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Análise: Blacksad: Under the Skin (Multi) tinha grande potencial, mas problemas técnicos desapontam

Uma mistura muito inusitada de LA Noire e Zootopia que poderia ter dado muito certo se não fosse o péssimo acabamento do título.

Publicado  entre 2000 e 2014, Blacksad é originalmente uma série de histórias em quadrinhos criada pelos espanhóis Juan Díaz Canales e Juanjo Guardino publicada pela editora francesa Dargaud. Com cinco volumes publicados, a série faz bastante sucesso na França e já recebeu vários prêmios.

Sob desenvolvimento da Pendulo Studios, o estúdio Microids traz um jogo de aventura investigativo em terceira pessoa para os consoles com um novo caso para John Blacksad solucionar. Será que o novo episódio na vida do detetive felino faz jus à franquia de HQs? Descobria em nossa análise!

Um novo mistério aguarda!

Blacksad: Under the Skin se passa em uma Nova Iorque no início dos anos 50, onde controlamos John Blacksad, um gato veterano de guerra e detetive particular que sobrevive com os poucos casos de investigação que lhe aparecem eventualmente.


Após um confronto com um rinoceronte que foi investigado pelo detetive, a pedido da esposa, Blacksad recebe a visita de Sonia Dunn e seu amigo Jake Ostiombe. Sonia é filha de Joe Dunn, leopardo dono de uma academia e mentor de Bobby Yale, um jovem boxeador que teria a luta mais importante de sua carreira em poucos dias.

Sonia decide contratar o detetive para investigar a morte de seu pai, que foi encontrado enforcado no ringue de sua academia, e o desaparecimento de Bobby Yale, o qual ninguém teve notícias desde o trágico evento. Agora resta a John Blacksad descobrir os segredos por trás do ocorrido, se Dunn tinha motivos para tirar a própria vida ou se alguém está por trás de sua morte.

Seguindo uma receita de bolo

 O jogo segue o mesmo formato clássico dos títulos da Telltale Games (impossível não comparar a The Wolf Among Us), com opções de diálogos que levam a determinadas informações, sistema de escolhas e Quick Time Events, que deveriam influenciar um pouco mais o decorrer da história. Alguns "minigames" acontecem ocasionalmente para tirar o jogo da mesmice, como arrombamento de portas e armários da academia.

Enquanto interrogamos os suspeitos que tem algum envolvimento com Joe Dunn, é possível, em certos momentos, utilizar as habilidades felinas de John Blacksad para encontrar objetos ou elementos que disponibilizam novos diálogos, algo interessante e bem pensado para diferenciar um pouco de outros títulos do gênero.


Para prestar atenção aos detalhes descobertos sobre cada suspeito, é mantido um caderno de informações que deveria auxiliar no decorrer da campanha, mas que acaba ficando mais como enfeite. Outro recurso interessante é o "My Blacksad" que mostra a alteração de qualidades do detetive baseado nas suas escolhas, apesar de que não percebi muita utilidade durante a jogatina.

A exploração dos cenários é baseada na busca de itens que viram pistas, além de cards esportivos colecionáveis. Ao invés de um inventário com objetos e informações coletados durante a investigação, há um menu de pistas geradas por conta dos objetos encontrados. Nesta tela é possível relacionar as pistas encontradas para chegar a conclusões e desbloquear novas opções de diálogo com os personagens envolvidos.


Sempre que há uma combinação possível de pistas, o jogo faz um alerta no canto da tela, tirando o trabalho do jogador de descobrir tudo sozinho e facilitando bastante a jogatina durante a campanha. Caso passe despercebido por um item, chegará um momento que só será possível prosseguir na história coletando-o para chegar a novas conclusões e liberar novos diálogos. Com isso, o jogo torna-se bastante linear e tira a independência do jogador de trabalhar com as informações que conseguiu coletar.

Das HQs para os consoles

O enredo evolui de forma lenta, com pontos de virada ou mais tensos acontecendo com bastante espaçamento. Para quem leu a HQ, notará que a trama é muito similar aos acontecimentos da novel, sem trazer muitas novidades para a franquia. Jogadores que não estão familiarizados com a publicação podem ficar confusos com a citação de alguns personagens que não são introduzidos no game, deixando sua importância bastante superficial.

Apesar de sermos apresentados a alguns fatores da vida de Blacksad, como relacionamento familiar e amoroso e seu passado no exército, não há um desenvolvimento profundo do personagem ou apelo emocional suficiente para criarmos algum apego. Diversas vezes a ética e a moralidade do protagonista são colocadas em prova, o que é o mais próximo que podemos esperar de real evolução do detetive na trama.


O trabalho do ator que dá voz ao Blacksad também não ajuda muito na construção de afinidade com o detetive. A falta de carisma do protagonista, que é sem energia e de fala arrastada na maior parte do tempo, é compensada pelos demais personagens que têm personalidade bem mais forte e presente. O enredo também trata algumas questões sociais, como o racismo (mesmo em um "mundo animal"), mostrando a realidade da época que foi bem incorporada à trama.

Tente jogar e falhe miseravelmente

Os pontos negativos, até então, parecem ser nada comparados aos diversos problemas técnicos apresentados durante a jogatina. O pior de todos envolve bugs gráficos que impedem a continuidade do jogo. O primeiro aconteceu com duas horas de campanha, em que metade do corpo de Blacksad ficou abaixo do chão e sem locomoção, impossibilitando de sair da sala.


O segundo aconteceu com quase cinco horas de jogo, em que elementos do cenário pareciam não mais fazer parte do mesmo plano, o que impossibilitou subir escadas ou abrir portas. Nas duas vezes foi preciso reiniciar a campanha, pois o jogo sempre era iniciado com o mesmo problema.

Em vários momentos elementos gráficos ficaram por frente de legendas, principalmente durante diálogos, assim ficava difícil saber sobre do que se tratava certa opções de fala. Falando em legendas, o jogo conta com áudio e textos em inglês, espanhol e francês, então esteja com um destes três um pouco afiado.


Em qualidade gráfica, no visual dos personagens, no geral, o jogo não deixa a desejar, mas também não é nada muito avançado para a atual geração, e algumas vezes a renderização demorou um bom tempo para finalizar, criando situações em que ficamos presos em objetos invisíveis frequentemente. Ao menos a trilha sonora é boa, com o jazz da época tocando em boa parte do tempo.

Até detalhes mínimos não tiveram tanta atenção no acabamento, como aparecer duas vezes o botão voltar em menus e, mesmo saindo deles, às vezes os botões continuam visíveis na tela. Para finalizar, loadings muito demorados, travamentos recorrentes e salvamentos automáticos que algumas vezes não funcionaram concluem o péssimo desenvolvimento do título.

Vale a pena jogar?

Sem se aprofundar na apresentação de personagens já conhecidos, principalmente o protagonista, Blacksad: Under the Skin é um serviço aos fãs das HQs, apesar de não trazer um conteúdo tão diferencial da publicação. Até mesmo os seguidores mais fiéis da franquia façam alguma cara feia ao tentar jogar o primeiro jogo do detetive felino. Se não for pela falta de criatividade, será pelos diversos problemas técnicos que surgem durante a campanha, tornando-se uma tarefa difícil conseguir terminá-lo.

Prós

  • Enredo interessante;
  • Jogabilidade simples e intuitiva;
  • Trilha sonora boa e leve.

Contras

  • Evolução da campanha arrastada;
  • Falta de carisma e personalidade do protagonista;
  • Dificuldade inexistente na análise de pistas;
  • Diversos problemas técnicos que dificultam e até impedem a progressão do jogo;
  • Falta de acabamento e atenção aos pequenos detalhes;

Blacksad: Under the Skin — PC/PS4/XBO/Switch — Nota: 4.0
Versão utilizada para análise: PS4

Análise produzida com cópia digital cedida pela Microids
Revisão: Farley Santos

Escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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