo: Programado para matar”)  e Terminator (“O Exterminador do Futuro”).

Questões maniqueístas como “bom” e “mau”, “honra” e “desonra” — elementos intrínsecos ao western norte-americano — há muito já não causavam impacto. No decorrer da década de 1960, foi justamente o cinema estrangeiro que deu novos ares ao gênero, cujo objetivo do protagonista ia além de questões consideradas “simplistas”.
Gostam de Quentin Tarantino? Então conheçam os trabalhos desse cavalheiro à direita.


Um dos principais responsáveis por renovar o western foi o cineasta italiano Sergio Leone, responsável por longa-metragens como Per qualche dollaro in più (“Por uns dólares a mais”), Per un pugno di dollari (“Por um punhado de dólares”) e Il Buono, Il Brutto e il Cattivo (“Três Homens em Conflito”), que lançaram não apenas Leone, como também Clint Eastwood ao estrelato.

As três películas acima indicadas, então conhecidas como “A Trilogia dos Dólares”, impunham ao protagonista não a posição de “um herói que resgata a mocinha em apuros”, mas como um mercenário em busca de fortuna não raras vezes enfrentando xerifes corruptos. Filmes como os de Leone são conhecidos como western spaghetti e, embora inaugurado na Itália, se referia também a produções originadas na Alemanha e Espanha, comumente filmados em locações que oportunizassem baixos custos, como a própria Espanha ou a extinta Iugoslávia.
Os norte-americanos nunca pensaram em algo do tipo para o western. (Django, 1966)


Mesmo com o western spaghetti tendo revolucionado o gênero, é incrível como as desenvolvedoras de jogos resumiram diversos jogos de faroeste aos duelos, quando títulos como Stagecoach (“No tempo das diligências”), lançado em 1939, possuía já uma premissa interessante mesmo para os conservadores norte-americanos: o protagonista da película — e basicamente o herói da trama — é um foragido acusado de assassinar o amigo de um delegado de polícia.
Stagecoach foi um dos primeiros do gênero norte-americano a quebrar padrões.


Nesse ínterim, seja pelas limitações técnicas ou a mera ausência de criatividade dos desenvolvedores, é uma pena que tão bons representantes do western nos cinemas não recebessem a devida contraprestação nos consoles.

Na continuação deste artigo, perceberemos que a necessária evolução levou algum tempo para chegar, mas quando finalmente adentrou nossos lares, nunca mais nos deixaram. Continuem acompanhando!

Revisão: Farley Santos

Mineiro, apaixonado por livros, música, filmes, discussões, Magic: The Gathering e, claro, jogos eletrônicos.

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