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Análise: The Textorcist: The Story of Ray Bibbia (PC) — digitando para exorcizar demônios

Seja rápido no teclado e tente sobreviver nesse curioso título de mecânicas inusitadas.


The Textorcist: The Story of Ray Bibbia é um jogo indie que combina dois conceitos conflitantes. Na pele de um exorcista, precisamos digitar palavras cuidadosamente ao mesmo tempo que escapamos de inúmeros projéteis de organização complicada no estilo chuva de balas (ou bullet hell). Parece complicado (e de fato é), no entanto a ideia funciona, resultando em uma experiência única e de dificuldade intensa.

Digitando para sobreviver

Ray Bibbia é um exorcista que saiu da Igreja por causa da corrupção e ganância de seus membros. A decadência da organização afetou Roma, que foi tomada pelo caos: a criminalidade é alta e há problemas por todos os cantos da cidade. Além disso, demônios têm possuído cada vez mais pessoas, deixando a situação ainda pior. Ray, que agora age de forma independente, trabalha para mandar as forças malignas de volta para o seu lugar e acaba envolvido em uma série de fatos que remetem a segredos do seu passado.

Para banir os demônios, Ray precisa recitar encantamentos de exorcismo. Mas, naturalmente, as criaturas não vão simplesmente esperar seu fim, pelo contrário: elas atacam com esferas de energia e outros recursos. Sendo assim, precisamos digitar as palavras do feitiço ao mesmo tempo que usamos as setas do teclado para controlar Ray e escapar dos perigos. Para piorar, o herói precisa estar próximo do inimigo para que o encantamento funcione, e ser atingido faz o tomo cair no chão, impedindo a digitação — demore muito tempo para recuperar o livro e a frase precisará ser digitada desde o início.


Digitar e mover um personagem simultaneamente já não é uma tarefa fácil, e The Textorcist deixa as coisas mais complicadas por ter inúmeros projéteis na tela. Na maior parte do tempo, o jogo é um representante do gênero bullet hell, com tiros de configuração complexa infestando a arena. Então, para sobreviver, é essencial prestar atenção em aberturas para conseguir digitar rapidamente os encantamentos. Por sorte, Ray só leva dano quando é atingido sem estar com o livro na mão, logo há algum espaço para erros.

Curiosamente, The Textorcist também pode ser jogado com um controle tradicional, tornando a experiência bem diferente. Nessa modalidade, os botões L e R são utilizados para digitar as palavras, bastando apertar a tecla correspondente à letra correta. A principal vantagem dessa configuração é a possibilidade de se mover e digitar simultaneamente com certa facilidade, porém é muito mais complicado completar as palavras rapidamente. É uma opção interessante, no entanto achei que o jogo fica ainda mais difícil em alguns momentos, no fim acredito que é melhor utilizar o teclado.


A aventura é dividida em batalhas contra chefes intercaladas com alguns curtos momentos de exploração. Até mesmo a interação com objetos é feita via digitação e esses trechos ajudam a quebrar o ritmo frenético dos combates. Uma história simples dita o ritmo e ela prende com várias situações malucas ou absurdas. O tema principal pode parecer sombrio (afinal se passa em uma cidade decadente tomada por demônios), mas há um constante humor negro na forma de diálogos divertidos (e um pouco profanos). Um visual em pixel art estilo 16-bits complementa o charme de The Textorcist.

Vade Retro Diaboli

Basta entender o conceito de The Textorcist para saber que ele é um jogo difícil. Contudo, a diversão é justamente se adaptar a essa ideia maluca de digitar e escapar ao mesmo tempo. No começo, tive muita dificuldade em controlar Ray. A parte mais complicada foi conseguir coordenar as mãos entre a digitação e movimentação, já que para andar eu precisava mover a mão direita para a parte das setas no teclado, comprometendo o avanço nos encantamentos. Também é intimidadora a grande quantidade de projéteis na tela, muitos momentos viram um “inferno de balas”, literalmente.

No entanto, com insistência, consegui observar pontos em que eu podia digitar sem ser atingido, logo eu aproveitava para escrever bem rápido e avançar. Depois de algumas tentativas, já tinha dominado os conceitos principais e o jogo ficou bem divertido (mas ainda muito difícil). É um título sobre observar padrões, encontrar oportunidades e ser rápido com os dedos — é uma experiência bem intensa, minha adrenalina sempre estava nas alturas ao sair vitorioso de alguma batalha por um triz.


O foco de The Textorcist são batalhas contra chefes, sendo que cada uma delas é dividida em várias etapas de dificuldade crescente. Os encantamentos, que são baseados em exorcismos reais, têm palavras em inglês e latim, sendo assim demora algum tempo até você se adequar aos termos. Um detalhe legal é que cada batalha tem elementos únicos: uma gosma impede de ver as letras por algum tempo, um demônio é capaz de embaralhar as palavras, um outro oponente empurra o livro de Ray para longe, e mais. Os intrincados padrões de projéteis mudam bastante entre os confrontos, o que faz com que cada batalha tenha um ar único.

Títulos do gênero bullet hell demandam muita atenção e têm alto desafio como característica, e The Textorcist não é exceção. Mas, infelizmente, o jogo tem alguns picos de dificuldade bem desagradáveis. Em algumas batalhas, principalmente mais para o final da aventura, aparecem momentos extremamente complicados em que é praticamente impossível não ser atingido por padrões difíceis de entender ou tiros que aparecem quase sem aviso. Para piorar, esses trechos mais intensos exigem digitar palavras complicadas com pouquíssimo espaço para erros. Isso faz com que a experiência seja um pouco frustrante, exigindo tentar a mesma batalha inúmeras vezes desde o início para conseguir vencer.


Por fim, senti falta de algumas opções para amenizar um pouco a dificuldade, como checkpoints ou mais vida. Eu entendo que a proposta é ser bem difícil, contudo acredito que seria interessante possibilitar que os menos habilidosos também pudessem experimentar o jogo. A quantidade de conteúdo é reduzida: existem dez chefes, sendo placares de pontuação o único incentivo para revisitar a aventura.

Criativo e profanamente divertido

The Textorcist: The Story of Ray Bibbia se torna um jogo sem igual ao mesclar conceitos tão diferentes. Digitar exorcismos no teclado ao mesmo tempo que escapamos de inúmeros projéteis é complicado, no entanto é justamente a junção dessas duas características que faz a experiência ser divertida. As batalhas apresentam desafios e padrões variados, o que força o jogador a aprender novos truques constantemente. Além disso, a ambientação é cativante com a presença de uma trama com humor negro e bom visual. De negativo, temos uma dificuldade que pode ser frustrante em alguns momentos e ausência de opções para tornar o título mais acessível. Intenso e diferente, The Textorcist é para aqueles que gostam de alto desafio e criatividade.

Prós

  • Conceito principal original e desafiador;
  • Boa variedade de situações entre as várias batalhas;
  • Temática divertida acompanhada por boa ambientação.

Contras

  • Ausência de opções de dificuldade;
  • Pouco conteúdo.
The Textorcist: The Story of Ray Bibbia — PC — Nota: 8.0
Revisão: Alberto Canen
Análise produzida com cópia digital cedida pela Headup Games
Farley Santos é brasiliense e gosta de explorar games obscuros e pouco conhecidos. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de boardgames, game music, fotografia e livros. Além de mostrar seus cliques no Flickr, tem também um blog onde escreve sobre inúmeros assuntos e também pode ser encontrado no Twitter.

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