Blast from the Past

Killzone: Mercenary (Vita) é tudo o que os proprietários do portátil esperariam em um FPS

Uma guerra é contada sob diversos vieses e, na luta contra os Helghast, chegou a vez dos mercenários mostrarem seu ponto de vista.


O PlayStation Vita é um portátil com um enorme potencial desperdiçado pela Sony mas, até que abdicasse de vez de seu último projeto, a empresa designou diversos estúdios first e second party em projetos muito interessantes — alguns deles mencionados no artigo “Playstation Vita: dez pérolas esquecidas do console” — e Killzone: Mercenary (Vita) figura com louvor entre eles.


Desenvolvido pelos estúdios Guerrila Games e Cambridge Studio, o FPS que teve um bom destaque no PlayStation 3 prova que jogos do gênero não precisam ser genéricos — como Resistance: Burning Skies (Vita) — ou mesmo execráveis — inevitavelmente, Call of Duty: Black Ops Declassified (Vita) —, servindo tão somente para tapar eventual “furo” de lançamentos.

Enredo num FPS: por que não?

Comumente jogos de tiro em primeira pessoa ganham o público por um modo multiplayer balanceado e divertido, ao passo que o modo single player funciona mais como um “bônus”. Mercenary segue por uma via de mão dupla: um ótimo modo história e um multijogador que, embora não possua a grandiosidade de outros títulos AAA para computadores pessoais e consoles de mesa — pelas óbvias limitações do portátil —, nada deixa a desejar para aqueles que não abrem mão em trocar tiros virtuais com amigos e estranhos mundo afora.

Para bem começar, o enredo já é muito interessante: o jogador estará no controle de Arran Danner, um ex soldado da UCA — United Colonial Army — que agora presta seus serviços à ISA — Interplanetary Strategic Alliance — e, eventualmente, aos próprios Helghast, após algumas reviravoltas na história. Como parceiro, Danner terá o igualmente mercenário Damian Ivanov, cuja missão inaugural será o resgate da Almirante Alex Grey, então sequestrada e mantida refém por Viktor Kratek, um dos Generais dos Helghast.
No quadro à esquerda, acima: Bernoit; no quadro à direita: Danner e Ivanovi.


Embora a missão quase fracasse, pelo fato de que Kratek dispara uma bala contra Grey, ambos os mercenários conseguem resgatá-la, prestando então uma série de missões à ISA que vão desde uma tentativa de resgate do Embaixador Sepp Harkin a sabotagens contra armas de destruição em massa sob controle dos Helghast.

Associados aos plots futuros, mesmo este redator, que nunca foi um grande fã do gênero de guerra — mas, por outro lado, ficcionado por boas histórias —, afirma categoricamente que cada uma das quatro partidas de Mercenary, do início ao fim, valeu cada minuto investido.

War is our business

O slogan do jogo é lançado a todo o momento no rosto do jogador. Embora os equipamentos iniciais — um fuzil e uma pistola com silenciador — o acompanhem no início da partida, há inúmeros equipamentos, armas, munições, coletes à prova de balas e granadas dos mais variados tipos que auxiliarão o protagonista em sua jornada. E, como o próprio título sugere, nada é de graça. Além do “dinheiro” recebido pelas missões concluídas, inimigos abatidos e a realização de missões secundárias darão “extras” (como “dinheiro” ou munição) aos mercenários, impedindo que a experiência se torne injusta porque o jogador está sem recursos financeiros.
Façam o dinheiro render sendo precisos nos disparos.


Equipamentos, armas e munição serão adquiridos em caixas específicas espalhadas ao longo dos nove estágios, as quais são fornecidas por Blackjack, um traficante de armas que, de longe, se tornou um de meus “personagens” favoritos pelas ótimas tiradas que faz a Danner durante as negociações.

Toda a questão referente a “fazemos o que fazemos pelo dinheiro que recebemos” é explícito logo no encarte do jogo, contudo, muitos dos diálogos travados entre os protagonistas, estes e Blackjack e, ainda, nas afirmações de Anders Benoit — líder do grupo mercenário ao qual pertencem Denner e Ivanov — e Kratek são reciclagem do óbvio: somos mercenários e fazemos isso pela recompensa.
Eventualmente Blackjack fará promoções de armas e equipamentos: custos da guerra.


Embora em dado momento isso se torne redundante — e até mesmo chato —, Danner se verá em muitas situações em que a máxima “dinheiro não é tudo” se encontrará com seu outrora ideal de “o bom soldado”, como por exemplo, em uma das missões em que se arrisca para salvar o pequeno Justus Harkin, filho do Embaixador Sepp.

Uma das armas mais interessantes: a tela touch do Vita

Todo novo console, ao apresentar funcionalidades diferenciadas, inspiram desenvolvedoras criativas a explorá-las de forma divertida para o usuário e, nesse aspecto, Guerrila e Cambridge tiraram proveito das funcionalidades e, mesmo, limitações do portátil.

Diante da ausência dos gatilhos L2/L3 e R2/R3, ataques melee com facas ficaram a cargo da touch frontal do Vita. Para tanto, bastará ao jogador se aproximar furtivamente de um inimigo — e, em muitos momentos, no real “cara a cara” —, acionar o botão “triângulo” e ver uma seta na tela, que servirá como guia do indicador do jogador para interrogar inimigos atacados furtivamente ou realizar uma finalização com a arma em questão. Os efeitos são variados e criativos, com um nível de violência poucas vezes vistas num console portátil.
Interrogatórios valem a pena em vários sentidos.
Por serem tecnicamente mais difíceis de serem realizadas — inclusive expondo o jogador a ataques de inimigos —, sua realização com sucesso garantirá recompensas extras (como dinheiro, informações sobre o enredo pelos interrogados e conquistas), além de poupar munição — o que é sempre bem vindo. Outro aspecto interessante é o fato de que a touch servirá para a realização de quebra-cabeças em determinados cenários, fazendo com que a tela se pareça com um dos equipamentos hacker utilizados pelo personagem, sendo tudo muito bonito e imersivo.
Puzzles aparentemente simples, mas as formas geométricas não são o que parecem.


Mais: diante da ausência de gatilhos extras como num joystick convencional, o acesso a armas secundárias, equipamentos de auxílio e lançamento de granadas se darão na própria tela que, embora soe como desagradável na jogabilidade em um primeiro momento, se provará como um método bastante eficaz — e, novamente, imersivo — que contribuirá em muito na luta contra diversos inimigos, especialmente nos modos mais difíceis.

Alguns dos mais lindos gráficos presentes num jogo portátil e outros bons detalhes

Não há dúvidas de que Mercenary se destaca como o topo da capacidade do Vita. O nível de detalhamento visual e ambiental é tamanho que pode-se afirmar facilmente que é quase equivalente a qualquer título da série lançado para o PS3: armas, movimentação dos personagens e inimigos, cutscenes — tudo no título é primoroso, inclusive as dublagens em nossa língua nativa, superiores às originais.
Percebam o detalhamento do cenário e desgaste da arma.


O título está localizado em português brasileiro, tanto nas legendas quanto nas vozes e estas, em especial, são bastante críveis e bem desenvolvidas — e essa é uma das razões pelas quais tanto me divirto com Blackjack e seu sotaque característico, especialmente quando inicia as negociações com “ah, Dannerrrrr” (com um “r” carregadíssimo).

Outro exemplo é Kratek que, embora seja inicialmente apresentado como antagonista, insinua ao longo da história que é nada mais do que um soldado, não um assassino impiedoso e de sangue frio. Seu tom de voz, inclusive, apresenta cansaço sobre a batalha e seus efeitos sobre o povo que representa, sendo quase que conflitante com as motivações originais dos Helghast nos três títulos que antecederam Mercenary — se aproximando mais do ponto de vista deste povo em Killzone 4: Shadow Fall.
Kratek, em destaque.
A trilha sonora é mínima, senão em momentos-chave do jogo, contudo, o som oriundo de disparos de armas de fogo, o grito de guerra dos adversários “Por Helghan!” e as comunicações de rádio entre o protagonista e seus contratantes são muito impactantes e farão com que o jogador se sinta em pleno conflito armado — além de indiscutivelmente empolgado.

Mesmo hoje, vale a pena?

Killzone: Mercenary não é um jogo tão recente — em setembro completará seu 6º ano de vida — e, mesmo que seja um exclusivo para um console praticamente morto — um minuto de silêncio por isso —, é uma ótima pedida para aqueles que possuam o portátil, para quem possa tomá-lo emprestado de algum amigo e mesmo para aqueles que, como este redator, não se importam muito com jogos do gênero mas que apreciam um bom enredo.
Multiplayer frenético.


As nove missões são divididas em cenários e, para um título portátil, é um jogo relativamente grande. Cada uma destas estão disponíveis em três níveis de dificuldade — Recruit, Trooper e Veteran —, cada qual com recompensas mais altas em acordo com o nível pretendido.
Cartas de baralho obtidas no modo história podem ser tomadas de (e por) inimigos.


Por incrível que pareça, o modo multiplayer — para até quatro jogadores on line ou em rede local — ainda está disponível, possuindo três modos de jogo — Mercenary Warfare (vitórias contabilizadas individualmente), Guerrila Warfare (o típico team deathmatch) e Warzone (deathmatch com objetivos) —, com a disponibilidade de seis mapas para as rodadas. Ironicamente, diferente do que Declassified e Burning Skies propunham — e contrariando o próprio título —, Mercenary não exige a aquisição de um “passe” para o modo multiplayer.

Em suma, Killzone: Mercenary é um ótimo título, logo, aproveitem enquanto há tempo. E quanto a vocês? Quais suas experiências sobre o jogo? Compartilhem conosco!

Revisão: Henrique Moreno

Mineiro, apaixonado por livros, música, filmes, discussões, Magic: The Gathering e, claro, jogos eletrônicos.

Comentários

Google
Disqus
Facebook