Quando renovar é preciso

Conforme o tempo passa, as vezes é preciso se atualizar para se manter relevante.

Fim de ano é uma época que podemos tirar da fila algumas obras que ficaram para trás. No meu caso peguei para jogar God of War que facilmente assumiu o posto de melhor de 2018 para mim. Dentre tantas qualidades desse título eu gostaria de falar de uma em especial. Algo que até combina com esse clima de começo de ano. A habilidade do diretor Cory Barlog e do Santa Monica Studios de pegar uma franquia e um personagem tão fortes e mudá-los de uma forma tão radical.


A marca God of War sempre foi algo muito clara para os fãs: um dos jogos chave da era PlayStation 2, com ação frenética, violência sem limites e muito sangue. Algo que embora tenha feito muito sucesso nos anos 2000, podemos dizer que já não funciona muito bem hoje em dia por vários motivos. Digo, os jogos antigos ainda são ótimos para serem jogados, mas um novo título nesse formato já não funcionaria. God of War Ascension de 2013 já demonstrava o cansaço da fórmula.

Assumir a encrenca de pegar uma marca tão forte e tentar revitaliza-la sem perder os laços do passado é uma tarefa árdua. Definir os limites que podem ser ultrapassados e os que devem ser mantidos são questões repletas de detalhes. Saber os limites da renovação e da tradição pode ser uma armadilha muito perigosa. O desenvolvedor deve entender qual é a alma daquela série, daquele personagem e saber manipulá-lo para ao mesmo tempo trazer algo novo mas sem esquecer o histórico da franquia.


O próprio God of War (2018) executa essa tarefa com maestria por não ser um simples reboot mas uma continuação da narrativa já conhecida. Usa o passado como o motor inicial para essa nova aventura, justificando as mudanças que aconteceram com Kratos na trama. No campo das mecânicas, alterações foram feitas para atualizar os combates, algo inevitável, mas mesmo essas mudanças se justificam pela nova postura do guerreiro espartano. Tudo é tão bem amarrado que quando o primeiro plot twist acontece (é, aquele lá mesmo) o impacto é imenso.

Sair do lugar comum e dar novos rumos à franquias já estabelecidas nunca é fácil, mas por vezes é o único caminho possível para seguir em frente. Não lembro de nenhum título que tenha feito isso com a maestria de God of War, mas há bons exemplos — e outros nem tanto — de jogos que se reinventaram ao longo dos anos.

Começando de novo

O ponto de partida mais óbvio para uma renovação sempre é o reboot. Começar tudo do zero e atualizar histórias datadas, mecânicas ultrapassadas ou simplesmente pegar coisas que acabaram se perdendo no tempo e no esquecimento. Podemos começar com Tomb Raider que em 2013 resolveu passar a régua na extensa série de aventuras de Lara Croft e começar de novo.


Nessa nova fase somos apresentados a Lara ainda no começo de sua formação como a heroína na qual ela é conhecida. Sua personalidade e o universo a seu redor são construídos de forma muito mais equilibrada dando mais profundidade à personagem, que fechou seu primeiro ciclo em Shadows of the Tomb Raider.

Mesmo trazendo uma Lara bem diferente da anterior, essa nova fase se manteve fiel à essência de seu passado, focando na exploração e envolto de mistérios de civilizações antigas além de uma excelente jogabilidade.

Outros jogos que optaram por voltar às origens e obtiveram bons resultados foram DOOM (2016) e Wolfestein: The New Order. A dupla de shooters da Bethesda soube conciliar os avanços tecnológicos com o que fez esses títulos serem tão especiais no passado. DOOM merece um destaque maior pois pegou mecânicas usuais dos FPS dos anos 90 que já haviam caído em desuso e soube renová-las com tremendo sucesso.


Podemos listar outros reboots que deram certo: Mortal Kombat (mesmo que tecnicamente ele continue a história), XCOM: Enemy Unknow, Prince Of Persia: Sands Of Time, Ratchet & Clank entre outros.

Vale aqui falar um pouco sobre DMC: Devil May Cry, reboot da famosa série de ação da Capcom. Sem sombra de dúvidas um ótimo jogo mas que acabou não vingando, fazendo inclusive a desenvolvedora voltar para a cronologia original. Por mais que DMC tenha um ótimo combate, uma das marcas da franquia, ele não conseguiu igualar o carisma dos personagens originais, outro pilar importantíssimo da série. Não vou dizer que o novo Dante é ruim, na minha opinião é só diferente, mas superar toda a maluquice dos originais é muito difícil. E sinceramente fico feliz que o velho Dante esteja de volta.

Arrumando a bagunça

Outras séries optam por fazer mudanças mais bruscas sem recomeçar tudo de um ponto inicial. Assassin’s Creed passou por isso recentemente após saturar completamente a fórmula dos primeiros jogos. Trouxe com Origins uma abordagem completamente nova ao game, que foi melhorada com Odyssey. A Ubisoft refez praticamente todo o gameplay, uma decisão acertada. A reconstrução de sistemas trouxe um frescor necessário para uma franquia que havia se acomodado no lugar comum.

Resident Evil é outro caso de mudanças pesadas buscando novos ares. A primeira vez foi com Resident Evil 4, com alterações bruscas na câmera e nos cenários, dando um pouco mais de ênfase a ação. O enredo do jogo se destaca por seguir um caminho diferente, se distanciando do T-Vírus e da Umbrella. Foi um game muito bem recebido e que apontava um rumo promissor. Contudo, RE 5 e RE 6 não tiveram o mesmo sucesso, especialmente o sexto episódio que é uma verdadeira salada de estilos.


Tentando colocar as coisas em ordem novamente, Resident Evil 7 trouxe tudo novo, com novos personagens e sendo o primeiro da série numerada em primeira pessoa. Mas mais importante, RE voltou a ser um jogo que dá medo no jogador, que o coloca em um ambiente hostil e tenebroso.

Finalizando esse tópico, Saints Row 3 é um grande exemplo de mudança de rumo que deu certo. Enquanto os dois primeiros andavam na sombra de GTA com um estilo mais sério, o terceiro capítulo resolveu abraçar a brincadeira galhofa e enveredou para um lado totalmente cômico.

Volta que deu ruim

Saber a hora de mudar e buscar novas ideias é muito importante. Até agora citei vários casos de jogos que souberam se reinventar e se manterem sob os grandes holofotes. Porém as vezes nem tudo corre bem e mudanças drásticas fazem mais mal do que bem. Às vezes por não ser o momento correto, como foi com DMC. Ao menos nessas situações ainda contamos com um bom produto no final.

O que costuma acontecer nesses casos são jogos sofríveis, que não sabemos como foram aprovados de tantos problemas que apresentam. Você já ouviu falar de Final Fight Streetwise? Trazer a franquia de volta seria bacana, mas a execução foi horrível e acabou sendo a pá que faltava para enterrar de vez a série.

Em outros casos os problemas já aparecem no próprio conceito. Sério, quem achou que seria uma boa ideia Bomberman Act Zero? A série, conhecida por seus personagens fofinhos e coloridos foi desvirtuada completamente. Fico pensando quem achou que aquilo teria a menor chance de dar certo.


Não tem como falar desse assunto e não trazer Sonic para conversa, a maior montanha russa das séries no quesito qualidade. Eu amo o personagem, jogo desde o Master System, mas Sonic the Hedgehog de 2006 é o exemplo do que não fazer em uma renovação de marca. Tá tudo errado ali. Alguns anos depois em Sonic Unleashed a Sega conseguiu trazer um ótimo formato para as fases de Sonic normal ao mesmo tempo que nos “presenteou” com a jogabilidade quebrada do lobisonic.

Desde então, talvez o maior pecado da série do ouriço seja querer renovar demais. A cada jogo o Sonic Team parece querer reinventar a roda. Às vezes acerta, como em Colors e Generations. Às vezes não, como em Forces e Sonic Boom (o jogo, a animação é ótima). Vale a menção ao maravilhoso Sonic Mania, esse sim uma digna repaginada do formato clássico do azulão.


Revitalizar séries encostadas nas mesmice ou trazer algum herói do passado sempre são iniciativas interessantes e por vezes a melhor forma de alguns estúdios conseguirem investimentos. Contudo esse trabalho não envolve somente pegar um nome famoso e fazer qualquer coisa em cima dele. É preciso entender os pilares que os sustentam e investir para que todas as mudanças sejam coerentes com a proposta. God of War nos mostrou que é possível mudar completamente um jogo mas, ainda assim, se manter fiel ao seu legado. E espero que ele sirva como referência daqui em diante.

Revisão: Diogo Mendes

Flávio Augusto Priori é formado em design de jogos e tenta ganhar a vida com esse negócio chamado video game. Para ele Metal Gear é a melhor série já feita e ainda acredita na volta da SEGA. Escrevia para o saudoso Minha Tia Joga LoL e hoje pode ser achado no Facebook e no Twitter.

Comentários

Google+
Disqus
Facebook