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Análise: Touhou Luna Nights (PC) — manipulação temporal em uma criativa aventura de plataforma

Explore um estranho castelo nesse indie japonês com jogabilidade inventiva e toques de metroidvania.


Touhou Luna Nights encanta logo de cara com seu belíssimo visual em pixel art, contudo basta jogar um pouco para perceber outras várias qualidades. Inspirado em uma série de shoot ’em ups com elementos de bullet hell, o título de ação e plataforma 2D conta com mecânicas interessantes muito bem exploradas em uma aventura criativa. Com ação ágil e toques de metroidvania, é um jogo que remete à era 16-bits ao mesmo tempo em que explora conceitos modernos, resultando em uma experiência revigorante. O título foi disponibilizado inicialmente no programa Acesso Antecipado do Steam, e muitas sugestões dos jogadores foram incorporadas à versão final.

Presa em um mundo perigoso

Touhou Luna Nights utiliza conceitos e personagens da série Touhou Project, no entanto não é necessário conhecer a franquia para entender a simples história. Um dia, a empregada Sakuya Izayoi se vê em um local estranho e cheio de perigos. Ela já está acostumada a esse tipo de situação por já ter visitado o Gensokyo, mundo paralelo habitado por youkais — criaturas do folclore japonês — , no entanto esse lugar parece estar situado em uma dimensão completamente diferente. Logo ela descobre que este mundo é criação de sua mestra, a vampira Remilia Scarlet, mas não sabe ao certo a motivação de tudo isso. Sendo assim, Sakuya vai explorar o local em busca de sua mestra e de respostas.

Sakuya é uma empregada, mas ela não é inofensiva, pelo contrário. Além de atacar lançando inúmeras facas, a garota tem à disposição poderes de manipulação de tempo: é possível deixar tudo em câmera lenta ou então parar completamente a ação. São habilidades poderosas, contudo existem várias limitações. As facas e outros ataques ofensivos consomem MP, e atacar de qualquer jeito drena rapidamente o medidor, o que significa ficar indefeso. Já o poder de parar o tempo só funciona por um curto intervalo de tempo, logo é importante utilizá-lo com inteligência.


Um recurso curioso é a Graze, uma técnica de recuperação de MP e vida que veio diretamente dos títulos shoot ’em up da franquia Touhou. O termo pode ser traduzido como “toque leve”, o que dá uma dica de seu funcionamento. Para ativar a Graze, Sakuya precisa quase entrar em contato com inimigos, projéteis e outros perigos. Como a recuperação do MP é lenta, é imprescindível utilizar constantemente a habilidade para ter condições de atacar, principalmente por causa da presença de muitos inimigos pelos cenários.

A presença da Graze faz com que a ação apresente forte sensação de risco e recompensa. Sakuya ataca à distância, no entanto somos forçados a nos aproximar de perigos para não ficar sem MP e completamente indefesos. A quantidade elevada de perigos e armadilhas deixam as coisas intensas, afinal, o risco de ser atingido e morrer é alto. Por sorte, os comandos são muito precisos e é fácil controlar Sakuya com agilidade, sendo possível parar o tempo para conseguir executar a Graze com maior segurança (no entanto as recompensas são bem menores nesse estado). Gostei bastante do incentivo proporcionado pela Graze: é muito empolgante adentrar o caos de perigos em busca de MP e tentar sair ileso.

Manipulando o tempo para superar complicações

Na prática, Touhou Luna Nights é um jogo de ação e plataforma tradicional, com alguns poucos elementos de metroidvania. Sakuya explora um grande castelo com mapa elaborado, no entanto o caminho é linear com algumas poucas bifurcações — a progressão é tão direta que o jogo é dividido em “estágios”. No decorrer da aventura, a protagonista adquire novas habilidades, como pulo duplo e facas capazes de destruir certos objetos, sendo que o backtracking (revisitar cenários anteriores em busca de segredos ou caminhos alternativos) é reduzido e completamente opcional.

O desenho dos cenários do título é seu maior destaque. Pelo caminho, aparecem inúmeros obstáculos e situações que envolvem utilizar os poderes de manipulação de tempo de Sakuya. Uma armadilha de espinhos giratória, por exemplo, só pode ser atravessada ao desacelerar a ação; água se torna sólida quando o tempo está parado, permitindo alcançar novos locais; algumas portas abrem por alguns poucos segundos quando um botão distante é ativado, exigindo que a ação seja interrompida para conseguir atravessá-las a tempo. Aos poucos, as coisas ficam mais complexas, como projéteis imunes à manipulação temporal, perigos que se movem na direção contrária quando o tempo está parado e muito mais.

A presença de muitos elementos, perigos e inimigos traz a sensação de que Touhou Luna Nights é uma espécie de puzzle de navegação. Constantemente precisamos avaliar a situação e tentar entender qual é a melhor maneira de prosseguir: desacelero a ação para conseguir derrotar rapidamente os monstros? Ou será melhor parar tudo e usar as facas como plataformas para escapar? É importante fazer esse tipo de reflexão, pois a dificuldade é de moderada para alta, bastando poucos erros para morrer. E ser derrotado significa jogar novamente partes complicadas, pois os pontos de salvamento são distantes entre si. As últimas áreas, em especial, me deram muito trabalho por causa da presença de muitos elementos perigosos — mas a diversão é justamente conseguir superar os desafios.

O combate é simples, mas efetivo, explorado por inúmeros tipos de inimigos que exigem estratégias diferentes. Para isso, Sakuya tem à disposição curiosas armas especiais, como uma faca paralisadora, projéteis teleguiados e uma serra elétrica que é lançada em arco. O ponto alto dos confrontos aparece nas lutas contra os chefes. Os mestres, como é de praxe, atacam de maneira feroz e constante, com momentos com tantos projéteis na tela que lembram o bullet hell de shoot ’em ups. Um detalhe importante vem do fato de que o MP provavelmente vai acabar bem rápido em uma luta de chefe, sendo essencial executar a Graze constantemente para sair vitorioso. Apreciei, também, alguns aspectos de puzzle nesses embates: ataques e padrões de projéteis específicos só podem ser evitados ao utilizar a manipulação de tempo correta. O resultado são batalhas interessantes, empolgantes e memoráveis.

A beleza proporcionada pelos pixels

O visual de Touhou Luna Nights é outro aspecto que chama a atenção, com gráficos construídos em pixel art elaborado. Os cenários têm inúmeros detalhes e várias camadas de elementos, já os personagens contam com sprites intrincados e bem produzidos. Gostei, especialmente, da fluidez: partículas voam pela tela durante os combates, os ataques têm animações estilosas e tudo parece muito gracioso. Fiquei impressionado com o esmero depreendido na protagonista Sakuya e nos chefes, há muita personalidade em seus movimentos. Só senti falta de mais variedade nos cenários: o jogo se passa em um castelo e o tema das áreas não sai muito do lugar comum (bibliotecas, masmorras, sala de máquinas).

Uma trilha sonora agitada complementa a ação intensa do título. A música combina elementos tradicionais japoneses e elementos eletrônicos, com melodias com mudanças de ritmo peculiares. Os fãs da série vão se divertir ao ver músicas de jogos anteriores reimaginadas aqui.


O custo de tanta criatividade e esmero pesa na duração do jogo: a aventura pode ser terminada em algumas poucas horas, dependendo da habilidade do jogador. Itens escondidos e alguns segredos ajudam a estender um pouco o tempo de jogo, mas fora isso não há mais nada para ver. A produtora promete mais conteúdo no futuro, como modo boss rush, conquistas, outros níveis de dificuldade e uma fase adicional. Toda a jornada em si é divertida e frenética, no entanto fica a sensação de que mais poderia ser feito.

Uma experiência notável

Conceitos bem aplicados e muita criatividade são os destaques de Touhou Luna Nights. Controlar Sakuya é empolgante por causa da ação ágil e várias ferramentas à disposição, como a técnica Graze. As opções de manipulação de tempo são exploradas de formas bem interessantes, resultando em ótimos momentos que combinam plataforma e puzzles de navegação. Tecnicamente, é um título impecável por apresentar visual excepcional, direção de arte elaborada e boa música, por mais que sofra um pouco por ter conteúdo limitado. Sendo fã ou não da franquia, Touhou Luna Nights é imperdível.

Prós

  • Ótima interpretação do gênero plataforma 2D com alguns toques de metroidvania;
  • Mecânicas de manipulação do tempo são utilizadas de forma criativa;
  • Combate ágil com incentivo a risco e recompensa;
  • Visual e áudio muito bem produzidos.

Contras

  • Pouco conteúdo.
Touhou Luna Nights — PC — Nota: 8.5
Revisão: Alberto Canen
Análise produzida com cópia digital cedida pela PLAYISM

é brasiliense e gosta de explorar games obscuros e pouco conhecidos. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de boardgames, game music, fotografia e livros. Além de mostrar seus cliques no Flickr, tem também um blog onde escreve sobre inúmeros assuntos e também pode ser encontrado no Twitter.

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