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Análise: Eagle Island (PC/Switch) — uma coruja como arma em uma aventura focada em precisão

Explore uma ilha perigosa nesse jogo indie de ação e plataforma que apresenta mecânicas criativas e alto desafio.


Um colorido e simpático visual em pixel art esconde a real complexidade de Eagle Island. Por trás da atmosfera relaxada há um jogo com conceitos bem simples, no entanto repleto de situações complicadas e difíceis. Em conjunto com aspectos gerados proceduralmente, temos uma aventura que demanda experimentação e destreza, resultando em um título interessante e divertido.

Preso em uma ilha perigosa

Um garoto chamado Quill está velejando com suas duas corujas Koji e Ichiro quando uma estranha tempestade aparece. Por causa disso, o barco vai parar em uma ilha, e lá Ichiro é raptada por uma ave imensa de nome Armaura. Explorando o local, Quill encontra um cientista que explica que a águia é um guardião que ficou descontrolado e ele afirma que a única maneira de salvar a coruja é obtendo a ajuda de outras aves-guardiãs. Sendo assim, o garoto vai desbravar a ilha a fim de conseguir uma maneira para resgatar Ichiro.


Para enfrentar os inúmeros perigos da ilha, Quill conta com a ajuda de Koji. Com o toque de um botão, a coruja pode ser lançada como se fosse um projétil e é a única maneira de ataque de Eagle Island. A ave pode ser atirada em oito diferentes direções, inclusive durante um salto. Com o avançar da aventura, Koji recebe poderes elementais que alteram seus ataques: o fogo cria uma pequena explosão, o relâmpago faz a ave ser lançada mais longe e o gelo congela inimigos. Essas habilidades especiais consomem joias azuis, logo é importante utilizá-las com cuidado.

Há forte incentivo em atacar com rapidez e precisão, pois combos dão recompensas. Acertar dois inimigos em sequência faz cair uma joia azul para utilizar as habilidades elementais, já um combo de quatro acertos ou mais gera corações para recuperar a vida de Quill. Atacar de qualquer jeito não é recomendado, pois Koji fica alguns momentos sem poder ser lançada após errar um alvo, o que deixa o garoto completamente vulnerável.


O mundo do jogo é dividido em fases espalhadas pela grande ilha. O detalhe mais curioso de Eagle Island é que cada estágio é gerado proceduralmente, ou seja, a cada tentativa precisamos enfrentar perigos diferentes. As fases não são completamente lineares e apresentam mapas complexos com bifurcações e passagens secretas claramente inspirados em metroidvanias. Durante a jornada, Quill e Koji adquirem novas habilidades que permitem explorar trechos anteriormente inacessíveis.

A atmosfera é fortemente inspirada em clássicos de plataforma da era 16-bits com gráficos em pixel art charmosos. Um detalhe muito legal é a iluminação dinâmica, que traz um toque moderno ao mundo do jogo: o fogo ilumina os personagens e gera sombras realistas, explosões de gelo criam nuvens que distorcem o ar, e assim por diante. Várias opções de acessibilidade permitem alterar o visual para maior clareza, como um recurso que cria um contorno em volta dos heróis e inimigos.


Atacando com precisão para sobreviver

Pode parecer que Eagle Island é um simples jogo de plataforma com algumas características leves de metroidvania, mas basta jogar um pouco para perceber que só isso não define a experiência. Há, também, forte influência de roguelites, principalmente na forma de desafio acentuado.

Eagle Island é um título difícil e que demanda dedicação. O motivo disso é que os estágios estão repletos de inimigos variados e complicados de lidar. Atacar lançando uma coruja é um conceito simples de entender, no entanto não é tão fácil de dominar: errar um lançamento significa ficar completamente indefeso por alguns segundos, o que pode significar morte. Além disso, a mira é limitada a somente oito direções, o que nos força a levar o posicionamento do herói em conta na hora de atacar. Muitos dos inimigos têm padrão de movimentação errático (o que dificulta a mira) e outros são bastante agressivos.


Sendo assim, explorar os estágios do jogo exige observar com cuidado os inimigos e cenários a fim de encontrar os melhores pontos para lançar os ataques. Um detalhe muito legal é o sistema de combo, que incentiva a agressividade: quanto mais inimigos derrotados em sequência em um curto intervalo de tempo, melhores as recompensas. Na verdade os combos são quase uma necessidade, pois uma sequência longa é uma das poucas maneiras de recuperar a vida do protagonista. Os ataques elementais abrem algumas opções de estratégia e é muito divertido utilizá-los nas combinações.

É um pouco difícil fazer combos longos, no entanto é muito recompensador quando conseguimos realizar tal façanha. Um dos meus momentos favoritos no jogo acontece quando consigo encadear vários ataques no ar, sem tocar o chão, alternando com golpes elementais em uma explosão de cores impressionante. Um recurso interessante é a possibilidade de salvar animações gif a qualquer momento por meio de um simples editor — perfeito para eternizar uma luta empolgante ou um combo bem executado.


Eagle Island tem várias opções para tornar a aventura acessível. Na dificuldade padrão Quill tem somente três corações, o que significa que basta muito pouco para ser derrotado — e acredite, isso vai acontecer com frequência. Essa configuração, em conjunto com a quantidade escassa de vida espalhada pelos estágios, torna necessária ter muita habilidade para sobreviver. Por sorte, o jogo conta com um modo fácil que abranda um pouco a dificuldade ao aumentar a vida máxima do herói e ao aumentar a quantidade de itens de recuperação pelos estágios. Mesmo assim, a aventura continua com dificuldade intensa, pois inimigos e perigos não mudam. Aqueles que quiserem um real desafio podem escolher uma dificuldade maior com mais restrições.

Muito conteúdo e um pouco de repetitividade

Os estágios do jogo exploram as mecânicas de falcoaria na forma de várias salas de combate interligadas com alguns desafios de plataforma bem simples. Cada um deles apresenta um mapa que vamos desbravando aos poucos, no entanto a progressão é majoritariamente linear. Pelo caminho encontramos baús com moedas e runas que alteram temporariamente as habilidades do herói. Em uma fase, por exemplo, a coruja Koji funcionava como um bumerangue e conseguia atravessar paredes. Em outro estágio, consegui uma que runa aumentou minha vida máxima e um artefato que guiava meus ataques. As runas ajudam a trazer diversidade aos estágios, mesmo que na maior parte do tempo seja algo aleatório e sem muito impacto — talvez permitir que o jogador escolhesse a seleção de runas deixasse esse recurso mais relevante e estratégico.


Por causa da dificuldade acentuada, morrer é algo comum em Eagle Island. Para trazer variedade, os mapas são gerados proceduralmente em cada uma das tentativas. É uma boa opção para evitar repetição, mas, particularmente, não apreciei muito o resultado: o desenho dos estágios é desinteressante e apresenta salas muito parecidas entre si. Para piorar, as diferentes áreas do jogo também não apresentam variedades de desafios — fiquei com a sensação de estar explorando os mesmos locais só que com visual e inimigos diferentes. Alguns pouquíssimos estágios têm mecânicas diferenciadas, como uma floresta em que somos forçados a fugir de uma fogueira, mas, infelizmente, são minoria. Aqueles que não gostam de geração procedural podem escolher uma opção de mapas fixos.

Há muito o que ver em Eagle Island em várias modalidades diferentes. No modo História exploramos a ilha e vamos obtendo novas habilidades conforme progredimos. É uma boa maneira para entender as mecânicas e possibilidades do título, no entanto o ritmo é um pouco arrastado e a história é básica. Há segredos escondidos na ilha e as fases contam com classificações de desempenho individuais — completar tudo exige dedicação.


O segundo modo é o Roguelite que, como o nome indica, transforma o jogo no conhecido gênero. Ele conta com vários percursos distintos, cada qual com duração, habilidades e fases diferentes: em um deles, por exemplo, temos pulo duplo, porém nenhum ataque elemental está disponível; em outro Quill tem um único coração, mas Koji já começa com vários poderes especiais; e assim por diante. Há grande variedade de percursos com regras distintas e vários outros podem ser desbloqueados. Por fim, o modo Speedrun nos desafia a terminar uma fase no menor tempo possível a fim de figurar em placares online semanais.

Uma aventura agradável

Eagle Island oferece uma interpretação curiosa do gênero de plataforma ao ter uma coruja como principal meio de ataque. É divertido lançar a ave contra inimigos como se fosse um projétil e é muito recompensador encadear sequências de golpes. O desafio é acentuado e há grande foco em posicionamento e precisão, mas, por sorte, existem opções para amenizar a dificuldade. Este é mais um daqueles jogos capaz de prender por muito tempo por causa da grande quantidade de conteúdo e da geração procedural de estágios, só peca um pouco por não oferecer muita variedade de situações. Eagle Island é uma experiência carismática e divertida, recomendado para aqueles que gostam de jogos de plataforma e roguelikes.

Prós

  • Conceito principal criativo focado em falcoaria;
  • Mecânicas focadas na precisão, com muitas opções de ataques;
  • Visual agradável;
  • Extensa quantidade de conteúdo.

Contras

  • Estágios muito parecidos entre si, mesmo com geração procedural;
  • Desenho dos níveis desinteressante em algumas situações.
Eagle Island — PC/Switch — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PC
Análise produzida com cópia digital cedida pela Screenwave Media


é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de boardgames, game music, fotografia e livros.

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