Discussão

Estão exagerando nos convidados especiais?

Personagens adicionais sempre vão bem, mas talvez estejamos chegando ao ponto de distorcer a personalidade dos jogos.

Caro leitor/jogador, pare e pense naquela sua franquia favorita. Até que ponto seria legal ver o protagonista ou algum dos personagens dela em outro gênero ou série? Até que ponto seria divertido ver um aventureiro em um carro de corrida, ou até mesmo um vilão de outra mídia combatendo mestres de artes marciais?

Essas perguntas têm uma justificativa específica. Estamos em uma era em que tem se tornado comum diversos jogos, principalmente no gênero de luta, adicionarem personagens. O que uma hora foi divertido agora começa a trazer dúvidas e levantar sobrancelhas. Afinal, aquele convidado era realmente necessário ali?

Convidados pré era DLC

A prática de uma desenvolvedora colocar personagens de uma série em outra não é tão recente assim. A Blizzard Entertainment, ainda sob o nome de Silicon & Synapse, já havia feito isso como um easter egg no começo dos anos 90. Ao fazer um código específico na versão de Super Nintendo do aclamado Rock N’ Roll Racing (Snes/MD) era possível selecionar Olaf, um dos protagonistas de The Lost Vikings (Multi).

Desde então tornou-se bastante comum ver diversas franquias de uma mesma produtora se conversando, independente de seu gênero de origem. A Bandai Namco já colocou Heihachi Mishima e Ling Xiaoyu (Tekken) nas quadras de tênis, a Neversoft mostrou que o Spider-man manda bem demais com um skate e a Xbox Game Studios colocou Rash (Battletoads) para cair na porrada. Isso só para citar algumas poucas situações emblemáticas.

Em outros casos, a adição pode dar tão certo que o personagem se torna fixo. Um ótimo exemplo disso é Ryu Hayabusa. O ninja, famoso por protagonizar a série Ninja Gaiden desde os primórdios do NES, tornou-se um dos lutadores favoritos de toda a saga Dead or Alive.

São apenas negócios

Com o apelo que o entretenimento virtual foi ganhando ao longo do tempo, foi comum que muitas personalidades tentassem emplacar sua imagem, ou de alguma criação sua. Isso acabou criando uma vertente mais comercial, que foi usada como parte de diversas negociações, principalmente naquelas que envolviam uso de imagens.

Em Sonic & Sega All-Star Racing Transformed (Multi), além dos personagens escolhidos pela Sega, temos dois convidados bastante exóticos. Um deles é Ralph, protagonista da animação da Disney, Detona Ralph (2013). O motivo dele estar ali fica bem claro quando vemos a participação de Sonic e Robotnik no longa. Outra razão que justifica essa presença é o remake de Castle of Illusion Starring Mickey Mouse (Multi), lançado no ano anterior pela desenvolvedora japonesa. Por Ralph já ser um personagem de animação, sua inclusão é sutil e bastante divertida.

A outra convidada é Danica Patrick, uma famosa piloto que atualmente corre em uma das categorias da NASCAR. Além de emprestar a voz para seu alter ego virtual, Danica também estrelou o comercial veiculado na América do Norte. Essa ação visou aumentar o apelo do jogo com o público da terra do Tio Sam, e parece ter dado certo. Apesar dela ser uma humana, e convenhamos que a interação do Sonic com humanos não é lá algo memorável (não dá para perdoar aquele beijo de 2006), o fato de escolherem uma mulher em meio a tantos outros nomes é uma sacada bem pensada.

Um caso mais antigo, e já citado por nós em nosso especial sobre os convidados de SOULCALIBUR, é o de Spawn em SOULCALIBUR II (Multi). Enquanto as versões de PS2 e GC tinham personagens de franquias famosas no console (Heihachi Mishima e Link, respectivamente), a versão para Xbox contou com a inclusão da criação de Todd McFarlane. Lógico que isso veio ligado a outra negociação, já que a linha de figuras de ação seria feita pela empresa do quadrinista, a McFarlane Toys.

Ideia mal aproveitada

Acima estão alguns exemplos que deram certo, porém muitos outros acabam se mostrando chances que poderiam ser muito melhor aproveitadas. A NetherRealm, atual produtora da franquia Mortal Kombat, conseguiu usar diversos nomes consagrados dos filmes de terror, como Jason Voorhees, Freddy Krueger e Leatherface. Apesar de terem ocupado o possível espaço de diversos personagens que o público queria que retornassem, o estilo cruel deles caiu como uma luva para a série nos últimos dois jogos.

Porém, por que não ir além e fazer um jogo de luta mesmo com todos esses personagens, focados nos clássicos do horror? A ideia tem tudo para dar certo, inclusive existem diversos projetos gratuitos que tentaram isso. Um exemplo é o Terrordrome (PC), um game que segue exatamente essa fórmula e possui uma popularidade razoável.

Se um projeto desses vingou, como não apostar em algo mais refinado, como o visual característico de MK e um número grandioso de figuras consolidadas? Até que ponto é mais vantajoso manter esses nomes de peso apenas como figurantes em vez de investir em algo que lhes corresponderia melhor?

Outra prova que juntar diversas personalidades pode sim dar certo é a série Def Jam. Em três jogos, a EA juntou grandes nomes do rap e os colocou em combates divertidos. A franquia, que infelizmente não dá sinais de voltar nessa geração, deixou uma legião de fãs pela mistura de socos e hip hop.

Estranho no ninho

Outra desventura que pode ocorrer são personagens incluídos totalmente fora de um contexto. Celebridades viram lutadores, corredores, aventureiros, esportistas e até mesmo NPCs (non playable characters). Isso faz com que eles acabem ocupando um espaço que poderia ser melhor destinado a alguém do elenco original. Com essas adoráveis presenças, as primeiras perguntas que surgem são: “como aquele cara foi parar ali?”, “qual a necessidade disso?” e “por que colocaram ele aí em vez de trazer o fulano de volta?”.

Uma personalidade emblemática nesse quesito é Fred Durst, vocalista da banda Limp Bizkit. Por falta de um, ele apareceu em três títulos distintos: WWF SmackDown! Just Bring It (PS2/PC), WWF RAW (XB/PC) e Fight Club (PS2/XB). Dada a popularidade controversa do artista, talvez a inclusão dele nesses jogos deva esconder o desejo de descer a porrada nele sem culpa. Entretanto isso é só um palpite, já que ninguém consegue explicar como ele conseguiu tal façanha.

Nessa semana as atenções estarão voltadas para Negan, antagonista da série The Walking Dead. Seu anúncio como um lutador de Tekken 7 (Multi) pode até ter agradado os fãs do show televisivo, mas os adeptos dos confrontos de Kazuya e companhia talvez não tenham curtido tanto a ideia. A sensação que fica é que o convidado especial acabou ocupando a vaga de algum outro personagem mais querido e requisitado, como Bruce Irving, Zafina ou Baek Doo San.

Será que Negan vai acabar conquistando mais seguidores ou acabará sendo mais uma ideia mal executada? Deixem suas opiniões nos comentários e digam também qual convidado foi o favorito de vocês ou qual causou mais estranheza. Até a próxima!

Revisão: Francisco Camilo

é pai do próximo Batman, tio de uma princesa e viúva da Sega. Só sabe jogar títulos de luta, se mata frequentemente em FPS e adora uma velharia (que todo mundo agora gosta de chamar de retrô). Ah, ele está esperando até agora pelo Ridge Racer dessa geração também.

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