Blast from the Past

Blood Will Tell (PS2) soube adaptar a essência de Dororo para os videogames

Blood Will Tell soube usar muito bem sua narrativa para conseguir transmitir a sensação de estar jogando um anime.


O PS2 foi um console com uma vasta coleção de títulos, e muitos deles podem ser considerados “jóias escondidas”. Algumas dessas “jóias” podem não ter tido a melhor lapidação, mas com certeza oferecem experiências únicas, como a que Blood Will Tell (PS2) tem a oferecer. O que me fez lembrar que esse jogo existia, e que estava perdido em minhas memórias, foi assistir o anime Dororo que saiu esse ano, e me dá conta que eu já tinha visto aquela história. Pesquisando um pouco mais fiquei muito feliz em descobrir que essa lembrança remonta diretamente a minha época de PS2.


A história de Dororo.

Antes de falarmos do jogo, precisamos contar um pouco sobre a obra original. Dororo é um mangá de 1967 escrito por Osamu Tezuka, o mesmo autor de Astro Boy. Originalmente, além do mangá que durou pouco mais de um ano e não teve uma conclusão, houve em 1969 uma adaptação em anime com 26 episódios que dava um fim a história.
Osamu Tezuka
No mangá acompanhamos Dororo, uma criança que perdeu seus pais na guerra e sobrevive fazendo pequenos roubos, e Hyakkimaru, um homem que foi amaldiçoado por 48 demônios que roubaram, cada um deles, uma parte de seu corpo o deixando apenas com o necessário para viver.
Dororo no manga original.
O pai de Hyakkimaru ao ver o estado do filho após seu nascimento, o coloca em uma jangada à beira de um rio, e o bebê vaga a esmo até ser encontrado por Jyukai, médico que adota o recém-nascido. Usando de seus conhecimentos Jyukai constrói um corpo de próteses, que permitiria a criança andar, correr, pular e lutar.

Aos 18 anos de idade Hyakkimaru descobre sobre sua maldição e que precisa derrotar cada um dos demônios para recuperar seu corpo. Pouco antes de partir, Jyukai troca algumas das próteses por armas para ajudar na jornada do filho. 
Hyakkimaru no manga original.
Logo no início de sua caminhada, o protagonista encontra com Dororo, que cria uma obsessão em conseguir roubar a espada de Hyakkimaru e, por conta disso, passa a acompanhá-lo em sua jornada contra os 48 demônios.

A melhor maneira de adaptar a narrativa de um anime.

O jogo segue a mesma história do mangá, cobrindo basicamente os mesmos arcos, personagens e acontecimentos. Porém ele adiciona algumas novas passagens para alongar seu gameplay e apresenta um final mais conclusivo para a história. Só como um adendo, nenhuma das adaptações de Dororo possui um final idêntico, cada uma deu sua interpretação.


A narrativa é dividida em 8 capítulos, cada um deles adaptando um arco diferente. Essa maneira como a história foi estruturada, é o ponto alto do jogo pois cumpre muito bem o propósito de emular a estrutura de um anime/mangá. Como cada capítulo é fechado em si mesmo, desenvolvendo suas problemáticas e apresentando soluções, temos o sentimento que estamos de fato jogando uma saga de um anime.
Um dos muitos diálogos do jogo.
Ele só consegue fazer isso, pois a custa até mesmo do gameplay, o jogo dá o tempo necessário para o desenvolvimento dos personagens e das situações, fazendo com que o jogador se importe com o que vai acontecer. Porém, isso por vezes significava criar seções desnecessárias de gameplay, contribuindo para deixar o jogo maçante.

Siga em frente, derrote vários inimigos e depois continue seguindo em frente e derrotando vários inimigos.

O melhor paralelo que eu posso traçar de como o esse jogo funciona é com Devil May Cry 2 (Multi). Aqui a mecânica gira em torno das premissas básicas de um Hack’n’Slash do início da era de ouro do PS2. O jogador tem à disposição uma espada, duas lâminas embutidas nos braços de Hyakkimaru, uma metralhadora e um canhão, que também estão adaptados no corpo do protagonista.



Com todas essas ferramentas, e sem possuir nenhum combo, nós devemos atravessar os níveis derrotando os inimigos, e de vez em quando indo e voltando nos mesmos cenários para prosseguir. E como não poderia deixar de ser, existem 48 chefes durante o jogo, sendo que cada um representa um dos demônios que amaldiçoou Hyakkimaru, e apenas 20 são obrigatórios.

A mecânica funciona bem e agrada por um tempo, mas a falta de combos, o vai e vem com longos trechos e ter que enfrentar o mesmo chefe várias vezes, tornam o jogo maçante e repetitivo, e eu confesso que não conseguia manter uma longa sessão de jogatina, era preciso parar e continuar depois, pois enjoava rápido. 



Os desenvolvedores pareciam saber que essa mecânica cansava rápido, e acredito que seja por isso que eles colocaram algumas boas ideias dentro do jogo para diversificar o gameplay. A melhor de todas elas é o sistema de evolução do personagem, que é muito bem integrado com a narrativa. Ao derrotar um demônio, o jogador recupera uma parte do seu corpo e isso eleva os status do personagem e muitas vezes desbloqueia novas habilidades, modificando um pouco o gameplay. Isso cria uma boa expectativa a cada batalha contra chefes para descobrir qual será a próxima parte do corpo recuperada e o que ela irá trazer para o jogo.
Hyakkimaru recuperando uma parte do seu corpo.
Ainda no sistema de evolução, é possível obter novas espadas e evoluir as que já possui, utilizando-as em combate. Outra excelente ideia são os trechos com Dororo. Como o personagem não é um guerreiro, o gameplay passa ser de exploração, puzzle e plataforma, ainda tem combate mas não é muito funcional. Esses trechos servem muito bem para criar uma quebra de ritmo necessária ao jogo.


O que poderia tornar o jogo melhor, seria usar mais dessas mecânicas, com mais habilidades que modificam o gameplay e diminuir o tamanho de alguns trechos desnecessários. O gosto que fica é de que o título tem ótimas ideias que foram bem executadas, mas não apareceram o suficiente para marcar sua geração.



O legado que permanece é a sua forma de estruturar a narrativa, criando uma das melhores formas de adaptar a história de um anime para os videogames, fazendo com que mesmo uma pessoa que nunca tenha ouvido falar de sua fonte de inspiração, tendo apenas jogado esse game,  tenha a sensação de estar vendo algo familiar ao se deparar com obra original.

E onde eu posso aproveitar Dororo?

O jogo não é um dos mais fáceis de conseguir jogar, por ser um título esquecido nos baús do PS2, ele até hoje não teve nenhum remaster, remake ou qualquer tipo de aparição como jogo emulado no PS3 ou PS4

O jeito mais fácil de conhecer essa história é assistindo a recente adaptação de Dororo, que saiu esse ano para o Prime Vídeo. Assim como cada uma de suas adaptações, aqui a história também sofreu alterações, levando o tom geral da obra para algo mais sombrio.



O Hyakkimaru dessa nova adaptação é um homem apático, sem expressão e que por não ter nenhuma distração, uma vez que ele não enxerga, fala, escuta, sente dor ou cheiros, ele se torna um samurai quase perfeito. Essa é para mim a melhor adaptação que a obra já teve.

Revisão: Henrique Moreno


Escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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