Crônica

Como me tornei um jornalista de games

Os videogames estão presentes em minha vida tanto tempo quanto a música e no decorrer da vida os games acabaram entrando em minha vida profissional.


Desde os longínquos anos 1980 eu vejo os videogames como um companheiro. Quando meu pai trouxe um Philips Odyssey naquele Natal de 1986 minha mente se abriu para um novo mundo e, a partir daí, fui acompanhando todo seu evoluir tecnológico, criações de franquias e até guerras envolvendo o mundo dos consoles caseiros.


Com o passar do tempo tive outras paixões e encontrei na música uma outra válvula de escape do mundo cotidiano. Mesmo assim, nunca deixei a paixão pelos games de lado, podia tirar 3 ou 4 horas estudando música com uma guitarra em punho, porém, não faltava tempo para ligar meu companheiro de vida para entrar em outros mundos.

Então, desde minha tênue infância tenho um videogame como companheiro de aventuras, agregando amigos em acirradas disputas, sejam elas em tentar salvar o mundo, em bater recordes ou simplesmente em ter os melhores times vencendo campeonatos. Assim começou minha paixão pelos videogames.

Agregando amizades

Na frente de um console pude fazer grandes amizades. Com o meu velho Odyssey foram horas de diversão com meus amigos da Rua da Saudade, além das disputas com meu irmão. Fosse para saber quem era o mais rápido no gatilho no Duelo do Velho Oeste, ou ver quem fazia a pontuação maior no Senhor das Trevas e no Didi na Mina Encantada. Também trabalhávamos em conjunto tentando resgatar os 10 anéis perdidos no Em Busca dos Anéis Perdidos.

Didi na Mina Encantada para o Philips Odyssey

Os anos passaram e as disputas com o meu irmão permaneceram – migraram para o FIFA – e outras amizades construí. Foram os amigos de escola, estes até hoje presentes, além dos novos amigos da Rua Trairí, quando me mudei em 1989. Os consoles estavam sempre presentes agregando novas amizades.

Eu fui seguindo esta evolução, acompanhei de perto o nascimento da Sega e da Nintendo. Vi surgir uma guerra épica entre as duas empresas e também vi surgir novas concorrentes enterrando de vez o meu sonho de obter o mais novo console da Sega.

Em torno disso tudo as amizades continuaram, fui um seguista solitário entre meus amigos, pois a grande maioria tinha um Nintendo em casa, mas também tive a sorte de prestigiar os jogos nintendistas na casa deles. Estas amizades foram o prêmio maior que a convivência com os consoles pôde me propiciar, pois são eternas, mesmo aquelas que não tenho mais contato, porque estarão guardadas pra sempre em minhas memórias.

Dúvida entre duas paixões: jornalismo X música

Os anos passaram e chegou a temida época do vestibular (para os mais novos, era o modo que tínhamos para poder entrar na universidade) e uma grande dúvida pairava sobre mim. Eu cresci com duas paixões, música e videogames, e sempre fui um leitor assíduo de revistas de ambas as áreas.

Todo início de mês sempre passava nas bancas de revistas procurando a nova Guitar Player ou Roadie Crew, bem como as Ação Games e Super Games para me atualizar sobre o assunto.

Quando lia essas revistas me via escrevendo para elas e escrever era outra paixão minha. Geralmente extravasava unindo tudo isso na música, compondo e fazendo as letras. Mas quando chegou o vestibular não soube o que fazer, se seguiria na música ou no jornalismo.



Eis que o lado financeiro pesou mais. Infelizmente Natal não é muito grata com seus artistas e isso reflete financeiramente também, então optei em seguir a carreira de jornalista. Claro que a música nunca saiu de mim, pois, mesmo sem nível superior na área (acabei me tornando um autodidata), tirei minha carteira de músico e continuei estudando, compondo e tocando.

Porém, quando me formei, a realidade foi outra. Atuar como jornalista acabou sendo muito difícil, havia pouco espaço e ainda tínhamos o menor piso salarial do pais. Para completar, pouco depois, o STF decide pela inexigência do diploma de jornalista para atuar na área, isso praticamente acabou com a profissão. Os grandes jornais da cidade demitiram a maioria dos jornalistas – permanecendo apenas aqueles de renome – substituindo por uma mão de obra ainda mais barata (estagiários ou aqueles sem nível superior).

Diante de toda esta situação eu já havia optado por outra carreira. Aproveitando minha paixão pela escrita, descobri o Direito quando estudava para concurso. Formei-me bacharel, passei no Exame de Ordem e me tornei advogado, abandonando o sonho de escrever nas revistas ou jornais.

Quando a mosca do jornalismo de games me picou

Já estava muito tempo afastado do jornalismo e muito bem engajado na advocacia quando a vontade de escrever voltou. Então em 2016 resolvi criar, muito mais para saciar minha sede por escrita do que para qualquer outra coisa, um Blog pessoal onde escrevia esporadicamente sobre diversos assuntos. Neste mesmo tempo passei a contribuir com o Força Metal BR escrevendo quinzenalmente na coluna Mestres do Metal, desta vez falando de minha outra paixão, a música.

Porém, quando li o livro Os Videogames e Eu, foi quando a mosca me picou. Fiquei tão imerso naquelas crônicas que me vi de novo dentro das locadoras. Havia conhecido o autor e também ex-blaster – Ítalo Chianca – em um dos eventos do Museu do Videogame Potiguar, neste dia, além de cultivar uma amizade com o escritor, também levei um exemplar do seu livro.



Foi o estopim para eu começar a escrever as minhas próprias crônicas games. Comecei publicando elas no meu Blog e, pouco depois, surge minha primeira oportunidade na área. Ítalo Chianca estava produzindo o livro Game Chronicles e pediu para colocar uma de minhas crônicas nele. Nem pestanejei e dei logo uma resposta afirmativa. E assim entrei de vez no jornalismo game.

Oportunidade: entrando de cabeça

Na época em que o Livro Game Chronicles estava sendo produzido eu continuava com meus afazeres normais, dividindo minha rotina entre o escritório, casa, banda e escrevendo esporadicamente no Blog. Até que uma postagem no Facebook me chama a atenção.

Era uma postagem que o próprio Chianca havia me marcado, foi feita pelo Sérgio Estrella que estava fazendo uma seleção para alguns cargos no GameBlast, dentre eles, o que me chamou a atenção foi o de Redator. Então resolvi arriscar, preparei meu currículo, linkei meu Blog e mandei para o Sérgio. Não esperava muito, afinal minha experiência na área gamer se resumia a algumas crônicas postadas despretensiosamente num blog pessoal. Antes disso só havia trabalhado como jornalista na área esportiva e cultural. De fato, não achava que iria ser chamado.



Meses depois, ao abrir minha caixa de e-mail, tive uma grata surpresa. Eu havia sido selecionado para ser redator do Blast. Nem acreditava, pois eu sei que dentro de todo o Brasil, muita gente com experiência na área havia se candidatado, ter ficado entre os escolhidos realmente me pegou de surpresa.

Dentro do Blast começou a fase de reaprendizado. Não só pelo fato de ter que aprender as normas técnicas, as regras do CEO, que é o equivalente ao Manual de Redação da empresa, mas também em reaprender a escrever e usar as ferramentas do portal. A última vez que usei tais ferramentas a internet era incipiente, eu usava ainda a linguagem em HTML, estava muito tempo parado e as ferramentas que eu usava no meu Blog eram muito simples, praticamente um “Manual para criar seu blog for dummies”. E o Blast já usa algo mais complexo.

No início apanhei um bocado, mas tive todo o apoio da família Blast. Toda dúvida que tinha era tirada, todo erro cometido era apontado e explicado como corrigi-lo, tudo isso de uma maneira muito didática e profissional. Muitas vezes me sentia dentro da universidade, aprendendo, ou melhor, reaprendendo, a transmitir informação. O Blast virou minha escola para se enveredar no jornalismo gamer.

Uma experiência que mudou minha visão profissional

Estudar as regras de CEO e reaprender a usar as ferramentas do portal foi apenas o início. O maior ganho de experiência que tive foi o voltar a escrever. Já estava acostumado a escrever peças processuais, petições para um juiz. Mas tive que esquecer tudo isso, todo o linguajar culto que a advocacia instiga, tive que deixar de lado. Afinal minha função era outra, eu ia contar histórias, ia falar de jogos, videogames, coisas que amo, e deveria ser bastante claro em transmitir minhas histórias.



Escrever sobre games, atuar como um jornalista de games, definitivamente mudou muito minha visão sobre o assunto. Já o levava muito a sério, bem antes de entrar no Blast, desde que comecei a colecionar, posteriormente escrevendo no meu blog e, principalmente no trabalho dentro do Museu do Videogame Potiguar, vi que os videogames devem ser levados à sério.

Mas escrever para o Blast ampliou muito mais essa visão, fez-me enxergar todo o profissionalismo dentro deste mundo, as pessoas envolvidas, e me fez ver o mundo dos games como uma verdadeira forma de arte, equiparando-se à música e ao cinema, videogames é sim uma forma de arte.

Além disso, pude realizar aquele meu sonho adolescente de escrever sobre aquilo que amo, em uma grande revista da área, e poder repassar para o público minha experiência em jogos, com videogames, e principalmente minha experiência e vivência com toda essa evolução tecnológica.

Com certeza hoje tenho uma outra visão profissional. Os videogames transcendem a simples função de entreter. Hoje eles são uma forma de arte tão importante quanto qualquer outra, pois também transmitem beleza, contam histórias, nos emocionam. Poder contar tudo isso dentro de minha profissão é uma realização, aumentou meu horizonte, me fez amadurecer como jornalista. Hoje sou um profissional melhor por ter vivido a experiência de ser um jornalista de games.





Jornalista, advogado e músico, ofícios que exerço com paixão. O amor pelos videogames veio no mesmo período que me apaixonei pela música, quando ganhei meu primeiro console - o Philips Odyssey - foi amor a primeira vista, é uma relação eterna com o mundo dos games

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